Cultura

SEM QUERER PROVOQUEI A CENSURA NA TRIBUNA DA BAHIA, por ANTONIO MATOS

*Antônio Matos, jornalista e delegado de Polícia aposentado, é vice-diretor de Finanças da ABI
Antonio Matos ,  Salvador | 30/04/2026 às 18:18
Antonio Matos
Foto: DIV
  Sem querer, provoquei a censura
Antônio Matos*

Embora não fosse militante político e confesso, por um breve tempo, até acreditasse no milagre econômico brasileiro, tinha conhecidos, colegas e amigos marxistas, alguns filiados ao Partido Comunista e outros integrantes de organizações de esquerda mais radicais, como a Ação Popular (AP), Aliança Libertadora Nacional (ALN) e a Política Operária (Polop).

Como quase todo jovem que viveu no final dos anos 60 e nas décadas de 70 e 80, não aceitava a quebra do regime democrático e a implantação de um governo militar em 1964, mas me limitava a votar – assim que pude – no Movimento Democrático Brasileiro (MDB), um partido de oposição criado, pelo próprio Governo Federal, para dar a impressão de que ainda existia liberdade política.

Como precisei trabalhar muito cedo – e também por não ser de meu perfil – nem tempo tive para participar de manifestações nem de passeatas estudantis. Para não mentir, fui a dois eventos políticos, promovidos por diretórios acadêmicos, em 1966: um à noite, na Residência Universitária, na Vitória, e o outro, pela manhã, no auditório da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia, então situada no Terreiro de Jesus.

No primeiro, lembro-me bem, sai logo após um discurso contundente, apesar de bem humorado, do político e dirigente esportivo Osório Villas-Boas, candidato a deputado estadual pelo MDB e cassado mais tarde pelo Ato Institucional número 5, em 1969. No dia seguinte, soube que, mal deixara o local, o comício fora encerrado por bem armadas guarnições da Polícia Militar.

Recordo que, na segunda manifestação, o destaque era um inflamado aluno do Central, com um pequeno sinal no rosto, de nome Zoroastro Santana, que clamava a ‘união de todos’ para ‘derrubar a ditadura’. Zoró viria, anos depois, a ser meu colega no início das atividades da Tribuna da Bahia, sob a batuta do extraordinário jornalista Quintino de Carvalho.

Esta contextualização ou ‘nariz de cera’, como nós jornalistas costumamos chamar estas não muito aceitas introduções ao texto, é para dizer como a censura me alcançou durante o regime militar ou como eu, sem a menor intenção, só com o propósito de ser repórter, provoquei o regime.

Com 22 anos e editor de Esportes da Tribuna desde a sua inauguração, seguia rigidamente as diretrizes redacionais traçadas pelo jornal, que exigiam textos leves, frases curtas e desprezo aos chavões. Tinha a liberdade – e o estímulo do redator-chefe Quintino – para ser criativo também nos títulos.

Creio que, com o intuito de se blindar das perseguições políticas, que anos antes tinham lhe tirado o mandato de deputado estadual e recomendado a não voltar à presidência do Bahia, o sagaz Osório Villas-Boas indicou, em 1971, o coronel do Exército Aurélio Gonçalves, um gaúcho transferido para Salvador, para assumir a diretoria de futebol do Bahia.

De saída, para mostrar serviço e com livre trânsito no Grêmio e no futebol do sul, trouxe três bons jogadores para antiga ‘Fazendinha’: os gremistas Adílson, meia direita, e Bebeto, o ‘Canhão da Serra’, centroavante, além de Toninho, ponta direita do Guarany, de Bagé.

Destemperado, boquirroto e usando a farda e a patente, numa época que o Exército dava as cartas, atemorizava os juízes de futebol, com entrevistas virulentas após os jogos, onde via, pelo menos, uns três pênaltis não marcados a favor do Bahia.

Cansado de ouvir tanta baboseira, designei o setorista do Bahia, o repórter Wellington Cerqueira - hoje conceituado advogado – para ouvir Aurélio Gonçalves, questionando as polêmicas e absurdas acusações aos árbitros. Matéria pronta, dei-lhe um título quintiniano, bem apimentado, colocando o entrevistado na parede: ‘Isto é verdade, coronel ?’

Imagine isso no início dos anos 70, com o país presidido pelo general Garrastazu Médici, no auge da ditadura militar ? Como a matéria fora assinada, o pobre do Wellington foi intimado (o termo é este mesmo) para se explicar no Quartel-general do Exército, na Mouraria.

Felizmente, não deu em nada e nem eu, como editor de esportes e autor do ousado título, fui chamado para depor. Ficaram, entretanto, registrados o constrangimento e a intimidação.

Em 1974, já delegado de Polícia, plantonista da antiga Delegacia de Furtos, Roubos e Defraudações, localizada na Piedade, mas sem perder o espírito de repórter, conheci um estelionatário custodiado provisoriamente no xadrez daquela unidade policial.

Tido como um preso pouco perigoso, era recrutado para fazer pequenos serviços na delegacia, como ajudar na faxina, lavar viaturas e até veículos dos policiais. Com cerca de 50 anos, branco, forte, bem alto e tagarela como todo bom vigarista, era conhecido como Gaúcho, por causa do estado onde nascera, ou Coroa, em razão da idade.

Num plantão pouco movimentado, comecei a ouvi-lo informalmente sobre seus golpes. Instruído e com forte sotaque de quem é natural do sul do país, falava com entusiasmo e ressaltava que as vítimas, que ‘caiam na sua conversa’, além de ‘metidas a espertas’, eram ‘desonestas e usurárias’.

“Doutor, já vistes alguém vender um bilhete de loteria premiado, que vale 100 mil, por 5 mil cruzeiros ?”, perguntava, demonstrando sabedoria e como quem procurasse justificar os crimes cometidos.

Detalhava o que fazia para convencer as pessoas que procurava envolver. “Tchê, se estava em Minas Gerais, empregava os termos utilizados pelo mineiro da roça, já em São Paulo, era o próprio Mazzaropi (um dos maiores nomes do cinema brasileiro, imortalizado por interpretar o caipira Jeca Tatu), matuto nos trajes e na maneira de falar”, gabava-se.

O delegado, já travestido de jornalista, deu corda ao falante 171, que me revelou mais duas coisas antes de ser chamado para retornar ao xadrez: “dei um golpe tão grande em Goiás, que aluguei um avião bimotor para voltar para ao Rio Grande do Sul. É verdade”, afirmou, diante do meu olhar de incredulidade.

“Tu também não vais acreditar, mas eu fui noivo da Edna Lott – filha do marechal Teixeira Lott – deputada estadual pelo Estado da Guanabara e que morreu há uns três anos, assassinada na casa de veraneio em Lambari, Minas Gerais, enquanto dormia, por um ex-assessor parlamentar”.

Senha dada, pauta definida e título da matéria já pronta: ‘Preso na Bahia ex-noivo da filha de Lott”. Na hora não dei conta do tamanho do vespeiro: Edna Lott, nacionalista de esquerda, defensora da soberania nacional, cassada e sem direitos políticos desde o final de 1969, quando exercia o segundo mandato como deputada estadual pelo MDB da Guanabara, viúva do major Oscar de Moraes Costa e mãe de Nelson Lott, pertencente à Aliança Libertadora Nacional, preso e torturado pelo regime.

Isto sem falar no respeitável marechal Henrique Teixeira Lott, ministro da Guerra (antiga nomenclatura do atual Ministério do Exército) do governo Juscelino Kubitschek, candidato derrotado à presidência da República em 1960 e muito querido pelo Exército. Este tóxico caldo era tudo que as autoridades brasileiras da época gostariam de esquecer.

Acabara de trocar a Tribuna pelo Diário de Notícias, mas ainda muito ligado a TB, conversei com o repórter policial Paulo Tavares, o Bunda Podre, que cobria a Furtos e Roubos para aquele jornal, sobre o meu achado.

Ele comprou a ideia de fazer a matéria e como Gaúcho estava na delegacia mais solto do que preso não foi difícil entrevistá-lo.

Como era de se esperar, o furo de reportagem e, notadamente, o seu conteúdo provocaram muita confusão. Certamente pressionado pela VI Região Militar, o então secretário da Segurança Pública, coronel Joalbo Figueiredo – oficial do Exército procedente do Serviço de Informações – exigiu explicações para o fato de a imprensa ter acesso a um preso, que teoricamente deveria estar encarcerado na delegacia, enquanto ali se encontrasse custodiado. Acho até que rendeu um processo administrativo.

Não lembro, mas creio também que a Tribuna da Bahia tenha sido convocada para dar esclarecimentos. Paulinho Bunda Podre morreu há uns seis anos e, em razão disso, não pode avivar a minha memória.

Meses depois, deixei o plantão da Furtos e Roubos, para assumir uma chefia na recém-criada Delegacia de Tóxicos e Entorpecentes e nunca mais soube de Gaúcho, que, no mínimo, deve ter perdido o privilégio de andar livremente pela delegacia. Além de desagradar o sistema vigente, ele quase dá um Prêmio Esso de Jornalismo à Tribuna.