segunda-feira, 23 de setembro de 2019
Colunistas / Filosofia Popular
Rasta do Pelô

SALVADOR 465 ANOS: Rasta e Dona Céu vão ao Sal & Brasil e fazem selfie

Dona Céu diz que se Lucélia Santos morasse em Salvador ela queria ver se a atriz tinha coragem de pegar um buzú para ir ao trabalho
28/03/2014 às 12:30
 Sempre achei a classe média alta brasileira um cocô. Sou do tempo que cocô se acentua com chapéu no o. Tanto que essa gente quando está na Europa ou nos Estados Unidos, de passeio, não cospe no chão nem joga um palito de fósforo numa rua. Agora, quando está no Brasil atiça latinha de refrigerante pela janela do carro e arremessa pontas de cigarro nas avenidas, pra dizer o mínimo. 

   Daí que não me causou surpresa alguma o fato da atriz Lucélia Santos ser flagrada usando um ônibus no Rio de Janeiro, ter a maior repercussão nas redes sociais e ainda fazer o tal de selfie debochando de nós.

   Pior ou melhor foi que outras atrizes imitaram o gesto dela e ainda disseram que o Brasil tem um "povinho de merda", que ainda se admira que trabalhadoras de televisão e teatro andem de buzú. Nisso tão certas, em parte, porque andar de ônibus para nós, o populacho, é mais do que normal e dureza. É nosso dia-a-dia porque a gente não tem alternativa a não ser a paletada, a canela, como se diz aqui na Bahia.

   Atrevi-me a contar tal episódio a dona Céu, minha santissima esposa, uma vez que agora também somos classe média, a chamada classe C emergente, instituida pelo nosso "Rei Sol", e ela até defendeu as atrizes, mas, fez a ressalva de que, só tinham razão porque residem no Rio, "se morassem em Salvador, como esse transporte coletivo de bosta, se enfrentassem nossos buzús, elas iriam ver o que é bom para a tosse".

   Hic! lamentei o comentário mas adicionei pimenta malagueta na conversa. - Tão dizendo na Prefeitura que o transporte coletivo melhorou?

  - Melhorou uma ova. Queria ver o secretário de transporte andar de buzú, o prefeito andar num BTV, num Vipral, atravessar a Bonocô e a Paralela num Verde Lago pra eles sentirem na pele a melhora. Veja se aqui alguma artista, algum atriz anda de ônibus? Se Ivete Sangalo, Claudia Leitte, Bell, aquele outro do Asa de Águia andam de ônibus? Nem Psi anda mais depois que ficou rico, comentou.

   - Tá muito bem, perdoei a revolta de dona Céu e prometi levá-la no Parque da Cidade para ouvir Zelito Miranda, no domingo, usando nosso Uno e ainda tomar umas periguetes.

  - Aproveite e também me leve no Sal & Brasa que tenho muita vontade de conhecer - emendou.

   - Mas lá é caro e não temos condições de pagar a conta, desculpei-me.

   - Caro! Caro é um tal de Pobre Juan, o antigo Baby Beef que minha amiga Tina Copo esteve com o marido na semana passada e quase deixa as calças (dele) por lá. Por isso lhe pedi para ir ao Sal & Brasa que é mais em conta.

   - Vou ver. Se a vendagem das toucas for boa no Pelô, nós iremos.

   Aí peguei meu buzú entre a Caixa D'Água, onde moramos, e a Barroquinha via Baixa dos Sapateiros, parecia uma lata de sardinha, e segui num aperto dos pecados. Quando os passageiros foram saltando e ficou mais aliviado, na altura da Sete Portas, até sentei numa cadeira e coloquei minhas mercadorias atrás do banco do motô, e aí, pra meu azar, anunciaram um assalto. 

   Deu-se um bafafá da zorra, um camarada recolhendo objetos de todo mundo num saco, e um outro grandalhão ameaçando os passageiros com um trezoitão, que acabou sobrando para mim. 

   Pedi pelo amor de Deus pra não levar minha mercadoria, daria meu celular, meu relógio tissot falsificado, mas, não teve conversa e lá se foram minhas toucas, a féria do dia.

   Naquele momento, longe do perigo da arma daquele jegão, aliviado, só pensava na promesa que tinha feito a dona Céu de levá-la ao Sal & Brasa.

   Desolado, ao chegar ao Pelô consolei-me com a garçonete Márcia Dendê, na Cantina, da Lua, a qual, também duranga, só pode me emprestar uma pelega de R$5,00 para eu pegar o buzú de volta para casa. Ainda tomeu duas geladas para esfriar a cabeça, com consentimento da pendura por parte de Sêo Clarindo.

   De volta à minha casa, quando atravessei a soleira da porta com uma pacote mínimo de pães comprado fiado na padaria de Sêo Pepe, a mulher era só alegria: - Hi! Vendeu todas as toucas, não trouxe nada de volta?

   - Roubaram tudo no buzú, respondi desolado.

   - Tá vendo! É por isso que aqui alcaide não anda de ônibus, autoridade da SSP não anda de buzú, deputado não anda de van, atriz quase nenhuma anda de marinete, nem as do Bando Olodum, e nós, os pobres, os lenhados, é quem pagamos o pato.

   - Pior é que a promessa para irmos ao Sal&Brasa fica cancelada para próxima oportunidade.

   - Cancelar uma ova. Promessa é promessa. Você é político que promete mundos e fundos e não cumpre? Vamos mexer em nossas reservas mas iremos assistir Zelitão e curtir do bom e do melhor na churrascaria.
- Então nós iremos de buzú pra economizar pois domingo é meia?

   - De buzú nem pensar Juvená - puxou minha bochecha. Passei à tarde lavando e escovando nosso Uno e vamos nele.

   - E a gasolina, quem paga? - questionei.

   - A gente bota R$10,00 no posto do Retiro, pega a Av Luis Eduardo, usa a banguela, corta pelo Imbui, nova banguela, e chegaremos lá numa boa. E lhe digo mais: ainda vamos fazer um selfie pra matar essas atrizes de inveja.

   - Com esse Sansung velho que você tem não faz é nada - gozei.

   - Bronco! Eu agora estou em com um iphone da Apple, me mostra o aparelho protegido com um escudo do Vitória, e sai pela sala da casa se borrifando com água termal da La Roche.

   É brincadeira essas emergentes, pensei comigo mesmo.