Campo de batalha
Nesse contexto tenso, de varrição do lixo, dos escombros da guerra e também de reconstrução dos países, das cidades, da vida europeia, a FIFA decidiu fazer a Copa de 1954 na Suíça, país que se manteve neutro no conflito mundial e não foi afetado diretamente pelos combates e bombardeios destruidores.
Dezesseis anos depois, a maior competição de futebol do planeta voltava a acontecer na Europa. Dezesseis países participaram da competição, três americanos (Brasil, Uruguai e México), um asiático (Coreia do Sul), doze europeus. Desses 12, três estavam sob influência do bloco comunista: a Iugoslávia, a Tchecoslováquia e apoderosa Hungria.
A partida final, de disputa do título e do troféu, entre a Alemanha Ocidental e a Hungria, seria uma batalha verdadeira, dentro e fora de campo, o clima quente da guerra fria em jogo. OTAN x Pacto de Varsóvia, Alemanha Ocidental x Hungria.
Formação militar
A Seleção da Hungria, campeã olímpica de 1952, comandada pelo húngaro Gusztav Sebes, tinha como base a equipe do Honved, integrada por atletas do exército do país, onde brilhavam o extraordinário atacante Ferenc Puskas, os meias Hideghuti e Zoltan Czibor, e o artilheiro Sandor Kocsis. Czibor e Kocsis, logo depois, escapando do duro regime húngaro (1956 foi um ano de guerra civil por lá), foram jogar no Barcelona/Espanha, onde atuava o brasileiro Evaristo de Macedo.
Puskas mandou-se para o já grandioso Real Madrid, onde brilhou ao lado da lenda argentina Di Stéfano. Puskas, que tinha patente militar húngara, naturalizou-se espanhol e, já bem parrudinho, jogou a Copa de 1962, no Chile, com a camisa espanhola.
A Hungria era realmente um timaço, com destaques individuais e um futebol coletivo diferenciado, à época. Os húngaros inovaram, na parte tática e sobretudo na preparação física. Costumavam fazer dois, três gols, a cada jogo, logo nos primeiros minutos de partida, com os adversários ainda frios. Isso porque eles, por conta do treinamento militar, descobriram a importância do aquecimento antes de entrar em campo.
Já subiam para o gramado aquecidos, quentes; os adversários desconheciam a prática e eram surpreendidos, atropelados nos primeiros minutos das partidas. Taticamente, o treinador Gusztav Sebes, disciplinador, exigia que do meio-campo para frente todos se movimentassem, com ou sem a bola, trocando de posição todo tempo, não se mantendo fixos, confundindo sempre a marcação individual das defensivas adversárias. Era uma ‘revolução’ naqueles tempos em que ponta era ponta, beque era beque, o centroavante jogava enfiado pelo meio...
A execução dessa estratégia tática, o jogo inteiro, só era possível com um apurado preparo atlético, de muita aplicação e leitura de jogo por parte dos atletas. Em campo,o diferenciado Puskas era o cérebro, comandava as ações, ditava o ritmo feito um maestro.Os húngaros sobravam, mas...
A obstinação alemãVeio a final, em Berna, num domingo de chuva torrencial, o estádio entupido com gente até pendurada nas torres de iluminação. O campo de jogo tinha virado um lamaçal escorregadio, a bola não rolava e a peleja foi decidida no pau, no corpo a corpo, um lá e cá vibrante nos 90 minutos. Os húngaros vinham de dois jogos difíceis, brigados, violentos mesmo contra o Brasil e o Uruguai.
Alguns de seus craques, como o astro Puskas, foram pro jogo final no sacrifício, machucados. Os alemães ocidentais estavam mais inteiros e babando, com sangue nos olhos. E deu Alemanha, de virada, 3 x 2. A Hungria, como era costume, fez 2 x 0 nos oito primeiros minutos (gols de Puskas e Czibor). Mas, na raça, disputando cada palmo de lama os alemães empataram ainda no primeiro tempo, com gols de Morlock e do artilheiro oportunista Rahn.
Os húngaros apertaram, meteram três bolas na trave, assediaram, mas cansaram, recuaram nos minutos finais. Daí, aos 39’ do segundo tempo, Rahm, quase caído, acertou um bico,num rebote frontal, quase na linha da pequena área do goleiro Grosics, e a bola entrou no canto.
Foi o primeiro título mundial aos alemães. Além de Rahn, artilheiro, o grande nome da seleção alemã campeã foi o meia canhoto, camisa 10, Fritz Walter, craque, capitão e líder da equipe.
Consta que alguns jogadores alemães, copa vencida, passaram semanas isolados numa clínica médica. Parte da imprensa esportiva europeia cogitou que, escondidos, recuperavam-se de rebordosa braba por conta do uso de doping nas partidas finais do torneio.Bem, ainda não tínhamos antidoping, VAR, tampouco checagem de ‘fakenews’. Uma narrativa não comprovada.
A Adidas
No entanto, algo maior, muito mais importante aconteceu naquela final que os alemães batizaram como “O milagre de Berna”. Uma descoberta, uma invenção que mudou a história daquele jogo e mudaria hábitos do esporte, dali em diante. Achado que explica o porquê de, naquele lamaçal, enquanto os ‘imbatíveis’ húngaros derrapavam, escorregavam, os alemães se mantinham em pé, plantados e ganhando no corpo a corpo as disputas.
Um jovem alemão chamado Adolf Adi Dassler, que tinha uma oficina artesanal, trabalhava com confecção e reparos de chuteiras, bolas de couro, e gostava deconversar com os atletas, procurando saber das dificuldades e necessidades de cada um no campo de jogo, desenvolveu um instrumento mecânico e uma técnica de fazer, trocar e adaptar os birros (travas das chuteiras), tornando-os removíveis, de acordocom as condições do campo de jogo.
Assim, sem que ninguém soubesse do achado, enquanto os húngaros e todos mais usavam as mesmas travas curtas, fixas e pesadas, comuns à época, os alemães entraram para a peleja de Berna, naquela final, piso lamacento, com as travas altas criadas, adaptadas e postas por Adi Dassler. A inovação fez a diferença em campo, garantiu o improvável título aos alemães.
E Adi, junto com um irmão, também artífice,os dois práticos criaram a Adidas, famosa marca alemã de equipamentos esportivos, ado logotipo das três listras.
Canarinhos desinformados
A seleção brasileira, sob comando do treinador Zezé Moreira, um retranqueiro contumaz, viajou pra Europa desacreditada. Além da costumeira bagunça de planejamento, na fase de preparação do escrete, torcida e crônica esportiva criticavama não convocação do meia Zizinho, já veterano mas ainda um diferenciado em campo. Foi muito tititi até o embarque.
- Tínhamos bons jogadores, como Castilho, Pinheiro, Paulinho, Bauer, Djalma e Nilton Santos, Didi, Mauro, Baltazar, Maurinho, Pinga, Rubens, Dequinha, Indio, Julinho...ídolos nas equipes do Rio e São Paulo. Era sim um bom elenco. Mas, pra se ter uma ideia do ‘amadorismo’ ainda reinante, desconhecíamos até o regulamento e as regras da competição que iriamos disputar na Europa.
Goleamos o México na estreia, 5 x 0 (dois gols de Pinga, mais Baltazar, Didi e Julinho)e já estávamos classificados no grupo um apenas com um empate no segundo jogo contra a Iugoslávia. A partida estava 1 x 1 (gol de Didi), os iugoslavos estavam também classificados com o empate e satisfeitos, enquanto nós atacávamos feito loucos, dando pau, os adversários europeus sem entender nada, ‘pra que isso?
’Ora, desconhecíamos o regulamento, as regras da competição, não sabíamos que o empate nos favorecia, de modo que nos vestiários, depois da partida, o clima era de tristeza, como se tivéssemos sido derrotados e já fora da competição. Só depois nos avisaram que estávamos classificados. Santa ignorância. A desclassificação viria em seguida, contra a poderosa Hungria.
Ladroagem e briga feia
A partida contra a Hungria foi chamada pelos brasileiros de a ‘batalha de Berna’. Aconteceu num domingo, a torcida brasileira de ouvido colado no rádio, ligada nosalto-falantes, acreditando nos gols de cabeça do artilheiro Baltazar, que nem foi escalado pra partida, em Didi, nas defesas de São Castilho.
Os húngaros entraram em campo desfalcados, sem o astro Puskas, lesionado. O jogo foi duro, o pau quebrou, dentro e fora de campo, durante e depois da pugna. O árbitro, o inglês Mister Ellis (Arthur Ellis), tido pelos brasileiros como um ladrão, um ‘agente à serviço do comunismo’, marcou 42 faltas no jogo, expulsou Nilton Santos e Boszic (que trocaram pontapés e sopapos) e o avante Humberto, que deu uma ‘voadora’ num adversário.
O soprador de apito, segundo nossos narradores, teria validado o quarto gol, ‘irregular’ dos europeus e também marcado um pênalti cometido pelo zagueiro Pinheiro e que resultou no terceiro gol húngaro, infração que não teria acontecido. Estávamos sendo escandalosamente ‘garfados’, como se dizia àépoca. Depois do apito final o gramado foi invadido e rolou uma verdadeira batalha campal, envolvendo jogadores, titulares e reservas, comissão técnica e dirigentes das duas equipes, árbitros, policiais, seguranças, torcedores, radialistas e jornalistas.
O pau quebrou feio, com socos, pontapés, pauladas, garrafadas, cadeiradas... arrebentaramaté os vestiários. Cenas de violência explícita nunca vistas até então em copas. E voltamos pra casa chorando pitangas.
Na Suíça, a seleção brasileira usou pela primeira vez a camisa amarela; a branca fora aposentada, para sempre, depois do Maracanaço, por superstição, tida como azarada. Foi o radialista Geraldo José de Almeida que batizou a ‘amarelinha’ de ‘seleção canarinho’.
Curiosidades
- Foi o Mundial das goleadas, uma média de 5,4 gols por partida, altíssima. Em 26 jogos, 140 gols foram marcados. Só a Hungria fez 25. Inglaterra e Bélgica, por exemplo, empataram em 4 x 4; a Áustria enfiou 7 x 5 na Suíça, os donos da casa, 12 gols numa partida... uma farra.
- Pela primeira vez os jogos da copa foram televisionados. As imagens em p&b, ao vivo, para alguns países europeus como a França, Inglaterra, Alemanha, Itália, Dinamarca, Holanda e Suíça, os donos da casa, óbvio.
- Foi também a primeira copa em que os atletas usaram camisas numeradas. E foi a última com a presença e sob liderança do cartola Jules Rimet, presidente da FIFA, que morreria em 1956, aos 83 anos. Um realizador, sem dúvida.
- A final aconteceu no estádio Wankdorf, em Berna (capital da Suíça), com a arbitragem inglesa de Walter Ling, que deixou correr frouxo o jogo pesado dos alemães.- Na disputa do terceiro lugar, Áustria 3 x 1 Uruguai, o meia uruguaio Cruz fez um golaço de bicicleta, mas contra. Tentou cortar um cruzamento na área uruguaia e acertou suas próprias redes, fogo amigo, o goleiro só espiando.
Nota: Tem mais.“Historiando as Copas’, de zedejesusbarreto, lançado em 2023 pela OjuOBáEditora, à venda pela Amazon, é uma resenha contextualizada de todas as 22 ediçõesda Copa do Mundo de futebol, da primeira (no Uruguai, em 1930) à derradeira, em 2022, a Copa de Messi no Catar/Mundo Árabe. Recomendamos. É uma obra indispensável aos que gostam e lidam com o futebol.