A falta de emprego formal, as assimetrias regionais e a busca de subsistência continuam a empurrar milhares de moçambicanos para o mercado informal sul-africano.
O PAÍS , Salvador |
08/06/2026 às 17:37
Moçambicanos expulsos da África do Sul
Foto: O País
Um novo grupo de 169 cidadãos moçambicanos, incluindo 16 crianças, regressou a Moçambique através do posto fronteiriço de Ressano Garcia, no distrito de Moamba. As vítimas haviam sido acolhidas provisoriamente em centros comunitários temporários nas localidades de Mossel Bay e Hermanus, na província sul-africana do Cabo Ocidental, após fugirem de violentos ataques xenófobos levados a cabo por comunidades locais.
Com a chegada do grupo de 169 moçambicanos, transportado em três autocarros governamentais, o número total de moçambicanos repatriados nesta última vaga de intolerância já ultrapassa as 700 pessoas.
O sentimento à chegada a solo nacional é uma mistura de alívio por sobreviver e desespero pelo futuro. Em declarações à Rádio Moçambique, cidadãs repatriadas, como Diolinda Majante e Yusna Rafael, partilharam relatos dramáticos sobre a violência vivida.
“Entraram nas nossas casas à noite, partiram tudo e disseram que tínhamos de sair dali porque estávamos a roubar o emprego deles”, relatou uma das sobreviventes, visivelmente abalada.
“Deixámos para trás as nossas roupas, os poucos electrodomésticos que compramos e todo o dinheiro do nosso trabalho. Saímos apenas com a roupa do corpo”, disse a outra repatriada.
A crise migratória forçou uma resposta rápida das lideranças dos dois países. Horas antes do encerramento desta operação, o Presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, anunciou publicamente um pacote de medidas de emergência focado no combate directo aos grupos envolvidos nos ataques, no endurecimento da fiscalização migratória e no reforço do controlo fronteiriço.
Em Maputo, o Governo moçambicano — através do Gabinete de Informação (Gabinfo) e do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD) — reiterou que a prioridade imediata é salvaguardar a vida humana.
As autoridades organizaram equipas multissectoriais em Ressano Garcia para realizar a triagem sanitária, registo civil e a distribuição de kits alimentares de emergência, concebidos para apoiar as famílias durante os primeiros 10 dias após o regresso.
Apesar da assistência logística para encaminhar os repatriados para as suas províncias de origem, analistas e organizações da sociedade civil alertam para a fragilidade deste mecanismo. Especialistas ouvidos pela DW Português lembram que o repatriamento funciona apenas como uma medida paliativa.
A falta de emprego formal, as assimetrias regionais e a busca de subsistência continuam a empurrar milhares de moçambicanos para o mercado informal sul-africano.
Sem a criação de políticas públicas robustas de reinserção económica e geração de renda local em Moçambique, o risco de uma nova vaga de migração irregular e de um eventual regresso ao território sul-africano permanece elevado.