Cultura

SALVADORES, CONTO 4: MANIAS, MANIAS, AS CAUSAS INFINITAS DA VIDA

Duas senhoras narram manias dos seus maridos e veem a aurora boreal sem precisar ir a Finlândia
Tasso Franco ,  Salvador | 02/02/2026 às 12:42
Noberto tem a mania de escovar a pijama na hora de ir dormir
Foto: SERAMV
   4. 

  MANIAS, MANIAS
 
  É de se dizer que a senhora Jovina Santos Silva chegou ao limite de sua paciência com o velho Noberto igualmente Santos Silva, o qual foi flagrado ao deitar-se para dormir escovando a pijama com uma escova usada para polir seus ternos. E, de quebra, depois de remover supostas impurezas do pijama, levou a bendita escova ao rosto penteando a barba e cofiando o bigode.

  - Chega de tantas manias – berrou Jovina – em alto e bom som, pois, o dito Noberto quando se recolhe ao berço retira os aparelhos que o ajudam ao ouvir no dia a dia, e se surdo já é de direito e de fato, ao recolher-se ao berço, sonolento, a surdez petrifica que nada ouve salvo quando Jovina dá berros que são capazes de acordar a vizinha do apartamento arriba, que também é sua amiga e confidente, a Taciana. Isso sensibiliza o sensível Noberto que lhe entrega a escova para guardá-la no closet.

  - Vou é jogar isso fora, pois, ternos nunca mais usastes após a aposentadoria, as gravatas estão mofando, as camisas sociais encardidas e escovas nesse modelo são para essa finalidade e não para cofiar bigode e barba de bode velho.

  - Lembre-se dá nossa boda de diamantes, quiçá de vinho, pois, vou precisar do terno azul, ao menos, e escová-lo é importante no passar dos anos para mantê-lo conservado.

  - Às favas com suas manias. Se chegarmos aos 60 anos de casados e, como dizes, quiçá aos 70, a tal de Bodas de Vinho, configura-se o milagre da Ressurreição do Senhor.

 - Isso mesmo. A missa e recepção com a banda do professor Josep serão nesse templo da Ondina e já tenho até a lista dos convidados.

 - Só rindo de sua prosopopeia, pois, a essa altura estarão todos na esfera de Jupiter, comendo torradas com garfos e consumindo drágeas para o coração com o uso de uma colher, como fazes, no rol de suas manias.

   - Ora, deixe-me dormir e vá prosar com Taciana que está a tocar a sineta da porta, beber algum tinto e fofocar, como fazem.

  - Que sineta! É a campaInha. Se for a distinta senhora será benvinda e o Chablis nos espera, pilheriou Jovina.

  Jovina cobriu os pés de Noberto, mandou que ele chegasse mais para o meio da cama para não cair, ele tudo observando no seu íntimo, fazendo de conta que já estava dormindo, e vendo a esposa se pentear e se maquiar, rapidamente, com um dos seus 70 pincéis de rosto, para receber a amiga.

  Jovina tinha esses rompantes, mas, amava Noberto. Já estavam caminhando para 40 anos de casados, compreendia suas manias entendendo que as coisas da vida têm causas infinitas, a cortina da vida cobre muita coisa e descobre-se outras, o velho tinha suas manias, que assim as cultivasse, não tinha como dar jeito nelas, até se comovia quando ele passava um ralo de fatiar verduras na cabeça procurando inspiração para seus poemas e o melhor era conviver com isso e curti-las com humor, o que também parecia de agrado do seu esposo, que nunca tentou usar o martelo de Thor contra ela, estava sempre a chamá-la para tudo e ficava nervoso quando ela saia de casa para ir a algum evento sem ele e demorava de retornar.

   - Ora, bolas, disse Tacina ao abrir da porta, ouvi algum pedido de socorro e vim ver o que estava acontecendo.

  - Nada demais é Noberto com suas manias e tive que elevar o tom a voz para que ouvisse os meus reclames diante de tantas estripolias.

  - Ah! Minha amiga, não se preocupe com isso, releve, o meu querido Valter também tem das suas, creio, coisa de todo “véi” que vai aprendendo ao longo dos anos e não tem quem mude.

   - Sente-se - disse Jovina - podemos prosar mais um pouco saboreando um tinto.

   - E uma ótima ideia – obtemperou Taci – revelando a amiga alguns segredinhos do Valter. Sabes que sou uma eximia cozinheira em espaguete o que aprendi com minha avó Giovanina, italiana original de Nápoles, a capital da massa, e num fio, num ‘spago’, sou boa demais e o meu querido esposo o que faz para degusta-lo! Corta os fios que tempero com tanto esmero em pedacinhos e os come como se fosse um arrumadinho, quando, por elegância, por tradição napolitana, espaguete é para se degustar usando apenas o garfo, sem faca ou colher, enrolando pequenas porções da massa contra a borda do prato, da direita para a esquerda, utilizando a borda como apoio.

  - O Noberto faz pior. Ao sentar-se para o café da manhã mexe o temperado ao leite com garfo e acha isso pouco espeta as bolachas cremes crakeres com a ponta do garfo como se estivesse a fisgar sardinhas. E, claro, elas se racham e suja tudo.

   - Brindemos a nossa desdita – falou Taciana – elevando a taça para um tim tim com a amiga enquanto o “véi” Noberto, ardiloso como é, colocou o aparelho no ouvido esquerdo, o mais mouco dos dois que tem, levantou-se, encostou-o no buraco da fechadura e ficou apreciando o zum zum zum das duas, as risadas, as tiradas, tendo como alvos ele e o cientista médico Valter, homem de estatura dignificante em saber, descobridor de uma  vacina para conter a epidemia de um vírus mortal, quando, de repente, ouviu a vizinha dizer a sua esposa que Valter adquiriu a mania de fazer sexo com ela portando luvas e usando meais.

  - São manias, amiga, de laboratório. O Valter vê micróbios e bactérias em tudo, imagino que até na minha ‘chiquita bacana’ daí esse traje que, sinceramente, acho ridículo, mas, são muitos anos de casados, décadas de amor qualificado, personificado, então acostumei-me com a ideia embora seja broxante.

   - Noberto, felizmente, não tem essa mania. Creio que, por ele, andaria nu dentro de casa dia e noite e só não o faz porque tem a Verônica, nossa secretária, que iria enquadrá-lo com uma vassourada. Mas, também creio, acho, deduzo, que a amiga poderia fazer uma surpresa para Dr Valter, respeitosamente.

  - Já fiz minha querida. Fui na Avenida Sete numa daquelss lojas dos chinas e comprei uma fantasia sex dizendo-me a mulher do balcão, uma chinesas que só falava meia dúzia de palavras em portuguesas, que era “uma boi sex”. E, de fato, quando cheguei em casa e vesti era uma “vaca sex” o maiô entrando no meu bumbum, o lugar de por os seios recortado e uma touca que imitava uma vaquinha dengosa. Me preparei assim e quando Valter apareceu para o ato, de luvas novas e meias brancas com frisos dourados, caiu foi na risada quando me viu e por mais esforço que fizesse diante dos meus mugidos e exibições de minha
 martinica o negócio dele não se alinhou, não se dignou erguer-se para cumprimenta-la e foi um fiasco total.

  - Mas, imagino que destes um jeito – disse Jovina bebendo uma dose mais generosa do tinto a essa altura se encaminhando para a adega com o fito de abrir outra garrafa.

  - Claro, sempre se dá-se um jeito e Valter até me elogiou no dia seguinte, no café da manhã, por minha criatividade, por meus mugidos, por minha sensibilidade no trato da coisa num modelo diferente, igual aos pandeiristas dos grupos de samba do Bravo, que se entortam todo, parecem que vão cair, mas tiram um som fantástico dos couros. Foi o que fiz e toquei meu pandeiro até que o Valter revirou os olhos.

  - Manias, manias. A conversa se prolongou noite a dentro, Noberto que ouviu o que queria e não queria pelo buraco da fechadura resolveu voltar ao berço, retirou o aparelho e pôs-se a roncar, não se sabe se de manha ou de verdade e as senhoras, a essa altura já sorvento a segunda garrafa, atravessaram o Atlântico algumas vezes, conversavam sobre o querido Portugal, como se fala do Iguatemi; na adorada Espanha, como se fosse Brotas, e falavam na Finlândia na possibilidade de uma viagem para assistirem a aurora boreal e a horas tantas, que não sei precisar, nem eu que narro essa história; nem Noberto, que me contou, uma delas, creio, a Jovina, ao olhar pela janela do seu apartamento gritou extasiava para a amiga que estava vendo a aurora boreal.

  - Aonde, aonde, aprumou o olhar Tacina, ...

  - Ali. ali veja lá ...

  - Aquilo parece o helicóptero da PM fazendo alguma ronda caçando bandido de facção nas bordas do Nordeste da Amaralina – riu Taci – as duas, mesmo assim, abraçadas às taças brindaram aquela aurora boreal.

  No dia seguinte, no café da manhã, Jovina sentou-se à mesa com uma tremenda ressaca, Noberto quis saber como fora a noitada e ela lhe contou que se divertiram com muitas manias e até viram a aurora boreal.

  Noberto sorria com riso contido de uma hiena e mexia o café com leite com a ponta da faca... manias...manias.