Cultura

ROSA DE LIMA COMENTA DOIS LIVROS DO CRONISTA LUIZ ANTONIO SIMAS

O Corpo Encantado das Ruas” e “Crônicas Exusiácas & Estilhaços Pelintras” (EDITORA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA, ambos editados em 2025, selo Editora José Olympio, 173 e 202 páginas, respectivamente
Rosa de Lima , Salvador | 06/06/2026 às 10:44
O Corpo Encantado das Ruas e Crônicas Exusíacas
Foto: BJÁ

 
  Luiz Antonio Simas autor do “Dicionário da História do Samba” entre outras obras é um escritor pouco conhecido dos baianos ou pouco lido na Bahia, o que não deixa de ser uma injustiça, pois, Simas, sendo carioca, professor e historiador e a Bahia (especialmente Salvador) uma espécie de cidade irmã do Rio de Janeiro deveria ler mais os seus escritos sobretudo porque fala das ruas, do povo, da cultura popular, da umbanda, do samba, do Carnaval, enfim, temas que são familiares aos baianos.
 
  Não vamos pela lógica bairrista de que o samba nasceu na Bahia ou de que o nosso povo de santo é similar ao fluminense porque há diferenças, há aspectos sócio-culturais diferenciados, porém, o autor em apreço – a sua linguagem, a forma como analisa as questões da cultura popular, os andares, as gingas, os batuques, etc – são assemelhados e Luis Antonio merece ser mais lido.
 
   Diria que se aprende muito com o que ele diz e expõe nos seus textos, um João do Rio dos tempos atuais, um Baudelaire com andar crítico (e em muitos momentos poéticos tenho o samba como recheio) sobre o Rio de Janeiro. E, por extensão, parte da vida da sociedade brasileira porque o Rio continua sendo um espelho do Brasil, sede do Império e da Republica por muitos anos e capital nacional da cultura.
 
  Vamos comentar dois dos seus livros “O Corpo Encantado das Ruas” e “Crônicas Exusiácas & Estilhaços Pelintras” (EDITORA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA, ambos editados em 2025, selo Editora José Olympio, 173 e 202 páginas, respectivamente, R$34,00 e R$43,00, portal Amazon) livros que embora escritos em anos diferentes 2019 e 2023 são assemelhados e abordam temas populares – as ruas, a umbanda, o samba o abre caminho (Exu) que motiva o título Exusiácas . Ou assim pode se imaginar e configurar crônicas sobre as centelhas de Exu, divindade cujos caminhos se abrem de maneira igualitária no Rio e em Salvador.
 
  Diria aos leitores que tem algo de picaresco, porém, creio, o autor não põe nos textos anti-heróis que queiram tirar vantagens e ascender socialmente nesses sentido, eles fluem com naturalidade dentro do ambiente sócio cultural e político que viviam e há vários exemplos como a crônica “A Casa da Tia Ciata” – Hilária Batista de Almeida – “sacerdotisa do candomblé e, ao mesmo tempo, a festeira que transformou sua casa em um ponto de encontro para que, em torno de quitutes variados, músicos (profissionais e amadores) e compositores anônimos se reunissem para trocar informações e configura, a partir dessas trocas, a gênese do que seria a base do modo carioca de se fazer samba”.
 
   Os textos de Simas obedecem a uma diretriz em que misturam saber histórico (ele é historiador) e o vibrar das ruas, instituições, casas de santo, bares, quadras de escolas de samba e assim por diante, tudo onde a cultura popular habita, amalgama, se insere como vital à vida da população de uma cidade. Suas crônicas são, pois, a cara da cidade do Rio de Janeiro embora faça critica dando conta de que nos últimos anos tem-se adotado a lógica de conceber a cidade como uma empresa.
 
  Para Simas, a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpiadas de 2016 consagraram esse modelo “A partir da união entre o poder público e, grupos oligárquicos, grandes escritórios de advocacia e setores na atividade turística. () E as escolas de samba perderam força e poder de negociações em médio prazo para cidade-empresa por uma razão evidente: ao contrário do futebol. () As escolas de samba são – em suas origens – instituições comunitárias de construção, dinamização e redefinição de laços associativos e comunitários dos negros cariocas no período pós-abolição”.
 
   Ainda Simas: “Em virtude dessa tendência de inserção na lógica da cidade como empreendimento turístico, os fundamentos que forjaram a aventura civilizatória das agremiações do samba perderam protagonismo”. Diria que essa observação do autor tem se ampliado para Salvador e outras cidades em que o afoxé, o maracatu, o samba reggae e outras manifestações originárias das culturas indo-mestiças têm sido relevadas a um patamar secundário ou se misturam com o que já está assentado – no caso de Salvador, os mamutes elétricos e seus blocos.
 
  Mas, deixemos de lado esses fundamentos básicos e voltamos para os saberes populares e de construção da sociabilidade carioca e as crônicas Simas são um laboratório tal como cita em “Malandro Miguel na voz de Tião Casemiro” alcunhado no Mercado de Madureira como “a voz de ouro da umbanda, Tião, carioca de Lins de Vasconcelos, tinha 7 anos quando foi levado pelo tio, Agostinho de Xangô, à Tenda do Pai Gregório, no Engenho Novo”.
 
  - A partir daí, não parou mais de correr gira, tocando samba e cantando. Aos catorze anos foi confirmado ogã no terreiro de dona Mariazinha Fiuper, nos conformes de omolokô. Durante mais de quatro década, Tião foi o ogã principal da Renda do Caboclo Rompe Mato, dirigida pela falecida mãe Arlete Moita”.
 
   Coloquei trechos dessa crônica, pois, são exemplos que serão vistas nas demais de “Exuásicas” cada uma mais singular do que a outra, ora falando de figuras populares como Jaiminho Alça de Caixão e Luis Carlos da Vila; ora na sequência sobre pelintração ou indo aos bastidores do samba e da umbanda (o que há de melhor no livro) como no primeiro terreiro, na elegia da vagabundagem, o nascimento do toque do tambor, Paizinho Quincas e Tia Maria, agogôs imperiais e o encontro de Exu e Walter Benjamin.
 
   Vê-se, pois, que Luiz Antonio Simas é um cronista erudito que fala das manifestações populares, ele que tem origem popular e nunca se desvinculou dela, mas, também é um historiador, comenta sobre as ruas do Rio – os bares, o samba, a umbanda, etc -  com fundamento, com dados históricos bem abalizados e não de ouvir falar e chega a contextualizar o filósofo alemão Walter Benjamin na interpretação da imagem do “Angelus Novus” do artista Paul Klee (a semelhança do Anjo da História) com a Pedra de Exu.
 
   Em “O Corpo Encantado das Ruas” vamos encontrar um Simas mais solto tratando de temas gerais. “Lá no morro da Mangueira/ Eu vi seu Zé sambar/ Cada passo que ele dava/ Tinha uma história pra contar (Ponto de Seu Zé Pelintra)” e desce ao chão das ruas da cidade falando de gente, costumes, do jogo do bicho, do futebol, do bar, do samba, das crianças, das pipas, do azeite de dendê tudo o que cheira a povo dando pinceladas na história.
 
  O cronista de categoria – assim penso – tem que falar do que vê e sente nas ruas de uma cidade e contextualizar isso nos tempos presentes e passado, pois, creio, isso fornece aos leitores conhecimentos adicionais relevantes. Quando Simas diz, por posto, que “foi para combater os tupinambás, reunidos na Confederação dos Tamoios, e os desejos franceses de estabelecer uma colônia no território que Estácio de Sá, sobrinho do governador-geral, criou um arraial no sopé do Pão de Açucar, em 1565” traz a luz dados adicionais a uma crônica que tem o sugestivo título de “Terreiro de São Sebastião, okê”, o caldeirão cultural e guerreiro das origens do Rio e Niterói.
 
   Vamos adiante encerrando esse comentário deixando para os leitores a apreciação dos livros de Luiz Antonio Simas. O que posso dizer na minha concepção é de que são crônicas baudelerianas colocando o cronista francês aqui apenas como ator-autor com olhar critico de sua cidade (Paris) e poética.
 
  Simas não é cópia de Baudelaire nem de João do Rio, nem de Nelson Rodrigues, tem seu estilo, tem seu tempo, é contemporâneo e oferece aos leitores um Rio de Janeiro dos pontos de pombas gira e das demandas de Exu, dos bares e do samba, dos mercados e seus personagens (as galerias passagens de Walter Benjamin) com escrita limpa, leveza de linguagem tudo posto com uma visão crítica e despojada sem se submeter ao politicamente correto. E tem seus toques de poesia e humor.