Cultura

ROSA DE LIMA COMENTA “QUARTZO CRESCENTE”, VOL I, DE ANTONIO RISÉRIO

Ensaios de temas selecionados pelo autor a partir de palestras que ministrou e textos que escreveu para projetos de cultura e revistas
Rosa de Lima , Salvador | 13/06/2026 às 08:32
Quartzo Crescente, volume 1, de Antonio Risério
Foto: BJÁ
   

Creio, aos meus leitores, ser dispensável apresentar o antropólogo, poeta e ensaista baiano Antônio Risério. Algumas de suas obras já foram aqui comentadas desde o antológico "Uma História da Cidade da Bahia"; a "Adorável Comunista" e "Mestiçagem Identidade e Liberdade" cada qual no seu cada qual, mas, todos com o saber e a pena crítica e sutil de um intelectual que não exagera em erudição e coloca as coisas nos seus eixos reais. Em “Mestiçagem Identidade e Liberdade” (2023) deixa isso bem claro e aborda um tema considerado sensível (a negritude baiana e seus excessos) e a põe em seu devido lugar.

Há quem não goste dele e são muitos porque nesses tempos bicudos do cancelamento e dos sábios das redes sociais e PhDs acadêmicos, que pregam o politicamente correto e querem que todos sigam como eles com olheiras de burros. Risério integra um ser à parte, independente, insubmisso e fala o que quer dentro da realidade aproximada da existência, sem se submeter a esses caprichos.

  Agora, lançou mais duas obras em noite de autógrafos promovida pelo seu agente Sancho Pancha, Getúlio Soares, ex-Literarte - “Quartzo Crescente – volume 1” e “Adeus Identitarismo”. Mas, vamos por parte que o santo é de barro e ler Risério exige atenção especial pois cita muitos autores estrangeiros e aborda temas complexos por natureza. E neste Vol. 1 do “Quartzo Crescente” (Editora Topbooks, RJ, 463 páginas, ensaios, 2026, capa e produção gráfica Miriam Lerner/Equatorium Design, R$119,00 nas livrarias) há textos sobre vanguarda poética e processos culturais, candomblé & comunismo e em defesa da Semiodiversidade.

  De maneira que, vamos por parte e falaremos inicialmente de “Quartzo Crescente”. No geral, o livro tem um conteúdo valioso e diversificado e o autor inicia a obra abordando a poesia na pré-história, logo depois traz à tona a trajetória de Pagu (Patrícia Galvão) – jornalista, ativista, escritora, política da época do modernismo, fala da alegria brasileira – tema um pouco mais popular – para, em seguida analisar 4 temas voltados especificamente para a literatura brasileira – a poesia de Augusto de Campos, a obra de Paulo Leminsk (poeta concretista curitibano), leitura crítica de Lina Bardi (arquiteta italiana que morou em Salvador) e sobre João Ubaldo Ribeiro, autor baiano de “Viva o Povo Brasileiro”.

  Adiante, Risério comenta sobre a música de Luiz Gonzaga – que se impôs e impôs a cantoria do Nordeste no Brasil a partir do Rio de Janeiro; fala da arquitetura de João Filgueiras Lima (Lelé) – que introduziu as passarelas em Salvador, autor do projeto da Prefeitura e do Hospital Sarah Kubitschek; retoma o tema literatura com Tradução, história e literatura; Haroldo de Campos em Questão; Vanguarda Poética e Processos Culturais.

   Para fechar a série de ensaios deste Voluma I com textos sobre a Medicina Ecossocial da Grécia Antiga, Candomblé & Comunismo; Jorge Amado, Pierre Verger e Carybé; Sobre Giambattista Vico; Em defesa da Semiodiversidade; o Grupo Noigandres; Uma Visão Crítica de Décio Pignatari; a Poesia Cósmica de Vicente Huidobro; e o Romântico William Blake e o Brasil.

   Vejam, pois, a diversidade de temas selecionados pelo autor a partir de palestras que ministrou e textos que escreveu para projetos de cultura e revistas o que torna esse primeiro volume de “Quartzo Crescente” agradável de ser lido. E os leitores vão se deparar com informações novas, pontos de vista diferenciados desapegados de ideologismos e trazendo a luz do debate (a quem assim se dispuser), visões bem particularizadas do Movimento Modernista, da literatura pós 1945, da poesia em diferentes fases tanto no Brasil como no Ocidente, da música, da baianidade e do modo de viver dos baianos na relação comunistas e o candomblé. Enfim, um livro muito interessante e que serve de base para estudiosos.

   Quando leio Risério sempre busco essa compreensão de que estou aprendendo muita coisa com o que ele processa e analisa, embora possa discordar de alguns pontos, o que é natural a quaisquer leitores (não existe unanimidade em nada), porém, ganha-se muitos conhecimentos ao ler seus textos, além do que, de quebra, conhece-se e adiciona-se uma bibliografia complementar a ser visitada ou estudada.

  O autor, em “Palavras Preliminares” dá algumas informações dos históricos dos textos publicados e o ensaio “Pagu: Vida-Obra, Obravida, Vda” foi publicado em 1978 na revista Através (São Paulo) “é coisa pioneira”.

  E explica que “Pagu era uma ilustre desconhecida no ambiente político-cultural do país. Ninguém falava dela. Foi o alto preço que pagou por sua conduta desabusada, seu espírito de vanguarda, seu combate incansável ao stalinismo e ao Partido Comunista Brasileiro. Havia uma cortina de silêncio em torno dela. Um ‘cancelamento’ (a novidade do fascismo identitarista, a este respeito, é apenas quantitativa) avant la lettre”. Eu mesma, confesso, conheço pouco ou quase nada de Pagu. A o que falei acima: agora, lendo Risério, desperta-me a atenção de querer conhecer mais sobre esta personagem.

  Risério também fala de sua paixão pelo pensador italiano Giambattista Vico (autor de Scienza Nuova, 1744) e essa relação começou na década de 1970, uma parte através da obra de James Joyce; de outra em decorrência do movimento contracultural.

  Creio que esses informações preliminares oferecidas pelo autor ajudam os leitores, primeiro a conhecer mais de perto o escritor e pensador Risério e as fases de como antropólogo, pensador, ativista cultural, parceiro de muitos outros autores, poetas, musicistas e intelectuais brasileiros. Há, no texto em que fala de Paulo Leminiski a corresponde (uma parte) que trocou com o poeta que bem sugestiva, dois mundos, um curitibano e outro baiano, duas culturas e que vão trocando informações, se juntando, se amalgamano, cada um dentro do seu espaço-tempo. Separados e ao mesmo tempo unidos.

  A cultura é esse traço de união, até imperceptível para a maioria das pessoas, mas que existe, é real e consegue se misturar em realidades opostas como é o caso do comunismo e o candomblé, que, no rigor do ideológico e do religioso não se combinam ou não se misturam, mas que, como abordou o autor no caso baiano com Marighela, Fernando Santana (Adorável Comunista) e outros conviviam dentro da baianidade.

 Creio, também, que o melhor deste primeiro volume são os textos relacionados com s cultura baiana ou mais próximas da cultura baiana, que é também nacional, quando Risério aborda passagens das vidas e obras de João Ubaldo Ribeiro, Jorge Amado, Carybé (baiano argentino), Pierre Verger (baiano francês), Lina Bo Nardi (baiana italiana), Luiz Gonzaga (pernambucano baiano baião). João Filgueira Lima, Roberto Pinho, suas passagens com Caetano Veloso textos maravilhosos.

  Bem, imagino que dei uma ideia aproximada do que representa esse Vol. 1 de “Quartzo Crescente” e ficamos na expectativa dos próximos lançamentos (são previstos mais dois volumes) e tempos certeza que virão ensaios ainda mais agradáveis.