Primeiro vou dar uma pincelada no autor da obra o jesuíta português Fernão Cardim, o qual nasceu no Alentejo na data de fundação da cidade do Salvador (1549) e faleceu nos arredores da capital baiana, quando da expulsão dos holandeses, em 1626.
Ingressou na Companhia de Jesus (1566) e embarcou para a Bahia chegando em maio de 1583. Portanto. o que escreveu sobre a Bahia (e o Brasil) vivenciou, viu, participou e teve até uma compreensão mais ampla uma vez que sendo secretário do visitador da companhia, esteve nas províncias de Pernambuco, Ceará, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo. Eleito procurador da Ordem voltou a Portugal.
Quando reenviado Brasil, em 1601, foi aprisionado pelo corsário inglês Francis Cook e levado para Londres. Após a sua libertação retornou ao Brasil, em 1604, como Provincial da Companhia, de Jesus cargo que desempenhou até 1609.
Sua obra, constituída por dois tratados e cartas foi elaborada ao longo da década de 1580 e só foram publicadas no século XX, denominados de "Tratados da Terra e da Gente do Brasil" pelos esforços de Afrânio Peixoto, a partir do trabalho do historiador Capistrano de Abreu.
Considera Capistrano que "a obra de Fernão Cardim, apesar de pequena, é extremamente significativa pelo que podemos acompanhar dos relatos, entre o histórico e o etnológico, sobre a realidade geográfica e humana do Brasil."
Os seus dois primeiros textos, “Do clima e Terra do Brasil e Do princípio e origem dos índios do Brasil” foram publicados inicialmente em inglês, na coleção dirigida por Samuel Purchas, em Londres, 1623. O terceiro, a Narrativa epistolar de uma viagem e missão jesuítica, foi publicado em Lisboa em 1847 por Francisco Adolfo de Varnhagen.
Nós vamos comentar um desses textos iniciais datado de 1584, publicação em francês, intitulado "Moeurs & Costumes" (Editora Chandeigne, Paris, 2021, coleção Magellane dirigida por Ane Lima e Michel Chandeigne, 180 páginas; obras desse autor no Estante Virtual) e essas anotações são exatamente da época em que, como secretário do padre Cristovão de Gouveia, chegou ao Brasil e ficou até 1601 e no retorno a Portugal foi capturado por Cook e levado a Londres. Teria escrito esse texto em Londres quando estava preso. Tinha tempo de sobra, né.
No contexto da historiografia brasileira quando Cardim chegou (1583) estimava-se que, no Brasil, havia 57.000 habitantes dos quais 18.000 eram indígenas (mas, nessa época não se conhecia todo o território nacional) e 14.000 escravos e a maioria habitava Salvador, capital da Colônia, a essa época com 34 anos de existência, 3.000 portugueses (e outros europeus), 4.000 escravos e 8.000 indígenas (tupinambás).
A essa época, a evangelização cristã estava consolidada com as ações de Manoel da Nóbrega e José de Anchieta (participa das fundações das vilas de São Paulo - 1544; e Rio de Janeiro - 1565; e em Salvador os tupinambás já viviam na periferia (Paripe, Pirajá, Abrantes, etc) e a área que fora a aldeia do cacique (mayoral) Iperu (Tubarão) já estava sendo ocupada pelos beneditinos, doação dada por um português (onde se situa o Mosteiro de São Bento, centro de Salvador).
Nada disso impediu que Cardim conhecesse de perto a vida dos tupinambás e outros porque era secretário do visitador Gouveia, tinha que viajar, visitar as aldeias já ocupadas pelos jesuítas, e observou como eles vivem e seus costumes e o que chama de moral familiar. E, em seguida, tinha que produz relatórios para a Companhia de Jesus cuja sede era na Espanha.
Cardim cita um dado que nos parece inverossímil que, entre 1557 e 1561, perto de Salvador os tupinambás reuniam 11 aldeias e 34.000 indivíduos. Bem, se contou as aldeias do Recôncavo e Itaparica talvez seja provável.
E que costumes eram esses que descreve na obra: Cardim inicia falando do conhecimento do criador (Deus cristão) e os tupinambás não praticavam nenhuma adoração ao culto divino, mas temiam alguns demônios - Curupira, Taguaiba, Macachera e Anhanga.
Adianta comenta sobre a união (casamento), da forma de comer e beber, de dormir em redes, dos enfeites, a habitação, a educação das crianças, dos costumes de receber convidados, beber e fumar, das danças e entretenimentos, das mortes, das armas e utensílios, da maneira de matar humanos (eram antropófagos) isso não apenas restrito aos tupinambás, mas também a outros povos tupis, incluindo as diversas nações.
Na segunda parte do livro ele retrata o dossiê histórico e antropológico desde o Tratado de Tordesilhas que separou o Brasil, de língua portuguesa; da outra banda da América do Sul, de língua espanhola e os sistemas utilizados pela Coroa Portuguesa para ocupação e domínio do território.
Cardim, por posto, chega a Salvador na comitiva do governador geral e general Manoel Teles Barreto (1583/1587) em companhia do visitador Gouveia, nomeado por Felipe II, rei da Espanha (a Espanha dominou Portugal entre 1580/1640). Era, portanto, uma Bahia espanhola. Mas, isso pouco importa em relação aos nativos.
Ele não conheceu Nóbrega que havia falecido em 1570. O jesuíta mais proeminente era José de Anchieta (1554-1594) e o Brasil já possuía quatro seminários e um noviciato (Salvador, Rio, SP, Recife-Olinda) constituindo-se numa Província Autônoma da Companhia de Jesus.
Haviam mais conhecimento sobre o Brasil e as estimativas dos analistas da Corte é de que havia em torno 5.000.000 de indígenas, em todo território. Portanto, a conversão ao cristianismo e a conquista do território não seria tarefa simples. E várias campanhas que Cardim chama de pacificação (na verdade de matanças) aconteceram no Espirito Santo (abril e maio de 1558); Ilhéus (junho de 1559); as guerras do Paraguaçu (setembro de 1559) e assim por diante.
Em 1587, Cardim era professor do Colégio dos Jesuítas em Salvador, reitor entre 1590/1592 e confessor do governador e seus passam a ter grande relevância para compreensão dos povos Tupi-Guarani, a origem a partir do cone Sul, da religião, da agricultura, da organização política, da hospitalidade, da morte, da antropofagia, etc. Cardim, além de escrever sobre os costumes dos tupinambás de Salvador foi além com observações sobre nações indígenas do Brasil então conhecido, entre Rio Grande do Sul e Pernambuco.
Sobre os tupinambás do território de Salvador revela que comiam carnes de todos os tipos de caças até sapos e serpentes e “tudo mais que a terra oferece” em frutas e vegetais. Observa, no entanto, que eram cautelosos em relação a planta desconhecidas temendo serem venenosas. Que dormiam em redes e viviam em ocas coletivas ou individualizadas (a grupos de parentes), as mulheres tinham cabelos lisos negros e longos, usavam braceletes e enfeites com plumas e as ocas (casas) tinham 200 a 300 palmos cobertos de palhas e que costumavam receber convidados chorando.
Cardim também comentam que fumar tabaco e beber uma erva que consideram sagrada e que tinha para eles efeitos psíquicos, digestivos, medicinal e religioso e que na morte usavam a rede e choram e dançavam durante o dia antes do sepultamento em urnas, grandes cabaças. Que eram antropófagos e os prisioneiros de suas lutas entre as aldeias eram bem tratados, cevados, e executados em cerimônias que durante até 5 dias quando recebiam uma paulada na cabeça e eram esquartejados pelas mulheres e as carnes assadas.
Há outra citações e costumes citados pelo autor no livro.