Quando o mestre de obras Luis Dias implantou a fortaleza inicial do Salvador, aquele que salva na indicação de Dom João III, em 1549, havia uma porta Sul (Santa Luzia) na altura do final da Rua Chile atual, que era à direita do Palácio; e uma porta Norte que senhorava o platô que despenca ao Pelourinho, atual Praça da Sé; a Oeste, o mar da Baía de Todos os Santos balizado pelas ladeiras da Misericórdia e Pau da Bandeira, acesso à Ribeira do Góis, no limite ao lado da praia; e a Leste, os charcos da atual Baixa dos Sapateiros e Desterro.
Os portugueses se sentiam seguros nesse platô com seus canhões apontados para mar e as portas trancadas e protegidas por arcabuzeiros e lanceiros.
Durante séculos a Praça da Sé foi (e ainda é) um marco para Salvador.
Ali se instalaram a Sé Primacial, derrubada em 1939, que acabou resultando na criação do IPHAN, e o Colégio dos Jesuítas que é o marco inicial da educação formal no Brasil.
A igreja matriz da Sé tinha sua testada voltada para o mar onde hoje se situa o monumento da Cruz Caída, de Mário Cravo Jr, claro, também um protesto a esse absurdo que se cometeu contra a cidade. Com a instalação do colégio dos Jesuítas e a pressão dessa Companhia de Jesus é que a cidade se expandiu para o atual Pelourinho, já no governo de Mem de Sá.
Nos governos do prefeito Antonio Imbassahy (1997/2004), a Praça da Sé ganhou uma nova configuração com a construção do Monumento às baianas, no antigo Belvedere da Sé, o monumento à Cruz Caída, remodelagem da praça, e exposição dos antigos alicerces portais da Sé Primacial e Colégio dos Jesuítas, com indicações para os turistas e baianos e toda uma repaginação cultural.
Além do que, instalou uma passarela nas proximidades ao altar mor da Sé Primacial onde estavam sepultadas centenas de pessoas.
O prefeito não concordou em deixar esqueletos à mostra temendo críticas de alguns segmentos ainda que esse procedimento seja comum na Itália, França e na América Latina. Recentemente, visitei as catacumbas do Mosteiro de São Francisco, em Lima, e o que há de ossos e caveiras à mostra é impressionante. Faz parte da história e não há nada de macabro nisso. Está no roteiro turístico de Lima.
E o que se passa, hoje, com a Praça da Sé? Por que tanto abandono?
Não dá para entender. É o ponto turístico mais visitado da cidade, pois, se situa numa posição estratégica entre a Praça Municipal e o Pelourinho.
O piso da praça está quase todo quebrado. O local onde se situam os pilares da Sé Primacial virou um criatório de gatos, inclusive com rações colocadas pelos comerciantes da área. Os letreiros indicativos estão riscados e apagados. As prostitutas fazem ponto a céu aberto nos bancos da praça, cães vadios estão por todos os cantos, e mendigos e menores infernizam a vida dos turistas e baianos.
Ora, ninguém é contra o direito de ir e vir. Paris, Londres e Barcelona também têm prostitutas no centro dessas cidades. Mas, da forma que acontece na Sé, não existe.
A rua do Bispo, salvo algumas lojas de eletrônicos, se transformou no antigo Maciel de Baixo, e as pessoas são instadas a um "boquete" a todo momento, por 50 pilas.
Salvador sendo uma cidade com perfil turístico deveria, pois, cuidar melhor dessa jóia de sua coroa que é a Praça da Sé. Hoje, faz vergonha.