1. 1. Os blocos afro baianos foram engolidos pelo gigantismo no Carnaval que se encerrou no último dia 18, em Salvador. Não conseguiram se sobressair e passar uma mensagem de sua proposta principal, a afirmação da negritude, a reparação, a sua presença na sociedade como integrante dela e não excludente.
2. 2. Se um instituto de pesquisa (não politizado) fizer uma enquete sobre a presença dessas entidades e a mensagem que passaram, as músicas que tocaram, as vestimentas, diria que 90% vão dizer que não sabem de nada. E, em nosso entendimento, foi isso que aconteceu.
3. 3. Ora, se nós, observadores do Carnaval, críticos da percepção dos fatos, não conseguimos ter uma avaliação desse momento, a população (e os turistas) menos ainda, salvo, evidente, citações da presença dos mais conhecidos nos circuitos: o Olodum, o Ilê, o Malê e Os Negões.
4. 4. No detalhe ninguém sabe de nada. O que quis dizer o Olodum com seu tema “máscaras africanas”? É imperceptível. E o Ilê Aiyê com o tema “Turbantes e Cocares: a história de resistência do povo afro e indígena de Maricá”. Entendeu-se menos ainda. Falo da percepção geral da população e não do gueto.
5. 5. Assisti ao desfile do Olodum na Barra e me posicionei na Rua Ayrosa Galvão onde fica o principal portal de acesso. Domingo é o dia que tem mais gente neste circuito quando desfllam as estrelas e astros dos trios (logo depois do Olodum vinha Bell Marques) e a superlotação era de tal ordem que a PM facilitou a revista dos foliões só mandando suspender as camisas, e quando o Olodum (só se via o veículo) passou do Barravento, a PM pediu para que não tocasse temendo um incidente, um tumulto, um pisoteio.
6. 6. O Olodum passou pela boca da Ayrosa e pelo Morro do Cristo sem tocar e cantar. E ninguém conseguia ver nada. Claro que as pessoas não foram para a Barra ver somente o Olodum. Há todo um contexto e quem é eletrizado (potencialmente falando) leva vantagem. Os blocos de trios não têm mensagens politizadas (ou culturais) como os afros e o que prevalece é a música, quanto mais fácil de gravar pelo povo, melhor; e a alegria – a dança, o boxe, etc.
7. 7. Assisti também ao desfile do MaLê Deabalê na Barra, na terça-feira, e o meu entendimento sobre qual a mensagem que o bloco queria passar foi vago. A música cantada por uma dupla de cantores ninguém entendia nada, além da sonorização inadequada, a letra era comprida e pouco esclarecedora. O Malê sempre se destaca por suas alas coreografadas, mas, estavam amontoadas e sem harmonia. O máximo que se podia dizer delas é que eram bonitas ou belas, mas sem conexão umas com as outras, como o que se faz numa escola de samba.
8. Esse é um trabalho difícil no Carnaval e exige treinamento e gente especializada nos comandos das alas (coreógrafos) e numa comunidade em que os integrantes dela são os dançarinos (bailarinos) exige um esforço enorme e organização. Uma ala de “Os Negões” (menor) fez isso bem no Campo Grande.
9. Os blocos afros estão com um enredo muito parecido uns com os outros, engessados e patrocinados (em parte) pelo governo com o selo “Carnaval Ouro Negro”, criado pelo governador Jaques Wagner, em 2008, e que tem se expandido no plano da ajuda às entidades (mais de 90) com recursos totais de R$17 milhões, incluindo grupos de samba, afoxés e índios, e defendem a raiz (africana), a ancestralidade, a reverência à África, mas não está tratando do novo, da África atual.
10. Salvador reverencia mais a África do que vice-versa. E esse é um ponto que precisa ser analisado com uma maior dimensão e amplitude uma vez que a recíproca não tem sido no mesmo peso. Ou seja, a África não tem dado a menor atenção a Salvador (e a Bahia) porque o giro do Continente africano é outro, hoje, mais voltado para o Oriente (a China) do que para a Europa e América. Ademais a África não é um país e sim um continente com 55 países e culturas são as mais variadas possíveis, onde predominam as línguas inglesa e francesa; e no outro lado o mundo árabe.
11. A Nigéria, por exemplo, que no passado teve relações com Salvador no plano da ancestralidade, do tráfico negreiro pelo Golfo da Guiné, e temos muita coisa em termos de cultura relacionados aos hauçás e iorubás (ainda os dois maiores grupos étnicos de lá) é o mais populoso país da África (sexto no mundo) com mais de 210 milhões habitantes e por ter sofrido uma colonização britânica (independente a partir de 1960) herdou desses europeus as estruturas politicas e administrativas, a cultura se modificou e embora por lá se falem centenas de dialetos, a língua mater é inglês. E, no caso da música, o que predomina é o rock nigeriano (uma cópia com as devidas adaptações do inglês) e o eixo dessa economia cultural é Lagos/Londres.
12. Essa relação poderia ser com Salvador? Em tese, poderia, mas essa é a questão a ser vista com profundidade: como fazer isso nos dias atuais? Também em tese, era para no Carnaval de Salvador está repleto de nigerianos e artistas da Nigéria. Mas não há nada. Primeiro tem o obstáculo da língua inglês/português e depois da cultura. Os jovens da Nigéria estão noutro giro e não há relações entre a University Of Lagos e as baianas, nem a UFBA, que eu saiba. Pode ter uma coisa ou outra, mas, nada substancial.
13. A África tem 10 grandes universidades sendo as melhores localizadas na África do Sul (a considerada melhor é a UCT – University of Cap Town, cidade do Cabo; outra é a WUItS (Joanesburgo); e no mundo afro-árabe a Universidade do Cairo, que foi fundada em 1908; outra é a Universite Cheikh Anta Diop (UCAD), Dakar, Senegal, cujo ensino é em francês. Enfim, tem centros universitários poderosos com pouca ou nenhuma relação com Salvador e a Bahia. Quando digo que estreitar essas relações é uma coisa difícil, exige técnicos nacionais e internacionais, recursos, vontade política, etc ; isso também é complexo em relação ao Carnaval, na cultura e na ancestralidade.
14. Não significa que a ancestralidade seja um tecido morto, mas, Salvador trata isso como prioritário quando a África não trata mais, nem quer saber disso na politica de massa, salvo nos guetos históricos e acadêmicos. O Olodum já cantou o Egito de todos os lados, os faraós, a cultura de lá, e a música mais conhecida entre as afro baianas é “Faraó”, composta por Luciano Gomes, em 1987, e imortalizada por Margareth Menezes. E daí? O Egito é árabe. Algum artista (ou grupo) do Egito já veio para o Carnaval de Salvador., Nunca soube. Nem virá porque a cultura lá é outra.
15. Salvador chegou ao ápice de se intitular “Capital Afro” e noutro artigo questionei que produto seria vendido no mundo com essa marca “Made in Salvador”. Não existe. Se até os adereços do Carnaval não conseguimos produzir na Bahia e tudo vem da China, o disco Salvador Capital Afro toca como propaganda inócua, ou como se diz, uma reverência ancestral. Mas a África não está mais nessa.
16. A África deve alcançar 2 bilhões de pessoas em 2030, essa é a estimativa, porque embora as populações não estejam sendo renovadas na Europa, América e parte da Ásia, na Africa Subsaariana está. A pergunta: como a África vai acomodar essa quantidade de pessoas com saúde, educação, etc? A África está correndo atrás, ou melhor, na frente com a African Agricultural Technology Foudation e outras instituições com apoio da DADTCO (Holanda) e China. E Naiorobi, Quênia, para quem ainda não sabe, já está sendo apelidada da Savana do Silicio”.
17. Poderia dar aqui vários exemplos de procedimentos tecnológicos que estão sendo implementados na África (veja que os cacauicultores baianas já se queixam da crise do cacau no Sul da Bahia diante da importação do cacau africano produzido na Nigéria e outros país com tecnologias mais modernas e preços mais baratos no mercado mundial) e os “millenials” e os “centenials”, as gerações nascidas a partir de 1982 e a partir de 2010 estão se estruturando e operando na África.
18. Salvador e a Bahia precisam abrir seus olhos. A cultura do tambor não é o fim dos tempos, mas deve ser renovada, aperfeiçoada, computadorizada, porque a roda do mundo está nessa direção. Que se respeite e cultue a ancestralidade, mas que avançam, cobrem mais projetos das universidades, etc. A propósito: qual a contribuição da UFBA para o Carnaval nesse campo.
19. O tema é complexo, exige investimentos, direcionamentos e orientação acadêmicos, agora, alguém tem que começar a dar o start, senão, como aconteceu neste 2026, a impressão que vai passar é a de que os blocos afro-baianos são “bonitos, são “lindos” e vão morrer (no sentido da visibilidade) e outros nessa dimensão. É preciso, primeiro, Entender a África atual para começar a agir.