segunda-feira, 21 de outubro de 2019
Colunistas / Filosofia Popular
Rasta do Pelô

Mulher do Rasta do Pelô quer vestido igual ao das mulheres do Oscar

É cada coisa que se vê nessa classe emergente que dá até vontade de gargalhar.
01/03/2013 às 10:42
 Eu mesmo nunca tinha assistido pela TV uma cerimônia do Oscar. 

   Mas, sabe como é, tudo mudou em nossa vida desde que a família ascendeu à condição da classe C emergente, graças ao nosso ex-presidente Lincoln. 

   Dona Celeste, minha santíssima esposa, tem martelado em minha cabeça que tenho que deixar de assistir o programa de Ratinho, deixar de acompanhar os sermões do pastor RR, de perder noites vendo lutas de UFC, e assistir programas mais inteligentes porque nossas rodas de conversas mudaram, os ambientes são outros e estão a exigir até uma TV por assinatura.

   Daí que topei de bom coração assistir o Oscar e dona Céu (assim que a chamo na intimidade) fez toda uma preparação na sala, latões de cerveja tinindo de gelada, pipocas, meio quilo de josefina e até queijinho com torradas. Chique né!.

   Claro que depois dessa bonança, dona Céu colocando a gelada numa tulipa que comprou na Baixa, fazendo uns cafuné no véi (é assim que ela me chama) começaram a aparecer aquelas mulheres belíssimas, elegantes, com cada roupa de tirar o chapéu, e fiquei deveras entusiasmo e com os olhos grudados na telinha. 

   Pior foi que senti a madame também se entusiasmado, gostando do latão, e quando entrou no palco uma atriz que parecia Xuxa, com aquele vestido enorme com calda de pavão, Céu tomou um golão e disparou: - Quero um desses.

   - Desses o quê mulher? - perguntei fazendo de conta que não estava entendendo sua afirmação, tirando uma de João sem braço.

   - Ah! Não se faça de desentendido. Esse vestido brilhante dessa loura.

   - Ô louco mulher! você não tem nem guarda-roupas para colocar um vestido desses.

   - Vou na Ricardo e compro. Ou então penduro uma arara aqui no teto da sala e pronto: coloco ele.

   - E dona Beatriz sua costureira sabe fazer uma roupa dessas? - questionei.

   - E quem disse que vou querer vestido de minha comadre Beatriz. Quero uma do Oscar - falou batendo no seios.

   - Ôh! mulher tu tá confundindo as bolas! Oscar é o pêmio desses artistas lá dos Estados Unidos.

   - Deixa de ignorância ...é Oscar de La Renta, um estilista da moda - disse fazendo cara de que sou um bronco.

   - E quem lhe disse que aqui na Bahia tem loja que venda esse tal de La Renta, nem no Salvador Shopping que é o mais chique você vai achar - caí na risada.

   - A gente fala com dona Paradoxus e pede pra ela encomendar. Ela traz de São Paulo que em SP tem tudo - arguiu como se conhecesse a capital paulista.

   - E quem vai pagar a conta? Ademais, tu não vai acertar andar com um vestido desses, com essa calda de pavão, vai tropeçar e sair - continuei rindo.

   - Vá se f...eu tomo aula com minha vizinha Tati, compro um sapato alto na Leão de Prata, me ajusto, treino e ficarei é bacana.

   - Quem vai pagar esse luxo, quem vai pagar - apontei fazendo gesto com o polegar e o indicador.

    - Esse negócio de dinheiro você fala com um dos seus amigos, o tal do Badu, o intelectual de bigode, o jornalista Pig, doutor Zéu, o conselheiro Souza, esse pessoal é endinheirado e pode lhe emprestar.

    Nisso entrou uma daquelas cantoras lindonas, cantando em inglês que a gente não entendia nada mas gostava, com voz muito além de Soninha Milk ou La Júpiter, nossas cantoras carnavalescas, e dona Céu em vez de elogiar a voz da mulher só falava no vestido da moça, na beleza da calda, na sofisticação do decote, e se entusiasmou tanto que, foi correndo a geladeira e trouxe mais um latão.
Eu, que também estava de queixo caído com a beleza da cantora, já com a pança repleta de josefina liberei sem querer um daqueles arrotos que mais pareciam um trovão, e, por coincidência, quando Céu destravou o latão dando aquele sinal de plof pipocou um transformador de energia na rua e faltou luz.

   - Santo pai! - falei que foi um meteorito e a mulher correu derramando o líquido do latão pra cobrir a penteadeira do quarto com um lençol temendo que algum raio invadisse nossa casa.

   Corri pra janela e fiquei astuciando. E, o tempo foi passando e nada da luz voltar. Retornei ao sofá e já que nada tinha mais a fazer, o cafunê foi esquetando ali mesmo na sala até que falei baixinho à patroa: - Vamos pra nossa caminha que este sofá é velho e não aguenta o tranco.

   E assim aconteceu, não se falando mais em vestido rabudo, em La Renda e em Oscar. Foi uma noite admirável e, não é pra me gabar não, mas levei três estatuetas: de melhor roteiro, de efeitos especiais e de melhor ator.