O jovem estudante de fisioterapia residente na Nova Brasília de Itapuã, torcedor do Bahia acordara injuriado com a derrota do seu time para o Coritiba pelo campeonato brasileiro, dormira tarde vendo aquilo que considerava atuação sem gás do seu tricolor, levava consigo o avental em mãos onde podia-se ver o seu nome Amadeus Filgueiras Silva e ainda sonolento sentou numa poltrona do meio do buzú, em direção à Estação da Lapa, quando um senhor ao seu lado com cara de professor, iniciou a seguinte ladainha pedindo sua atenção.
- Salvador sempre foi sustentável desde os primórdios. Quando de sua implantação no século XVI além de ser viável ajudava a amparar Lisboa, sua mãe, onde morava o rei Dom João III e sua Corte. Ou seja, uma das atribuições das colônias – certamente a mais importante – era enviar recursos para a Corte quer fosse em ouro, prata, pau Brasil, impostos da exportação de açúcar e o que mais fosse.
O buzú deu uma parada próximo ao Mercado de Itapuã e ele parou momentaneamente à sua fala. Depois que o motô arrancou rumo a Sereia, ponto mais adiante, prosseguiu:
- Portugal já naquela época agia como uma multinacional se comporta nos dias atuais como exportador de açúcar e a Corte aplaudia essa ação de sustentabilidade dos baianos... deu um pigarreio ... agora, o termo ganhou uma conotação mais esnobe dos especialistas bufões e anota que para aos centros urbanos como o nosso, exige-se que seja projetado para equilibrar o desenvolvimento econômico, social e ambiental. Isto é: garantir a qualidade de vida dos seus moradores sem esgotar os recursos naturais assegurando um ambiente habitável (agradável) para as gerações presentes e futuras.
O jovem estudante Amadeus não dava uma palavra. Só ouvia com discreto interessa aquela catilinária, mas, até se admirava (no íntimo sem esboçar algum entusiasmo) do palavreado.
Prosseguiu o didático:
- Salvadores, no geral, nunca conseguiu isso, salvo em alguns projetos ou ilhotas isoladas diante da desordem que sempre imperou desde a época colonial até os dias atuais. Exceto a planta original que veio de Portugal e foi implantada pelo mestre-de-obras Luís Dias, a partir de 1560, já no governo Mem de Sá a cidade pulou os muros afora da fortaleza se espalhou sem controle e sem planejamento, ressalve-se, como dito, alguns projetos que foram feitos pelos técnicos em urbanismo. No mais quem fez, quem ordenou, quem traçou as linhas foi a população. E, na atualidade, felizmente, há, teoricamente, a compreensão dos técnicos da “Viúva” de que é necessário priorizar o transporte público de massa, a eficiência energética, a preservação de áreas verdes que ainda existem para tentar satisfazer os teóricos da sapiência e dizer que “Salvadores é uma cidade sustentável”.
Amadeus rompeu o silêncio assim que o buzú passou pelo ponto da Sereia no entroncamento da via oceânica com a Caimmy e se aproximava de Piatã:
- O senhor quer o que? Que o povo fosse morar no mar? A população vai ocupando os espaços em terra onde pode ocupar e faz seus traçados, suas linhas, suas aldeias como os antigos tupinambás e quem quiser que conserte porque não é mais como antes que as autoridades derrubavam as invasões do tempo do vereador Agenor, do vereador Ozório, nada disso, hoje temos as associações de bairros, o MP, os Direitos Humanos da CMS e da Assembleia, e ninguém vai expulsar a gente (se identificou como povo) do lugar que moramos e somos comunidades sustentáveis por que na minha rua da Nova Brasília de Itapuã, subdistrito que tem esse nome glamuroso erguido na inicial graças ao Sêo Abdias e não como a planejada Brasília de JK e Lúcio Costa (mostrou conhecimento) não tem calçamento, não tem esgoto, e as famílias vivem lá em harmonia e se sustentam por esforço próprio.
Respirou fundo e prosseguiu: - Nesse ponto, da falta de assistência do poder público, até poderia concordar com o senhor quando diz pejorativamente que nossa cidade se intitula “Salvadores”. No mais, operamos o que podemos e minha mãe tem um jardim na porta de casa, um cercadinho, repleto de espadas de ogum e margaridas, sendo assim, uma preservadora do meio ambiente mundial quando ela, coitada, se imagina apenas como uma jardineira que deseja embelezar a frente de sua casa.
- É isso, é esse o ponto que queria chegar, uma coisa é isso que o jovem falou e a outra é a propaganda que os governos fazem dizendo que Salvador é sustentável. Quando digo que Salvador para mim é Salvadores falo com conhecimento de causa, sou o andarilho. ando pelas ruas espio com olhar crítico às vezes poético de cronista dos costumes e não se pode dizer que a lapinha dos Pernambués com casas enfileiras em morrinhos, sem saneamento básico, seja sustentável; que o Boiadeiro também seja; que aqui no nosso caminho - na Boca do Rio, paraíso das muriçocas - seja sustentável, falo observando-se o novo ponto de vista sociólogo, antropológico e econômico dos sábios. Agora, o Mané Dendê nas antigas palafitas nasceu como projeto sustentável, já o final de linha da Maçaranduba se sustenta na desordem e os moradores jogam o lixo doméstico no fundo da Baía de Todos os Santos, no mar, e a PMS colocou até uma rede para pegar lixo ao invés de peixes porque lá peixes não há mais embora a situação esteja bem melhor do que quando a santa Dulce dos Pobres, ainda irmã Dulce, ia com sua kombi ajudar os palafiteiros. Então essa narrativa ecológica socioambiental não cola em termos amplos, na amplitude da cidade que é pobre, feia e maltratada.
- O senhor há de compreender que os gestores trabalham para melhorar essa situação nem tudo está perdido, não existe somente merda e esgoto, na Nova Brasília não temos mais muriçocas e mosqueteiro para nós, que na época do meu avô Emiliano era obrigatório ter em casa não temos mais, agora, o povo busca um lugar ao sol, na vizinha Lagoa do Abaeté onde minha mãe ia em ganho familiar lavar roupas e dali tirou muito do nosso sustento, do sustentável à família, está cercada de casario e as fossas são de fundo do quintal minúsculo e a poética da lagoa foi para o espaço, mas isso não é culpa do povo que se multiplica na cama, sem cessar, e quando os meninos e mulheres crescem e viram homens e senhoras querem uma casa para morar. Agora, articular isso com o sustentável acadêmico, o lero-lero modernoso, de harmonia emprego e renda, preservação do meio ambiente, isso não existe, pode ser que na rede Wished de Hotéis como ouvi falar tudo bem, mas, na nossa aldeia o que prevalece é o salve-se quem puder e foi assim com mãe, que era lavadeira e hoje é merendeira numa escola pública, tá encangada no governo; e com pai que era pescador de linha e hoje tem sua banca de peixes no mercado e eu avancei para a faculdade e vou ser fisioterapeuta. Depois, quando me capitalizar buscarei a medicina.
- Você é um exemplo prático de sustentabilidade popular – elogiou o jovem e finalmente se apresentou como sendo o professor de história aposentado Severo Galdino, que fora a Itapuã passear, como era de seu costume sempre às sextas saindo cedo do Rio Vermelho, da Rua Ilhéus, onde mora, para andar pela areia da praia nas ruas Jota e K onde um dia morou nessas proximidades Vinicius de Moraes, saborear um acarajé na Cira, bater um dedo de prosa com o pintor Calazans Neto, e tinha essa mania de prosar com os passageiros dos buzús, e que Amadeus não lhe levasse a mal, houvesse de compreender o seu infortúnio uma vez que isso o distraia, ajudava a passar o tempo e era uma forma de estar vivo, atuante nos debates contemporâneos, uma vez que sua esposa a quem nominou como querida Diva Galdino era mais ligada ao culto luterano e não apreciava essas tertúlias sobre sustentabilidade, ESG, terapias ocupacionais e outros modismos tão em voga, uma catilinária de ismos nas redes sociais que, no seu entender, mexeu muito com a cabeça das pessoas e por lá habitam oráculos e sábios para tudo que querem influenciar ou meter “nas nossas cabeças pontos de vistas que não concordamos” – frisou - e, por isso mesmo, busca o saber do povo, o saber das ruas, como o que estava praticando com o jovem. E assim, agradeceu a sua atenção e estima, uma vez que o buzú acabara de entrar na Avenida Manoel Dias da Silva e estava se aproximando de sua casa.
Amadeus, claro, não teve muito mais coisas a acrescentar ao que já falara entendendo que o que havia dito certamente coube na cabeça do professor Galdino e estava satisfeito que assim fosse. No entanto, teve a gentiliza de enaltecer o professor, o saber que possuía da história e estava grato por isso, não conhecia com detalhes a história de “Salvadores” – acabou falando dessa maneira sobre Salvador, lugar que era seu e amava – e concordou com o mestre de que as redes sociais, de fato, embaralharam a cabeça das pessoas, porém, quem tem vivência como seus país que comeram o pão que o diabo amassou para crescerem aos poucos, construírem sua residência, pagar seus tributos, suar a camisa, não iam no conto da sereia desses influenciadores nem comia reggae de quem quer que seja pois não ganham a vida fácil como dizem os amigos desse Banco Mastérico que se abarrotam de caminhonetes de dinheiro e esnobem a sociedade com viagens a Paris hospedando-se em hotéis que só recebem reis e rainhas da Europa, artistas pops dos Estados Unidos, bebem as melhores champagnes e assim por diante.
- Ah! Paris...Paris... a cidade luz do simbolismo de Baudelaire, do surrealismo de Breton, da Torre Eifel, da Notre Dame, do Louvre e de tantas coisas belas que admiro e tive a oportunidade de contemplar pela TV e estudar e ensinar através do conhecimento livresco para meus alunos do Severino Vieira, e tenho orgulho de ser um severinista de raiz, de escol, mas professor do ensino médio – obtemperou o mestre -nunca têm moedas de prata ou de ouro para conhecer Paris, pessoalmente, e isso era até meu sonho, porém, não é mais por ser inatingível e a gente perde o fulgor o ímpeto de se aventurar e se contenta com a sustentabilidade que se tem, com os livros de Victor Hugo, que adoro.
- Professor – cutucou o mestre Gadinho – pra ser sincero não tenho a mínima vontade de ser um desses “mastéricos”, amigos desse banco corruptor, e quero lhe confessar que apreciei muito sua prosa, educada, criativa, e creio que não dever perder a esperança e diria que também não conheço Paris, nem Roma, nem a cidade mãe nossa a querida Lisboa, mas, se algum dia tiver a oportunidade de ir a esses lugar só irei com sustentabilidade própria e não nas asas de cabides oficiais e dinheiros em cuecas e malas. Por isso mesmo sinto um orgulho imenso pelo senhor que mal o conheço, que a nossa prosa é de hoje, de passageiros de um transporte coletivo e que há de ser repetida noutras oportunidades.
O buzú alcançou a Rua Oswaldo Cruz se aproximando da Mariquita e ao chegar no Largo o professor se despediu de Amadeus e observou: - Quando digo que vivemos em Salvadores, o faço por ironia, pois também amo esta cidade, mas ela é assim – vês apontou para a estátua de Cristovam Colombo instalada no centro da pracinha – o descobridor da América, o grande navegador mundial do século XV, está de costas para o mar, uma heresia.
Despediu-se do estudante no ponto do larguinho, pegou a Pedro Luís e chegou em casa na Rua Ilhéus, em paz consigo mesmo e com o mundo.