sexta-feira, 15 de novembro de 2019
Colunistas / Filosofia Popular
Rasta do Pelô

WOMAN'S DAY: Dona Céu deixa de ganhar a Mega e segue sonhando c/ Paris

Como toda mulher, persistente, batalhadora, Céu ainda sonha em passar uma temporada em Paris
09/03/2016 às 12:11
A medida em que a novela "A Regra do Jogo" vai chegando ao fim e Zé de Abreu vai concretizar seu desejo de passar uma temporada em Paris, refletindo, estudando, analisando o panorama mundial, dona Céu, minha esposa, manifesta o mesmo desejo do ator em também passar uma temporada em Paris, com a ressalva de que não tem capilé sequer para ir a uma temporada em Sergipe del Rey.

   Ainda assim é persistente como toda emergente da classe C e almeja concretizar seu sonho diante de única alternativa: acertar na Mega-Sena.

   E, o que é mais grave, retira dos nossos ganhos mensais a bagatela de R$56,00 ao mês, uma vez que joga toda semana 2 cartões de R$7,00 na quarta, sorteio que ocorre na quinta; e mais dois cartões de R$7,00 na sexta em sorteio que ocorre no sábado. 

   Como nunca ganha, sequer faz uma quadra ou uma quina para pelo menos salvar alguma coisa e não nos deixar no prejuizo, na segunda, terça e quarta fica rica fazendo planos com a bolada que vai ganhar na quinta. Quando sai o resultado e realiza 0 ou 1 ponto, volta a ficar pobre. 

   Quando joga na sexta, fica rica de novo na sexta e sábado até a hora do sorteio da Mega-Sena e volta a ficar pobre no domingo, dia em que, quando sobra algum capilé a gente vai a praia da Boa Viagem e quando tá fartura de capilé esticamos até Buraquinho com nossa Brasília.

   Falo que fica rica porque liga logo pra irmã Rilza Cervejão falando que vai fazer isso e aquilo que, quando retornar de Paris vai deixar a Caixa D'Água e morar no Itaigara, bairro dos ricos baianos, encomenda logo vários modelitos de roupas a Zaís Pinharada, diz que vai montar uma empresa de estética com sua amiga Andréa Lady Lu, uma franquia nacional, quiçá internacional, e  que vai se recauchutar toda com a equipe de dr Pitangui. É tanta coisa que se duvida.

   Outro dia contei para ela uma história que aconteceu com minha mãe, a qual, durante anos comprava bilhetes do Baú da Felicidade de Silvio Santos, isso com o objetivo de ajudar uma neta, morreu de velha e só ganhou um bule. 

   Mas não gosto de arreliar ela quando sai o sorteio da Mega Sena porque posso receber uma caqueirada e fico assistindo a novela que passa com o triângulo amoroso de dona Tóia, dona Atena e Sêo Romero, gosto muito dos trejeitos de dona Atena, e só ouço ela dizer: Miséria só fiz 1 ponto. Números dificeis danados esses que sairam.

   Outro dia fui dar risadas por conta disso e me dei mal. Ela passou uma semana de muxoxo sem querer fazer uma gracinha comigo, iguais as que dona Atena faz com Sêo Romero tomando champagne e mostrando as muchibas.

   Fazer o que né! Se ela fosse parenta do nosso rei Sol estava numa boa. No mínimo, morando num duplex. Se fosse aderente de doutor Zéu estaria num bom cabide. Mas, foi casar comigo, este Rasta pobretão que não sabe fazer lobby, que não conhece ninguém na Petrobrás salvo Sêo Chiquinho do posto de gasolina onde põe R$10,00 de combustível na Brasília, daí que pra ir a Paris, para concretizar seu sonho, nesse ponto está certa, só ganhando na Mega Sena.

   Recentemente chegou perto. Fez um terno. Acertou três números e se apresentou toda alegre em casa. Até me asustei porque tava com as unhas pintadas de moranguinho, cabelo escovado e olhos sombreados de verde, que achei que tinha aceratdo em cheio a Mega-Sena.

   Qual nada! Chegou foi amaldiçoando que jogou no número 2 e deu o 1; jogou no 31 e deu 30; e no 47 e 46. E atribuiu seu azar a mim  dizendo que não colaboro, que não analiso os jogos, não oriento, só fico interessado na música evoluindo do tamborim para um bandolim e que se ela acertar na Mega não me levará para  Paris.

   - Você vai ficar aqui amarrando passo nessa terra que não sai do lugar, com esse turismo mambembe sem Centro de Convenções e com um Terminal Maritimo de Passageiros fechado lá no cais do porto e com pombos obrando em sua cabeça na praça do Lacerda, joga-me praga. 

   - Paciência cada qual vive como pode - filosofei.

   - Pois vou me reciclar em Paris. Minhas amigas todas estão se reciclando: Kaline Berimbau, hoje, faz teses para estudantes formandos e ganha uma grana preta; Rafa Enfa tá bem no Hospital São Judas Tadeu e já comprou um Classic aposentadndo seu velho Chevete; Tina Copo tá investindo na Bolsa de SP; minha irmã comprando Loubatins e eu aqui arrastando essa sandália de couro comprada na Ladeira da Barroquinha e me arriscando a pegar uma chikungunya.

   E não é que a mulher amanheceu no dia seguinte tossindo mais do que nossa Brasília quando sobe a Ladeira do Funil, com dor de cabeça, dor nas juntas, com moleza para se levantar, que quando falei que poderia ser dengue ela se azucrinou e eu corri logo na cozinha para fazer um chá de alumã com um dente de alho, e a dita se recusou a tomar dizendo que só acreditava na química e correu até o Posto de Saúde, sendo devidamente medicada.

   Nisso se passaram cinco a seis dias com dores, quase uma semana dona Céu de cama e só veio de levantar hoje no Dia Internacional da Mulher, assim mesmo suando mais do que cuscuz, e a Mega Sena que sorteou R$24 milhões e saiu para um aposetador do Paraná e deu os números 22-23-34-48-53-54 quando ela soube desses números, os quais são os seus números, os números que ela joga toda semana, e justo por estar doente não jogou, justo por ter ficado acamada não foi a loja da Sortinha jogar, aí foi que se sentiu mal e teve uma recaída e voltou pra cama

   Agora, como estou aprendendo a tocar bandolim fico tocando "La vie en Rose" para pelo menos ela ficar sonhando com Paris nesse woman's day.