A Segunda-Feira Gorda da Ribeira era uma comemoração carnavalesca que ocorria na Península de Itapagipe, em Salvador, sempre na primeira segunda-feira após a Lavagem do Bonfim. Isso, em tempos mais recentes, décadas de 1960-1980, por ai. Mas, nem sempre foi assim.
A Ribeira sempre teve uma ligação muito forte com a Lavagem do adro da basílica do Bonfim, pois, na inicial, os aguadeiros (maioria escravos ou alforriados) levavam água e ervas em homenagem a Oxalá para lavar as escadarias e perfumar o interior do templo, acompanhando os romeiros católicos. Daí que essa interrelação entre o povo-de-santo (do candomblé) e seus orixás e os católicos seja bem antiga, sendo Oxála correspondente a Senhor do Bonfim no sincretismo afro-baiano.
Com o passar dos anos ocorreram modificações no trajeto da lavagem (cortejo passou a sair da Basílica de Nossa Senhora da Conceição para o Bonfim). Sobrou para o bairro da Ribeiro, seus devotos católicos e o povo de santo, uma extensão da festa na segunda feira que se chamava “Segunda Gorda” porque além dos festejos em si – batuque, samba, músicas carnavalescas etc – as pessoas se fartaram em comidas gordurosas que o povo chama “comida Pesada”, no sentido de pesar, de encher a barriga.
Feijoada, mocotó, calabresa, churrasco no espeto, cozido algo que davam sustança eram os pratos oferecidos pelas vendedoras em suas tendas e poucos restaurantes. Com a crescente onda de violência na cidade (a Ribeira sempre levou fama e era um bairro de porradeiros) e a eletrização da festa virou algo sem controle com muitas brigas, ferimentos em pessoas e o que classificava de pré-Carnaval de SSA minguou. Praticamente acabou nesse sentido.
Houve, então, uma reinvenção ou uma mudança de identificação desses festejos, criando-se a Segunda Feira do Cozido que alguns chamam de Segunda Gorda do Cozido, com a diferença de que passou a ser toda segunda feira do ano nas quatro estações.
Isso só foi possível porque a Ribeira também se reinventou. Os empresários foram ocupando os casarões na Avenida Beira Mar desde a Penha até o Cais da Baixa do Bonfim e passaram a oferecer moquecas e frutos do mar (em especial), feijoadas, picanhas e cozidos.
Não saberia dizer quem teve a ideia da Segunda do Cozido, comida de origem portuguesa que ganhou ingredientes da culinária afro-baiana, e, hoje, ou de alguns anos, vem sendo servido na Ribeira toda segunda.
Yo, que já sou cliente antigo desse sitio, levei a madame Bião de Jesus nessa bendita segunda de São Gregório VII para saborear o cozido do Restaurante Por do Sol que é geminado com o Katraia e o Estrela da Manhã, de um dono só – o Katraia é um dos mais antigos da Beira Mar – e fizemos a festa.
O servido pelo garçom Dionei foi daqueles benditos gordurosos, robusto, com tudo que se tem direito da culinária lusa e da culinária afro-baiana com carnes magras e gordas, jilós, maxixes, cenoura, folha, calabresa, batata inglesa, abóbora, quiabo, beterraba, banana, pirão do caldo do dito, arroz e pimenta.
É de “matar” no bom sentido ou não é? Tudo isso se saboreia olhando o mar interior da Baía de Todos os Santos que parece uma piscina com borda infinita, bebericando aquela gelada do Pólo Norte – a madame se benzeu três vezes antes da primeira golada dizendo ser pecado capital iniciar os serviços etílicos numa segunda feira – e caímos de boca, como diria o carnavalesco Paulinho Boca, o pirão de tão delicioso praticamente não coloquei arroz evitando destoar do sabor do meu prato.
Não dá pra descrever o prazer que sentimos em palavras porque a madame estava tão encantadora que me perdi na poesia e levei-a à beira mar para fotos produzindo recuerdos da vida.
No interior do Estrela da Manhã apreciei também os quadros do pintor pop M. Bastos cada qual mais belo do que o outro, com cenários da baía, de pescadores, coqueiros, saveiros, uma beleza que aprecio muito.
O cozido é servido na área externa, no calçadão com mesas acomodadas embaixo de toldos em área agradável, ventilada.
Depois, como é de lei, uma esticada até a Soverteria da Ribeira para saborear bolas de tapioca e coco verde e uma caminhada pelo calçadão à beira mar, na contra costa da bucólica Ribeira.
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Restaurante Estrela da Manhã
Avenida Beira Mar, 381
Ribeira – Salvador – Bahia
Cozido R$78,00 para duas pessoas
Cerveja R$18,00
Serviço 10%
Estacionamento na rua
Classificação 3 DONS