segunda-feira, 23 de setembro de 2019
Colunistas / Filosofia Popular
Rasta do Pelô

CRÔNICA: Esposa do Rasta do Pelô se recusa a ir a réveillon da Cayru

É cada coisa que se vê que se duvida
30/12/2013 às 13:19
Depois que dona Céu, minha santíssima esposa resolveu aprender a falar francês, emergente classe C tem cada coisa que se duvida, só vive a falar de Paris como se a capital da França fosse a Baixa dos Sapateiros, fosse a Avenida Sete, parecendo até que ela viaja para lá com frequência.

   Então, na véspera desse final de 2013 e inicio de 2014, convidei-a para irmos ao réveillon da Praça Cayru e ela estrilou: - Vou sair da Caixa D'Água para ir a réveillon de pobre, em rampa de Mercado Modelo, tenha santa paciência, comentou dizendo que se ainda fosse para a terça do Olodum ou pro Fenadum, menos mal.

   - É o que melhor vai ter na cidade, inclusive tá todo mundo falando lá no Pelô do absurdo cachê de R$600 mil que estaria sendo pago a dupla Caetano Veloso e Gilberto Gil, expliquei dizendo-lhe que só tem cantores e cantoras de primeira linha, inclusive o Olodum.

   - Pra eles pode ser bom. Aliás, pra eles vai ser ótimo. Agora, pra nós, pegarmos ônibus, tomarmos o Lacerda e ficar na beira daquela rampa ou junto dos "colhões" de Mário Cravo Jr, é demais para minha cabeça.

   - Mas tá todo mundo dizendo que vai ser bom, que vai ser uma maravilha, que vai ter queima de fogos de não sei quanto minutos, vai iluminar o monumento de Cravo Jr que você coloca esse nome indecente e o Forte do Mar, tentei convencê-la.

   - Ora, se ainda fosse para irmos a Paris, assistir o espoucar de fotos à beira do Rio Sena vendo a silhueta da Torre Eifel, aí eu me mobilizaria, seria a mãe da mobilidade, e a gente iria de bom coração. Agora, na Cayru, nem pensar, tire seu cavalo da chuva.

   - Você agora deu pra essa mania de falar de Paris, da Torre Eifel, do Champes Elysées, do Louvre, como se dinheiro nascesse em árvore de Natal, como se eu vendendo toucas no Pelô, eu tocando tamborim nas tocatas de verão, e você fazendo tererê e outras encomendas, o dinheiro desse pra gente ir a Paris, aborreci-me.

   - Então, já que não dá para ir a Paris, prefiro reunir minha familia e amigas aqui em casa numa ceia de final de ano e dou-me por satisfeita, aquiesceu fazendo a ressalva: "Na Cayru é que não piso meus pés, na praia da Preguiça é que não vou lançar presente pra Iemanjá e pegar uma coceira em meus dedos".

  - Então tá, sendo assim, assim seja, vamos providenciar a ceia, consenti.

   Dona Céu foi na cozinha e trouxe uma lista com os produtos que eu teria que comprar no Atakarejo, assim eu supunha, mas ela foi taxativa: "Vá a Perini e me compre dois perus temperados da Sadia daqueles que apitam, dois quilos de bisteca argentina, dois quilos de picanha bovina resfriada da Friboi, 1 queijo Milano, 4 garrafas de tinto chileno Leon de Taracapá, arroz integral, dois pacotes de macarrão italiano, três pães galegos tipo bola, 1 caixa de Budweisser long neck, 3 garrafas de espumanete Salton reserva Ouro e dois pacotes de uvas qualitá. O resto nós tempos em casa, incluisive os temperos. Ainda assim, traga dois pacotes de salsicha verdes e agrião".

   Aí, meu caro leitor, minha nobre leitora, quem estrilou fui eu: "Você enloqueceu. Tá pensando que fiquei rico. Que nosso Bolsa Família, que nosso Bolsa Escola, nosso cartão do SUS e todos esses peduricalhos que tempos do governo dados pelo nosso "rei Sol" permite-nos uma ceia dessa natureza?

   - Se vire. Fale com seus amigos ricos: com o conselheiro Souza, com dr Zéu, com o marketeiro Mendes Neto, com o agropecuarista dr Simões, com seu amigo guru o itelectual de bigode, Badu, que eles podem encontrar uma solução. Agora, não me apareça aqui com produtos de baixa qualidade que, senão, como disse sua candidata a senadora dra Eliana Calmon, vou rodar a baiana.

   Fui trabalhar azucrinado, mas, consciente de que não iria desequilibrar minhas finanças fazendo tal extravagância. Até porque, se a vida toda estivemos acostumados com chupa-molho, com os pães da Padaria de Sêo Galdino, com vinho de garrafão em 5 litros, não seria agora, só porque é réveillon que iria extrapolar.

   Isso já estava assentado na minha cabeça quando sai de casa para ir ao Pelô trabalhar, que não apelaria a meus amigos endinheirados, não iria ligar para o conselheiro, o qual a essa altura já estaria em sua casa de praia, não iria incomodar dr Zéu, o qual só frequenta o Alfredo de Roma, para fazer pedidos dessa natureza.

   Com o que vendi no dia, com o dinheiro amealhado na venda de toucas, e o dia foi bom porque o Pelourinho está repleto de turistas, graças ao dr Leonelli que fez muito pela Bahia, me dirigi a Comercial Rodrigues e comprei todos os produtos pedidos por dona Céu, porém, com outras marcas.

   Quando cheguei em casa com minha Brasília e ela ouviu o ronco do motor ficou numa alegria imensa, Mas, quando observou eu descarregando as sacolas com a marca do Mercentil fechou logo a cara. 

   Fui rápido no gatilho: "Não se aborreça que tem tudo o que você pediu e da melhor qualidade".

   E aí, já na mesa da sala, ela foi abrindo as sacolas e conferindo o feijão, a farinha, um peru temperado da Mauricéia, duas garrafas de vinho Espiritu do Chile, duas garrafas de Pérgola, duas garrafas de dom Bosco, 1 queijo Milano,  1 caixa de periguete da Schin, 3 sukitas de 2 litros, dois pacotes de salsichas e mais um brinco LP Bijou que lhe ofertei.

  - Você trouxe tudo errado. Como vou oferecer as minhas amigas um vinho Epiritu do Chile. 

- Foi o que o dinheiro deu pra comprar, expliquei.

   - Cadê os pães bolas galegos, cadê as uvas?

   - Alguém vai comer pão bola pelo amor de Deus. Isso é Copa do Mundo? 

   - Os pães e as uvas são para enfeitar a mesa, entendeu seu orelhudo! - falou quase gritando.

   - Que não seja pior isso: peguei um saco da padaria de Sêo Galdino contendo broas e cacetinhos e a entreguei.

   Seu moço! Só deu tempo de correr e me proteger na Brasília, pois, dona Céu, incorporou algum Espiritu do Chile  foi atirando na minha fuça cada uma das broas e e dos pães.

   Salvo engano, Sêo Galdinho, tinha colocado uns pães dormidos e um deles bateu na lataria do carro que chegou a amassar.