quarta-feira, 23 de outubro de 2019
Colunistas / Filosofia Popular
Rasta do Pelô

RASTA DO PELÔ É CHAMADO DE "PINIQUEIRO" PELA ESPOSA E QUASE TEM BRIGA

Rasta entendeu que era "peniqueiro"
30/08/2012 às 10:01

Foto: Rede Globo
Sem modos na sociedade de Ilhéus, Gabriela pinica coxas e é cortejada
   Estava no meu bem-bom lendo o livro sobre Clarindo Silva, de Vander Prata, editado pela Assembleia Legislativa, quando minha senhôra sentada no sofá de nossa casa de olho grudado na tv e na novela Gabriela, sem quê nem pra quê, sai dos seus cuidados e diz que sou igual a retirante amadiana tostada pelo sol de Ilhéus, me chamando de "piniqueiro".

   Em princípio não dei muita atenção ao fato, mas, no decorrer da leitura com meus parcos conhecimentos assuntei para o que a dita falou e questionei porque esse apelido de "peniqueiro", eu entendendo dessa forma, alguma coisa relacionada com penico, urinol, o que não seria bom e poderia redundar numa dessas brigas de casal que acaba com troca de bofetes, ainda que nesses anos todos de casados, a única coisa que dou para ela são flores, carinho e muita atenção. Amor mesmo.

   - Que "peniqueiro" por que essa conversa influenciada pelas ousadias de Jorge Amado? - argui.

   Foi quando me explicou que eu estava mudando o sentido da palavra "piniqueiro" para "peniqueiro" e o que ela tinha dito estava relacionado com o verbo piniciar, balançar as pernas eletricamente como sempre fazia ao sentar-me no sofá, como se tivesse um motorzinho nas coxas. 

   - Entendeu meu bem! É isso que quero dizer e falei copiando a novela, explicou trazendo pipocas e uma coca cola.

   E até pediu que eu olhasse para a telinha e parasse de pinicar as pernas tal como a alcoviteira Dorotéia solicitou a Gabriela diante da insistência da moça em tremer as pernas acompanhando o ritmo de um batuque que vinha da rua, elas que participavam de uma reunião da alta sociedade de Ilhéus, anos 1920, e que tratava do Natal dos pobres, de um adjutório as crianças carentes na época de louvor ao menino Jesus.

   Ainda assim decidi consultar o Aurélio, redimir dúvidas, creio que sou o único morador da Caixa D'Água que tem um Aurélio dos grandes em casa, e lá estava escrito que pinicar significa bater ou ferir com o bico, bicar, picar, de maneira a cutucar; e que pinico não tem nada a ver com penico, sendo o primeiro um bico, uma ponta aguda; e o segundo, urinol, vaso apropriado para urinar, defecar.

   Agora, a palavra "piniqueiro" não existia no "pai dos burros". Telefonei então para Santa Catarina a fim de consultar meu "guru" Badu, o intelectual de bigode para saber se ele conhecia essa palavra e ele me disse que deveria ser alguma expressão usada por Jorge Amado, o qual era o bam-bam-bam com ditos populares, e a novela Gabriela estava repleta delas, como "seguir pela sombra", o que significa o mesmo do hoje "vai com Deus" ou "vai em paz"; "engolir abacaxi pelo cabo" que é o mesmo que se "engasgar" ou ficar mudo diante de perguntas numa CPI; e "mulher perdida" uma moça que tenha perdido a honra, quebrado o selo, destravado o cabaço.

   Aí fiquei mais calmo e segui lendo o palavreado de Vander Prata sobre Clarindo Silva desde que o magriço veio do Almeida até Salvador com a familia e hoje dirige a Cantina da Lua, ponto de encontro de nosotros e onde tenho demorados papos filosóficos com Márcia Dendê, a garçonete pole da Cidade da Bahia.

   E como não sou de encrenca com minha Senhôra, pus o livro de lado em instantes e fiquei assuntando Gabriela e as aventuras narradas por Jorge Amado. Uma maravilha.
Ainda ganhei de quebra uns cafunés e mais pipocas.