Houve um tempo, sim, em que buscava-se Serrinha para veranear e também curar doenças com seu ar puro e clima agradável às noites
Tasso Franco , Salvador |
01/01/2026 às 11:30
A grande atração turística da cidade, a Luís Nogueira, no dia da inauguração
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16. A CIDADE DE VERANEIO
Aos olhos de hoje fica até difícil acreditar que Serrinha já foi citada como cidade de veraneio – local agradável para se descansar, para curar doenças sobretudo a tuberculose e as epidemias de cólera e de gripe, e para curtir o campo com cavalgadas em fazendas.
Mas isso é real influenciado pelo encurtamento das distâncias com a implantação da linha férrea (1880), a instalação de hotéis e avanços da medicina.
Serrinha nunca cultuou esse lado empresarial tanto que não dispõe, ainda hoje, como no Vale do Jiquiriçá e outras regiões da Bahia, de hotéis fazendas. Há de se dizer que as variações climáticas mudaram muito ao longo dos anos, mas, em Serrinha, isso não aconteceu. Áreas do município continuam tão amenas e frescas como antes, a Manga (Biritinga) já produziu fumo e cereais e também em seu território existem ótimas fazendas para criação de gado; a 30 de Junho fez muitos passeios de recreio para o Lamarão, no inicio do século; e as regiões mais quentes sempre foram e continuam sendo a Pedra e o Raso, hoje, Teofilândia e Araci.
A Serrinha, o núcleo central e sede, o próprio nome já diz que é um sitio cercado de serras pequenas e creio que, no tempo do nascimento dos meus avós (a partir de 1880 até os primeiros 10 anos do século XX), o hábito do veraneio, do recreio, era bem restrito a uma classe social mais endinheirada.
Meus avós, que me lembre, nunca veranearam fora de Serrinha e quando jovens e até maduros nos primeiros anos do século XX não havia esse hábito na capital e as praias ainda eram locais que abrigavam colônias de pescadores e não eram utilizadas como áreas de lazer. Somente nos primeiros dez anos do século XX foi que as praias começaram a ser utilizadas como áreas medicinais, para curas de doenças, e o sitio da Barra já nas proximidades de 1920 começou a ser utilizado como área de lazer, de banho de mar.
As outras praias, sobretudo as do centro, no entorno da Baía de Todos os Santos eram utilizadas como locais onde se despejavam as barricas de cocô dos moradores, pois, não havia saneamento básico.
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O “Jornal de Serrinha” edições dos anos 2017 a 2019 registra várias informações sobre viajantes que procuravam Serrinha para veranear. No número 58, de 2017, lê-se que: - Da capital onde residem, chegaram na quarta-feira, o Dr. Mário Cardoso Costa, ilustre advogado, sua exma esposa Constança de Freitas Costa e seus filhinhos, os quaes vieram aqui em passeio de veraneio, sendo recebidos por seus amigos.
E, nesse mesmo dia, diz o “JS” chegaram da capital onde estiveram a passeio o Dr. Agenor Freitas e sua irmã a senhorita Tiburtina Freitas.
Nessa época, entre 1918-1920, uma gripe que se originou nos EUA, no Kansas, e se espalhou pelo mundo com o nome de “Gripe Espanhola” infectou milhões de pessoas e matou entre 17 a 50 milhões, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos, e muita gente que morava em Salvador procurou ares renovados nos arrabaldes e nas cidades do sertão atendidas pelo trem temendo a morte.
O “JS” fez inúmeros artigos e alertas em suas páginas sempre encabeçando as manchetes com o titulo “A Influenza Espanhola” destacando os “signaes clínicos – começa por violentos calafrios, febre intensa, cansaço geral, cephaleia, dores nos rins e nos membros, principalmente nos braços e pernas. Tosse seca frequente, penosa, com dôr restroterna coryza, angina, crythematosa, laringite, bronchite ou broncho pneumonia, neurastheia intensa, prolongada; tachyrcardia, diminuição da primeira bulhacardiaca, arytihmida e collapsus”.
Ou seja, quem lia esses termos se borrava de medo, mas, o “JS” também ministrava em suas páginas um receituário para prováveis enfermos e que constava de: - em caso de forma ordinária nervosa do paciente e se a língua estiver saborrenta dar 1 gr. 20 de ipeca cm 3 ‘cachets’, um ‘cachet” de 5 em 6 minutos, acompanhado de um pouco d’água filtrada e tépida. Envolver ao mesmo tempo os pés e os tornozellos em algodão em rama ou ‘taffetá’ encerrado. Após os vômitos dar de 2 em 2 horas, caldo ou leite, e se a cephaleya é intensa, de 2 em 2 horas (sem prejudicar a applicação anterior, uma colher de sopa de Antipyrina (2 gr), tintura de acônito (15 gotas), água de tília (90 cm cúbicos), xarope de flores de laranha, 30 g; ou também dar 4 vezes por dia (alternativo ao xarope de laranja) 4 ‘cachets’ contendo bromohydratado de quinino, extracto de álcool de quinino, pyramidon (0,05 centigrados). No declínio da febre e dores dar pela manhã, em jejum, uma garrafa de água Villa-Cabras.
Parece até uma coisa do outro mundo, mas, era assim que os fatos aconteciam e muita gente adotava esse receituário e as recomendações de “respirar ar puro, no campo, ao abrigo, porém, evitar as variações bruscas das temperaturas externas (em Serrinha, o dia é quente e a noite esfria).
Ora se a tosse seguisse frequente, penosa e teimosa recomendava-se dar 4 a 5 colheres de sopa por dia (em leite quente) de água destilada de louro cereja (100 gr), tintura de acônito (100 gottas), xarope de Tolú; e se a tosse se tornar mais humana dar de 2 em 2 horas uma colher de sopa de Kermes mineral.
Esse receituário era também aplicado em casos de febre, tosse, etc, até porque ninguém sabia se era gripe espanhol (a epidemia durou até 1920) ou uma gripe qualquer, uma vez que não existiam laboratórios e os atendimentos eram feitos por farmacêuticos, por práticos ou por familiares.
O certo é que não há registros de mortes (ou muitas mortes) na epidemia da gripe espanhola e a população se alimentava com ovos, carne assada nas grelhas e leite.
Claro que havia muita gente com diarreia (sobretudo provocada pelo leite quente) e recomendava-se (no caso da persistência da caganeira) “em cada porção de leite tomar uma colher de sopa fervida e 5gr de ácido láctico.
Na verdade, o que salvou ou livrou a população de Serrinha da gripe espanhola chamada de “Influenza Hespanhola” foi o clima, o ar puro, o campo, as fazendas, a carne seca e os ovos.
Isso, de certa maneira ajudou a propagar que Serrinha era um bom local de veraneio (o temo ainda não era utilizado, como hoje, para temporadas maiores como um verão, etc), um excelente local para passear (um local para passeios, visitas de uma semana, etc), de boas fazendas, com hotéis de porte médio, enfim, para retiro, descanso, ouvir o canto dos pássaros e acordar com os mugidos das vacas e dos bois.
Até a década de 1940, o único local na região considerado de águas termais era a Estância de Sipó (ainda se escrevia Cipó com S) e o “JS” registra que na segunda quadra do século XX alguns serrinhenses iam para lá. Veja, pois, que, em 1919, assim noticiou o “JS” – Com destino ao Sipó seguiram na quarta-feira da semana transacta, em busca dos benefícios salutares dos banhos de águas férreas os nossos distinctos assignantes residentes nesta cidade, Phco Trasybulo de Miranda Bastos; sua dilecta noiva, senhorinha Flora Rodrigues Nogueira e cel. Antonio Nogueira Junior. Feliz viagem e bom aproveitamento de saúde são os votos do jornal.
Bem, o “JS” não diz quem era o enfermo – Trasybulo, Flora ou Antônio. É provável que tenha sido Antonio ou Flora. Trasybulo era o proprietário da Pharmacia Serrinha e quem mais atendia pacientes em busca de tratamentos nessa época. Essa viagem foi de um pioneirismo fantásticos, pois, ainda não havia automóvel em Serrinha. Provavelmente foram de charrete ou carroça por dentro via Manga (Biritinga), Nova Soure e Cipó.
As águas termais de Cipó já eram exploradas desde meados do século XIX com as primeiras casas de banho para cura de doenças (especialmente as de pele, erisipelas, coceiras, etc e laser, mas, essa parte do laser só vai se efetivar a partir de 1935 quando foi criada a Estância Hidromineral. Em 1952, com a construção do Grande Hotel de Cipó, houve o “boom” do local marcado pela visita de Getúlio Vargas com o governador Regis Pacheco.
Que eu saiba, meus avós e meus pais nunca veranearam em Cipó, a Serrinha era boa demais para viver e “veranear”. Na temporada de férias, meu pai levava a família para a Fazenda Capitão, no distrito da Pedra, o que era uma maravilha para as crianças até que ficamos maiores e ninguém queria mais ir para lá.
Em 1948, no entanto, surge uma novidade na região, na bacia do bendito Itapicuru (que já beneficiara Cipó) quando a Petrobras em busca de petróleo no Tucano descobriu um veio aquífero quente na Fazenda Macaco (hoje, ampliado se chama Bacia Hidrográfica de Tucano) que se tornaria, ao longo dos anos o Balneário Caldas do Jorro e seu braço direito à beira do rio, com águas mais amenas, o Jorrinho”.
Eu era garoto no inicio dos anos 1950 e ouvia meu pai falar com entusiasmo do Jorro.
Por que meu pai não se interessa por Salvador com suas praias, o Litoral Norte da Bahia que começou a despontar?
Têmpera de sertanejo. Quem é do sertão é da terra e não do mar. Quem é do sertão gosta de bode assado e não de peixe frito. A explicação é simples, bem ligada a terra, a raiz do sertanejo acostumado a paisagem com bois, cabras, bodes, povo simples, tabaréus, e meu pai foi um dos pioneiros no Jorro, no jorrão (bicão) quando ainda tinha um cano de ferro que vomitava a água quente sem cessar.
Daí para espalhar que curava doenças da pele, limpava o estômago de impurezas, era um local agradável, etc, foi rápido e meu pai comprar uma casa (ai, sim, de veraneio) no Jorro. Foi um milagre do sertão porque meu pai era um homem pouco afeito a relações mais amplas de lazer com a família, salvo na própria Serrinha, e passamos, então, a desfrutar de uma casa de veraneio no Jorro, nos idos inicias dos anos 1960, quando meus avós já tinham partido para os anéis de Saturno, outra esfera espiritual.
Que maravilha! Que alegria! Casa modesta numa ponta de rua ainda sem calçamento, no areal, mas, o importante que era uma casa de veraneio, com garagem, varanda, etc. Mas o que é bom dura pouco. Eu e meu irmãos fomos morar em Salvador, as irmãs se casaram na Serrinha, o tempo foi andando, nas décadas de 1970-1980 começaram a acontecer roubos nas casas, violência, e meu pai vendeu a casa. Nunca mais veraneou na vida.
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Na Serrinha do veraneio dos tempos idos décadas de 1910-1950 quais os pontos “turísticos” da cidade para mostrar aos visitantes?
Na prática, não existiam. Era a própria cidade. Os locais, a partir da década de 1930 quando os automóveis chegaram, os ricos iam passar com seus Ford no campo de aviação e levavam as mocinhas nos veículos, alguns conversíveis.
Outros pontos “turísticos” eram a Estação do Trem e o Hotel da Leste (hoje, hospital da família Ferreira) e o tradicional, o melhor, a Praça Luís Nogueira, com a igreja matriz de Sant'Anna e o coreto. A santa só vai surgir a partir da década de 1950.
Vale ainda lembrar de um local bem antigo, na zona rural, que servia de retiro espiritual do reverendo Antônio Manoel de Oliveira, bisneto de Bernardo da Silva, onde existia uma capela e casa de “veraneio” desde 1829, que adotou o nome de Retiro, ainda hoje, existente, com capela em funcionamento e prosperou no entorno um pequeno povoado, adjacente a Cobiça.
Na última vez que estive no Retiro, em 2023, havia uma lojinha de artesanato com produtos serrinhenses à venda no local.
*** Próximo capítulo os negros e mestiços como chegaram a Serrinha.