quarta-feira, 23 de outubro de 2019
Colunistas / Filosofia Popular
Rasta do Pelô

RASTA DO PELÔ come cabeça de peixe com farofa de bozó no dia dos pais

Rasta não teve direito a pimenta, nem arroz, nem uma concha de feijão e ainda teve pesadelo a noite
14/08/2013 às 09:31
Como não consegui viabilizar a viagem de dona Céu para curtir uma temporada da neve em São Joaquim (SC) e ainda pilheriei que ela deveria pegar o bocapio e fazer as compras da casa na Feira de São Joaquim, insinuando que este é seu lugar, a patroa, como boa emergente da classe C, havia jurado que "seu troco vem aí", "você não perde por esperar" e outras ameaças, de fato, aconteceu a "vingança maldita" no dia dos pais, os meninos saboreando uma lazanha al forno, e para o papai aqui, frase da dita, foi servido um peixe especial, também no forno e encoberto em laminado, segundo a senhora do lar, "feito sob medida para o papai".

   Para minha surpresa, quando abri o papel laminado, só tinha uma cabeça de vermelho, o bicho com os dentes abertos parecendo que iria me morder, e um punhado de farofa amarela que mais parecia recolhida de algum bozó da Balança do CAB. Mas, como bom cabrito não berra, fiquei na minha e fui tirando de carne o que era possível do pescado, comendo pelas bordas o torrado das pontas da cabeça, afundando o olho do bicho com o garfo e jogando punhados de farofa na boca, sem reclamar.

  Dona Céu astuciava e os meninos davam era risada de minha cara. Para não dizer que não pedi nada, solicitei um latão. A esposa foi a geladeira e me trouxe uma latinha, daquelas periguetes que se toma de um gole, e abriu na minha fuça.

   Bendito seja louvado!: - A cerveja tá quente, reclamei com a madame.

   Ela deu de ombros e disse: - Se quizer tome se não quiser tem Coca Zero gelada. 

   Amarguei a dita quente mesmo e fiz a segunda pedida: - Não tem uma pimentinha para saborear essa cabeça do peixe?

   - Fiz minhas unhas em Andréa. Não deu pra fazer o molho dessa vez e meu dinheiro tava curto para comprar um inglês de garrafa.

   Eu já tava pra pedir um punhado de arroz ou uma concha de feijão, mas, diante de tantas desditas fiquei calado e andei prosei: - Tá uma delícia essa ponta da cebecita do vermelho.

   Paciência. Comi a cabeça de peixe com farofa a seco. Nem tanto, porque tomei a periguete quente do mesmo jeito, e foi-me servido dois dedos de Coca gelada.

   Na hora dos presentes, meu maior me deu uma capa de celular comprado na camelô da Baixa, com o escudo do Vitória ao fundo. Gostei muito e fui logo trocando o suporte de borracha que tinha no aparelho.

   Ele ainda charlou: - Esse aí que v tem não presta. É vagabundo, comentou.

   A mais velha estava viajando e não me deu nada. E, dona Céu, ainda de cara amarrada por conta de São Joaquim, que santo maldito, me deu uma corda.

   - Uaí! soletrei que nem um mineirinho assustado com a morte: pra que serve essa corda? para me enforcar?

   - Ô! moleque burro! É uma corda de atleta, de boxeador, para v pular e tirar essa barriga.

   Só não sai da mesa pulando a cordinha porque poderia ter uma indigestão. Cabeça de peixe, farofa de bozó, corda preta e cerveja morna era dar um saltos e pimba, cova na certa.

   Pensei, então, em recorrer ao meu causídico, Dr Zéu de Itaberaba, para solicitar uma reparação, mas desisti.

    Fui assistir o jogo do Vitória contra o Timão, todo orgulhoso com minha capa de celular com o escudo do Leão, e o glorioso da Barra levou 2x0 no Pacaembu. 

   Pelo visto, esse não era meu melhor domingo.

   Resolvi dormir cedo. Cadê o sono. A mistura da farofa com a cerveja quente me deu uma azia daquelas de promover engasgos e arrotos de carretilha. 
  - Socorro. Gritei para dona Céu pedindo um chá de boldo.

   A mulher foi no quintal colheu umas folhas de boldo e em 40 minutos veio com o chá. 

   - Toma isso que v vai ficar bom. Agora, espere esfriar pra não dar uma congestão, advertiu.

   Seu moço, no primeiro gole, São Romão, São Roque, São Expedito, Santo Inácio, e põe santo nisso o chá era mais amargo do que fel.

   Mas, eu de mim que fosse reclamar. Engoli o "monstro" assim mesmo. Dei uns quatro arrôtos, uma caminhada no quarto, rezei um pai nosso e uma ave Maria e fui dormir.

    Lá pras tantas tive um pesadelo de arrepiar e saltei da cama achando que um tubarão daqueles de Recife tinha engolido minha perna.