quarta-feira, 08 de dezembro de 2021
Colunistas / Política
Tasso Franco

ISOLAMENTO POLITICO BOLSONARO, HISTÓRIA E AS 4 LINHAS

O presidente Bolsonaro ainda não entendeu que as massas nada governam
08/09/2021 às 11:55
    O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) comete um erro palmar para quem é do ramo da política há 30 anos: ninguém consegue governar o Brasil sem a política. Todos aqueles que tentaram fazê-lo cairam: Dilma Rousseff, Collor de Mello, Jânio Quadro, General Figueiredo, Getúlio Vargas, Dom Pedro II. Quando houve a Revolução de 31 de março de 1964, o golpe de estado que derrubou João Goulart (PTB), a primeira coisa que o marechal Castelo Branco fez - primeiro presidente desse ciclo - foi compor com quem entendia de política nos Estados e nomeou para governador da Bahia, Luis Viana Filho.

  Ora, Luis Viana Filho veio do nada? Não. Era filho do governador Luiz Viana que governou a Bahia no final do século XIX e era um mestre na política dos coronéis do São Francisco. Viana Filho já era do ramo e seguiu nele até a morte sendo também senador e ministro de Estado. De quebra, acadêmico que era, bom nas letras, escreveu uma biografia de Castelo.

  Quando estourou a revolução tenentista de 1930, Getúlio Vargas nomeou para a Bahia, o tenente do Exército Juracy Montenegro Magalhães, aos 26 anos, logo promovido a capitão. Que fez Juracy? Se aliou aqueles que conheciam de política no estado - João Facó, Hannequim Dantas, Americano da Costa, Gileno Amado e outros - rompeu com Getúlio em 1937, por época do Estado Novo, e voltou governador eleito pelo povo entre 1959/1963. Morreu velhinho e nunca mais saiu da política, seu filho Jutahy Magalhaes sendo senador e Jutahy Júnior até bem pouco deputado deputado federal. 

   Mais emblemático aconteceu com o imperador dom Pedro II que fazia um bom governo implantando no Brasil as novidades da Revolução Industrial inglesa - ferrovias, fábricas de tecidos, navegação a vapor, telegrafo sem fio, telefone, hospitais, escolas, etc - mas não dava bolas à política. Adoentado, sua herdeira era a princesa Isabel, casada com um francês Gastão de Orleans (Conde D'Eu) antipatizado pela população. Os movimentos abolicionistas e republicanos a mil por hora e a princiesa Isabel mais orando do que governando.

  A parte política era administrada por Afonso Celso de Assis Figueiredo (Visconde Ouro Preto), chefe do Conselho de Ministros.

   Os militares captaneados pelo marechal Floriano cooptaram o marechal Deodoro da Fonseca, monarquista convicto e que não queria a mudança do regime - adoentado, diz-se que até para montar no cavalo deu trabalho - e seguiram para a Praça da Aclamação (hoje, Praça da República, Rio) e proclamaram a República, em 15 de novembro de 1889. A familia real partiu para a Europa, sem sobressaltos. 

  Em 3 de novembro de 1891 aconteceu o golpe-do-golpe e Deodoro fecha o Congresso Nacional. Nesta data, o presidente assinou dois decretos, um dissolvendo o congresso e o outro instaurava o estado de sítio, pelo qual ficavam suspensas todas as disposições da nova constituição republicana relativas aos direitos individuais e políticos. Neste mesmo dia, o Exército cercou a Câmara e o Senado, prendendo opositores e alguns ex-aliados de Deodoro, como Quintino Bocaiúva.

  Era o que Floriano (vice-presidente e ex-ministro da Guerra) queria. Em 23 de novembro de 1891 assume o governo no lugar de Deodoro, o qual renunciou e morreu em agosto de 1892. O periodo de Floriano ficou conhecido como a era da "Republica das Espadas".

   O presidente Bolsonaro se ilude com multidões. O povo nem a classe média governa nada. Dá uma sustentação aqui ou acolá, mas, quando a poeira assenta, as elites políticas é quem governam. Bolsonaro fez um aceno ao Centrão ao levar Ciro Nogueira para o governo e está alinhado com o presidente da Câmara, Arthur Lira, porém, da mesma forma que foram saem. 

  O presidente, ao tentar isolar dois membros do STF diante argumentação  não convicente - sobretudo o voto impresso logo ele que foi eleito sem esse tipo de medida - de fato conseguiu indispor o STF contra boa parte da população, mas, o STF não integra a estrutura do governo no essencial à população - inflação, empregos, reformas e outros.

  Se Bolsonaro quer, de fato, governar dentro das quatro linhas - como diz - tem que respeitar a Constituição e acatar e contrapor as decisões do STF e do TSE dentro da norma jurídica. Assim aconteceu com a urna auditável - voto impresso - e a Câmara já decidiu isso pela maioria. Assunto vencido não pode ficar sendo remoido porque Lira não é de papel e pode também sentir sua autoridade sendo desmerecida e atacada.

  Diz-se que, hoje, na sessão do pleno do STF, o presidente Luis Fux fará um pronunciamento. Três pontos específicos da fala de Bolsonaro - revela Camaroti - terão uma resposta firme: as ameaças feitas ao próprio STF; o recado para que Fux enquadrasse o ministro Alexandre de Moraes; e o aviso de que vai descumprir decisão judicial.

  E acrescenta o colunista: "Na Corte, o entendimento é que as respostas seguem nas vias judiciais e que, nesse contexto, Bolsonaro só produziu mais provas contra si com as ameaças públicas. O presidente já é investigado em quatro procedimentos no STF".

   Vê-se, pois, que o impasse segue adiante. O que vai acontecer é imprevisível. Bolsonaro se isolou mais ainda e se perder o que ainda lhe resta na política, dificilmente sobreviverá politicamente. Salvo se aparecer um Floriano com suas espadas. (TF)