Salvador

POLICIA CIVIL DECIDE PARALISAR DURANTE CARNAVAL E CRIA CLIMA DE TENSÃO

Com informações de A Tarde
| 03/03/2011 às 14:04
Hoje, desfile do Alerta Geral pode ser sem Polícia Civil, em greve
Foto: AGECOM

Os policiais civis decidiram, em assembleia na manhã desta quinta-feira, 3, paralisar as atividades por tempo indeterminado na Bahia. "Vamos parar até que o governo retire toda a cúpula da Segurança Pública, incluindo o secretário, Maurício Barbosa, e o delegado-chefe Hélio Jorge, porque acreditamos que eles têm responsabilidade sobre esses e outros crimes bárbaros que estão acontecendo", disse o secretário do sindicato da categoria, Bernardino Gayoso.


A categoria também pede a apresentação "dos executores" do agente da Delegacia de Furtos e Roubos, Valmir Borges Gomes, morto na noite desta quarta, 2, durante confronto com policiais civis após suposta tentativa de extorsão. "Os foliões e turistas não vão ter segurança neste Carnaval. A Polícia Civil não vai participar. Somos nós que apuramos os crimes e enviamos os inquéritos para Justiça", argumentou o sindicalista.


Após a assembleia, os policiais seguem em passeata da Avenida Carlos Gomes até a sede do Ministério Público, em Nazaré, onde vão pedir que o órgão acompanhe a investigação da morte do policial civil. "Queremos que eles acompanhem porque não acreditamos na investigação feita pela cúpula da Secretaria de Segurança Pública (SSP)".


No início do dia, o secretário do Sindicato dos Policiais Civis do Estado da Bahia (Sindpoc), Bernardino Gayoso, afirmou que apenas 30% do efetivo das delegacias trabalhavam porque "não havia condições físicas nem psicológicas de prestar um serviço de qualidade à população diante do que aconteceu".


"Vamos sair às ruas e cobrar do governo do Estado que indique quem comandou a operação desastrada e quem foi o agente que executou o colega. Nós defendemos que, se há alguma coisa ilícita, que seja apurada, e que não se saia matando. Queremos saber do governo se a ordem agora é matar", declarou.


A redução do efetivo nas delegacias da capital foi negada pelo delegado-chefe da Polícia Civil, Hélio Jorge. "Nós temos escalas de trabalho e vamos manter nossos serviços funcionando no carnaval. Qualquer ação de paralisação deve ser oficializada", disse.


Hélio Jorge afirmou ainda que o caso está sendo apurado pela Corregedoria da Polícia Civil da Bahia e que todos os envolvidos foram ouvidos, principalmente o jovem que foi fazer a denúncia à Corrgedoria.


"Encaminhamos armas e veículos para a perícia e vamos aguardar os laudos. Esse inquérito vai ser apurado e encaminhado para a justiça. Pelo histórico que a Polícia Civil tem na Bahia, com certeza vamos agir com ações correcionais", garantiu.

Em nota oficial, a assessoria de comunicação da Polícia Civil informou que os carros envolvidos na troca de tiros estão sendo periciados, assim como todas as armas, que foram apreendidas. Os outros dois homens que acompanhavam o agente Valmir Borges Gomes fugiram e estão sendo procurados.


Dúvidas -
O sindicato tem dúvidas se as duas pessoas que estavam com Valmir Borges Gomes no momento do confronto são policiais. Há informações de que pelo menos um deles seria membro da Polícia Civil, mas não há confirmação. De acordo com Bernardino Gayoso, as duas pessoas estão em casas de parentes e segundo afirmou, estariam com medo.


Gayoso disse que a categoria quer que o governador Jaques Wagner apresente os executores e divulgue quem comandou a operação que culminou com a morte do policial. "Ele estava trabalhando e se estava extorquindo, o que eu não acredito, isso deveria ser apurado, investigado e o policial preso. Agora já tem sentença de morte?", provocou Gayoso, lembrando que Valmir Borges era diretor do Conselho Fiscal do sindicato.


Segundo Cláudio da Silva Lima, que também é diretor do Sindpoc, "até onde se sabe, ele não tinha nenhum processo, era ficha limpa". As lideranças do sindicato admitem não saber detalhes do ocorrido mas de acordo com Gayoso "soubemos que a ordem partiu do COE e se é do COE, foi do secretário de segurança", disse, referindo-se ao Centro de Operações Especiais (COE) da Polícia Civil e ao titular da pasta de Segurança Pública, Maurício Barbosa.


"Ele estava de plantão, trabalhando na investigação de um crime relacionado a entorpecentes", disse, mas não explicou por que um policial lotado na Delegacia de Furtos e Roubos estaria investigando um crime relacionado a drogas.

Cláudio Lima apresentou uma ocorrência da Stelecom (Superintendência de Telecomunicações das Polícias Civil e Militar) que registra a ligação de alguém que descreve a chegada de um veículo Renault Clio disparando contra o GOl VW do policial e que esta carro teria alguém debruçado sobre o volante. "Como um pessoa está sentada no banco e é troca de tiros? Isso não é troca de tiros", argumentou.


Confronto  -
Segundo a corregedora da Polícia Civil, Iracema Silva, um jovem de 19 anos foi abordado por Valmir e outros dois homens, que também seriam policiais, ao tentar comprar lança-perfume. Os policiais exigiram dinheiro para não prendê-lo. Apavorado, o rapaz entrou em contato com os pais, que o mandaram pedir ajuda à Corregedoria de Polícia. Lá, ele foi encaminhado para a Delegacia de Tóxicos e Entorpecentes, nos Barris.


Ao saberem do caso de extorsão, os policiais da DTE resolveram ir ao local para dar o flagrante nos colegas. Valmir teria reagido à aproximação dos colegas da DTE, que estavam acompanhados também por policiais do Comando de Operações Especiais (COE). Durante o confronto, houve troca de tiros e o agente Valmir foi baleado. Ele foi levado ao Hospital Geral do Estado (HGE), mas não resistiu.


Após confirmada a morte do colega, policiais civis ligados ao Sindpoc fizeram um protesto em frente à Corregedoria da Polícia Civil e anunciaram paralisação da categoria a partir desta quinta-feira, além de ameaçarem seguir de braços cruzados durante o Carnaval.


Agressão à imprensa -
O presidente do Sindpoc, Carlos Gomes Lima, agrediu verbalmente jornalistas de vários veículos de comunicação que entrevistavam o secretário do sindicato, Bernardino Gayoso, antes do início da assembleia da categoria na Associação dos Servidores Públicos.


Usando xingamentos, ele reclamou da imprensa não ter ido cobrir a assembleia que teria acontecido nesta quarta e ainda afirmou que quando a categoria faz caminhadas, a imprensa não se interessa pelo assunto.


Diante do clima de tensão que se instalou entre os demais policiais presentes, que também começaram a agredir verbalmente os jornalistas, Gayoso declarou que só voltaria a dar entrevista após a assembleia. Nenhum profissional da imprensa permaneceu no local após o ocorrido.