segunda-feira, 23 de setembro de 2019
Colunistas / Filosofia Popular
Rasta do Pelô

Dona Céu oferece uma moqueca a Badu, o intelectual de bigode

Foi um almoço da melhor qualidade para o nosso conselheiro Badu, o intelectual de bigode
01/02/2016 às 23:31
 Estava tomando uma brahmosa na Cantina da Lua quando recebo um telefonema de nosso conselheiro Badu, o Intelectual de Bigode, dizendo que se encontrava na terrinha em casa de amigos no bairro do Rio Vermelho. - Momento de júbilo - comentei convidando-o para que se deslocasse até o centro histórico para atualizarmos nossas conversas ao vivo e matar as saudades. 

   - Em instantes estarei aí - respondeu. 

   Então chamei a garçonete Márcia Dendê e solicitei que colocasse meia dúzia de cascos-escuros no freezer para o saudarmos.

   Eis que, em pouco mais de meia hora estava conosco, no Terreiro de Jesus, saboreando uma fria e anotando as novidades da boa terra.

   - Sinto que a cidade está melhorando, parece mais bem cuidada e com obras lá no Rio Vermelho, o metrô funcionando e o centro histórico mais organizado - comentou.

   - Isso, o prefeito e o governador são adversários políticos mas estão de mãos dadas na defesa de Salvador, realizando investimentos e isso é bom para todos - respondi.

   - E o turismo como vai?  E Dona Céu e o compadre estão fazendo bons negócios aqui no Pelourinho?

   - O turismo está em baixa. Estamos sem Centro de Convenções e apenas com a galinha dos ovos de ouro que é o Carnaval. Ainda assim, como vive-se a alta temporada dá pro sustento e Céu tem feito muitos tererês.

   - Que bom. Essa terra é sempre maravilhosa. Ruim está lá em Brasília, a cada hora estourando um novo escândalo - comentou Badu dizendo que estava ansioso para comer uma moqueca de arraia e esquecer as amarguras da crise.

   Disse-lhe, então, que se tem uma pessoa boa de moqueca é dona Céu (minha santa esposa) e falei que combinaria com ela para que preparasse uma das melhores para o conselheiro. A conversa fluiu animada até tarde da noite quando despedi-me afirmando que combinaria com Céu e lhe telefonaria marcando o regabofe convidando para que fosse a nossa humildade casa na Caixa D'Água.

   À noite, conversei com Céu e está disse que era mais do que merecido a oferenda a Badu, convidou também sua irmã Rilza Cervejão, mandou que eu comprasse um charuto na Rosa do Prado, um uisque black do bom, e que ela iria em São Joaquim comprar a melhor das arraias.

   E assim foi feito com data e almoço que aconteceu num dia de terça-feira, dia de Santa Escolástica, tudo da melhor qualidade para receber o conviva ilustre conselheiro.

   Ele demorou de chegar com a chuva de verão que caía na capital baiana, mas, chegou. Recebi-o na porta e dona Céu o saudou com deferência: - É um prazer receber nobre figura em nossa humilde residência. 

   - Ora, ora, a humildade é sempre bom ainda mais com o coração grande que vocês têm - aquiesceu Badu dando-lhe beijos na face.

   Esta é minha irma Rilza Cervejão e minha mãe Antonha - apresentou Céu seus parentes.

   - A casa é humilde mas lhe garanto que não falta cerveja - comentou Cervejão já trazendo uns latões em mãos.

   - Nada! Para tão grande personalidade, o Rasta providenciou um black, atalhou Céu colocando a garrafa sobre a mesa.

   - Que não seja por isso: tomarei das duas bebidas. 

    A conversa fluiu uma maravilha. Dona Antonha só astuciava enquanto Céu já seguia em sua segunda dose.

   - E como anda o conselheiro Souza, doutor Zéu e os demais amigos desta casa? - perguntou Badu.

   - Mais ricos que nunca - balbuciei dizendo que para eles não havia crise, embora não estivesse reclamando de nada uma vez que, se black estávamos tomando e havia uma moqueca no fogo, a crise não havia nos atingido.

   Cervejão atalhou: - Sou professora, estou pra me aposentar e tendo dinheiro pra minha gelada está tudo bem.

   Nisso, Céu que já estava puxando fogo, esnobou: - Eu não quero nem saber de crise e estou me preparando é pra passar uma temporada em Paris.

   - Quanto tempo a madame ficará na terra de De Gaule?, popnderou Badu.

   - Uns dois a três meses, respondeu Céu.

   - Pobre é uma miséria só pensa baixo - comentou Cervejão salientando que a irmã deveria ficar era um ano em Paris. E até cantou uns versos da Edith Piaf: Quand il me prend dans ses bras, Il me parle tout bas, Je vois la vie en rose.

   - Badu concluiu: - Estive por uma semana em Paris é uma maravilha e, com licença da palavra dona Cervejão está certa. A senhora deveria morar em Paris com o Rasta.

   Dona Antonha olhava como quem não quer nada e falava baixinho: - Essas minhas meninas quando bebem ficam ricas que é uma beleza. Amanhã estarão no chá de boldo.

   A sineta tocou anunciando que a moqueca estava na mesa. Havia contratado Márcia Dendê - direto da Cantina da Lua - para um extra em nossa casa.  O cheiro da moqueca chegou a pequena varanda e nosso convidado à frente, sentamos à mesa.

   O uisque corria à mancheia e dona Céua, a certa altura, Badu já saboreando a moqueca, disse que, em dias inspirados, via Deus.

   Badu levantou as sobrancelhas sobre os óculos: - Mais como assim? - questionou.

   Cervejão respondeu antes mesmo que Céu usasse seus argumentos: - Quando ela toma proseco e fuma um charuto aí vê é coisa, inclusive Deus.

   - Nada disso. Eu vejo na penumbra, nos momentos de concentração - frisou. 

   - Nos arredores de Brasília tem uma comunidade religiosa que também vê muitas coisas no Vale do Amanhecer, comentou o conselheiro.

   Intervi na conversa: - E a moqueca Sêo Badu, que tal?

   - Uma maravilha. Há muito não comia algo igual. E com essa pimentinha, esse arroz branco solto e essa farinha de Santo Antonio de Jesus é pra repetir o prato.

   - Fique a vontade. O tempero de Céu é demais da conta.

   - Não tenho barriga para tanto. 

   Depois de servida a moqueca, um doce de leite e um café, dona Céu nos trouxe um charuto Dona Flor dos melhores da Rosa do Prado.

   - Esse é pra gente fechar o dia - comentou ela.

   - Com prazer - salientou Badu tirando a primeira baforada.

   E o charuto rodou a mesa: de minha parte fiz fumaça, cervejão rejeitou, dona Antonha fez com as mãos o sinal da cruz em frente do mesmo e Céu disse que estava 'proibida' de barofar um Dona Flor pois quando o faz "fico doida Sêo Badu".

   - Como assim?

   - Rodo a baiana e faço outras estripulias.

   - É uma pomba gira incorporada não tenha dúvida. Pomba das mais dinâmicas, afiançou Badu.
    Dona Antonha se benzeu e soletrou: Cruz credo só Cristo salva!