segunda-feira, 26 de agosto de 2019
Colunistas / Filosofia Popular
Rasta do Pelô

Dona Céu e amigas foram ao circo da Tocha e amaram Thiaguinho

Veja como foi a passagem da 'atocha' por Salvador e as aventuras da mulher do Rasta
25/05/2016 às 18:13

Thiaguinho mostra a tocha para os atochados
Foto: Jefferson Peixoto
   Cá entre nós, a crise pelo menos serviu para que dona Céu, minha santíssima esposa, dessistisse dessa idéia maluca de passar uma temporada em Paris. Caiu na real da nossa classe C emergente que passa por maus apuros, agora, na esperança de que Sêo Miguel Lulia resolva alguma coisa senão a gente quebra.

   Alias, quebrados já estamos e tem mais de mês que não tiramos a Brasília da garagem para ir a algum evento, o Pelô está carente de turistas como nunca se viu e o alcaide só quer fazer festas para os baianos lá na Barra e na Cayru.

   Daí que com essa crise toda e a Setur estadual discutindo 'estratégias' para incrementar o turismo no São Francisco aproveitando a deixa da novela Velho Chico, daqui a pouco o coronel Afrânio morre, a novela acaba e não fazem nem um 'tour' sequer, Céu se animou foi com o circo da tocha olímpica que passou em Salvador como um meteorito, entendendo que o Pelô poderia ficar cheio de gente e ela faturar com o tererê, mas, se deu foi mal. 

   Fecharam ruas e o Elevador Lacerda e salvo o povo que seguiu a tocha no Centro Histórico, como se fosse atrás de um trio elétrico, não ganhou um centavo.

   Coitada! Não sabe de nada. Os caras estão fazendo o povo de bobo e Céu, que não é boba sentiu o drama e convidou suas amigas Andréa Lady Lú e Kaline Berimbau para participarem da fuzarca da tocha na Barra, mais para se divertirem do que qualquer outra coisa, porque nunca competiram nas antigas Olimpiadas Baiana  nos times de volei colegiais, assistir shows de Thiaguinho e Jota Quest de graça e tomar umas periguetes de 3 por R$5,00, era uma boa ideia.

   Estava tomando meu café da manhã quando ela falou da tocha e dos shows e eu fiquei calado. Não quis opinar sabendo que era uma furada. E até pra me poupar não comentei. Mas, Céu agora quer que eu fale mesmo que não tenha assunto relevante em pauta.

   Comendo  meu cuscuz com ovos, com a boca cheia, e a mulher apoquentando: - Tá mudo. Fale alguma coisa da vida, da crise, da tocha.

   E eu mudo, de propósito. A técnica é simples, como dira Sêo Lunga, se ela me irrita eu a irrito.

   - Já que você não vai falar nem quer seguir a tocha, paciência, vou com minhas amigas.

   Quase que digo que iriam ser atochadas no circo que se montou em Salvador para tal efeméride. Poupei-me de tal comentário e desejei-lhe boa sorte, recomendando, no entanto, que usasse a mesma estratégia do Caranval, dinheiro e documento na 'bag' da cintura por dentro da calça porque a malandragem tá demais e com a crise tão furtando até galinha de ebó.

   Desci para o Pelô a fim de vender minhas toucas e tentar alguma tocada para o 2 de Julho e liguei para meu conselheiro em Brasília, Badu, o intelectual de bigode, para comentarmos sobre o novo governo, o que ele estava achando, e sobre esse fenômeno da tocha, o povo que joga dominó e peteca correndo atrás de um símbolo olimpico da elite esportiva.

   Minhas primeiras palavras foram de saudação para saber como estava o Lulia, até brincando, dizendo que saiu o Lula e entrou o Lulia.

   - Tenho fé que mude alguma coisa porque da forma que estava não poderia continuar, comentou o incréduto Badu, fazendo reticências que já caira um ministro com menos de 15 dias de governo.

   Então perguntei sobre os Jogos Olimpicos e se ele iria ao Rio de Janeiro. 

   - Isso é coisa pra gente rica. Estou mais envergado do que vara de bambu, com as finanças em baixa, o mais que posso é assisitir pela televisão. Bom deve estar na Bahia com a passagem da 'atocha', brincou fazendo pouco da tocha.

   - A propósito dona Céu e amigas foram ao Farol da Barra assistir shows da tocha. Nunca se viu isso na Bahia: show para tocha, out-doors do governo para a tocha, discursos para a tocha, comentei.

   - O circo tá armado. Na ausência de empregos oferecem a tocha e Salvador é uma cidade boa nisso, em festas, em Carnaval, em furdunços - sorriu.

   - Mas nós da classe C estamos pagando o pato. Dona Céu foi ver a tocha com R$10,00 na mochila pra cerveja e pro transporte e sua amiga Kaline disse que só tinha R$15,00. Andréa, nem sei, acho que tava zerada porque o ladrão entrou no seu salão e levou até as tesouras.

   - Mas o show é de graça. É o que vale, aquiesceu Badu explicando que os homens não podem bancar um circo completo.

   Tá muito bem, despedi-me de Badu desejando-lhe boa sorte e ele fazendo o mesmo comigo.

   À noite, de volta a casa, encontro Céu alegre com o 'espetáculo' para a tocha fazendo a ressalva que sua amiga Kaline, na hora de pagar uma rodada de periguetes deu bobeira na bolsa e um pivete magrelo levou-a correndo entre a multidão.

   - E aí, ele deu queixa na delegacia? - perguntei só para arreliar.

   - Que queixa. Ela ficou foi choramingando porque não tinha o dinheiro do transporte pra voltar para casa e eu e Andréa tivermos que inteirar sua passagem, sobrando menos capilé para nossas periguetes. Mas, ainda assim, amei. O show de Thiaguinho foi demais e no de Jota Quest me esbaldei.

   - E que é isso no dedão do pé - perguntei vendo que havia um machucado.

   - Tomei uma topada na hora do rock e fui ao chão.

   - E Andréa, teve alguma coisa com ela, questionei.

   - Nada. Se deu bem e mal. Arranjou foi um paquera e quando ela pensou que tava tudo bem com o camarada, ele só falava na crise e na falta de dinheiro. Ela mandou ele rodar e cantar a música "Vamo que Vamo" do Thiaguinho e sua rapaziada.