Cultura

LITERATURA: ROSA DE LIMA COMENTA UM HINO À VIDA, POR GISÈLE PELICOT

Livro forte que narra o caso de uma senhora estuprada por 53 homens um dos maiores escândalos da atualidade na França
Rosa de Lima ,  Salvador | 25/04/2026 às 10:12
Um Hino à Vida, livro da semana
Foto: BJÁ

  O caso Gisèle Pelicot representa um dos maiores escândalos da França onde, durante quase uma década (2011-2020), essa senhora com filhos e netos foi drogada pelo marido, Dominique Pelicot, com quem aparentemente vivia bem e estuprada por mais de 50 homens enquanto estava inconsciente. Os crimes revelados em 2020, inicialmente pela imprensa, tornaram-se um símbolo na luta contra a violência sexual. As investigações, os depoimentos e o julgamento duraram meses e Gisèle resistiu a tudo e a todos, permitindo inclusive que fosse público (tinha a prerrogativa de ser privado ou só reservado a advogados e réus e mais a Corte com corpo de jurados).

   Dominique foi condenado a 20 anos de prisão e muitos estupradores a penas menores. Gisèle Pelicot juntamente com a romancista, jornalista e ensaista Judith Perrrignon produziu o livro “Um Hino à Vida” (COMPANHIA DAS LETRAS, 1ª Edição 2026, 239 páginas, tradução Julia da Rosa Simões, capa Alceu Chiesorin Nunes, foto da capa Pacal Ito. R$59,00 Amazon.com) best-seller internacional em que ela conta sua trajetória de vida desde Willingen, Alemanha Ocidental, onde nasceu, a família, os traumas que sofreu ao longo dos anos desde jovem, o romance com Dominque, o caso com um amante no decorrer do casamento, o que conseguiu saber sobre os estupros através da Policia, as relações com filhos e netos, o encarrar o caso exposto pela imprensa, enfim, uma luta imensa para se manter em pé, viva, altiva, enfrentando todos os percalços.

   Daí o título do livro em francês “Et la Joie de vivre” (o que significa ao pé da letra a alegria de viver) e que no Brasil recebeu o titulo de “Um Hino à Vida”, o que, no fundo, é até mais compatível, pois, com tantos dramas que atravessou na vida, desde jovem até o casamento e depois dele, teve, de fato, muitas alegrias de viver, porém, saltando obstáculos e sofrimentos, sempre, e acabou se tornando um hino com sentimento de louvor, de devoção.

   E Guisèle a partir do momento em que tomou conhecimento dos estupros não se desesperou a ponto de perder o controle mental e passou a ter esse sentimento de louvar a sua existência, de resistir, de se expor e ser devotada por outras mulheres que também sofreram estupros na Europa, sobretudo na França. O livro, portanto, contém dramas do inicio ao fim e Gisèle foi eleita a personalidade de maior relevância de 2024 em uma pesquisa de opinião na França superando lideres mundiais, e homenageada pela revista Time.

  O que muito se discutiu e ainda se discute é como essa mulher conseguiu sobreviver fisicamente a 10 anos de estupros e depois deles, no momento em que chegaram ao público, à opinião pública e afetou profundamente sua familiar, inclusive provocando fortes conflitos entre filhos e ela, Gisèle consegui atravessar esse rio caudaloso na parte mental, não pirou ou se abateu a ponto de encarar seu drama e da família, e se manteve de forma resoluta, altiva, em todo o desenrolar do processo. Isto é, no acompanhamento das investigações policiais, das prisões e condenações dos seus estupradores.

   É exatamente isso que ela conta no livro através da ensaista Judith Perrigon e a obra se tornou além de um best-seller o seu conteúdo tem servido para contribuir na mudança de conceitos em relação a culpa e a vergonha em casos de abusos sexuais, que têm sido recorrentes na França e outros países da Europa, e mais frequentes na Ásia, sobretudo na Índia, de como romper o silêncio na maioria dos casos.

  Narrado em primeira pessoa, Gisèle teve forças para se restabelecer e encarar o encontro com o inspetor Perret, da Policia francesa, o qual lhe contou o que se passou com ela, em números, dizendo que 53 homens teriam ido à sua casa para lhe estuprar. “Pedi água, minha boca estava paralisada. Uma psicóloga se juntou a nós. Uma jovem. Não preciso dela. Estou longe apesar de estarmos na mesma sala. Tenho certeza da minha felicidade, da nossa felicidade. Quase 50 anos de casamento e ainda vejo com clareza o dia em que nos conhecemos. O sorriso de Dominique, seu olhar tímido. Seu cabelo cacheado até os ombros. Seu suéter listrado. Eu soube que ele iria me amar”.

  É a descrição do primeiro encontro com o inspetor quando foi informada da prisão de Dominique e o que ele teria feito com ela. “Meu cérebro parou de funcionar ali, na sala do inspetor Perret”.

   O livro começa nesse tom e vai se elevando aos poucos, cada vez mais, Gisèle vivendo dois mundos interiores, o amor por Dominique, a construção da família, o nascimento e crescimentos dos filhos e neto, aquele sentimento de permanente felicidade; e, de repente, o choque, um raio eletrizante que caiu em sua vida promovendo uma rutura e que ela foi forçada a acreditar diante dos fatos, dos vídeos, das fotos, das prisões, e passou a viver e a encarar uma nova realidade que, aparentemente,  se assemelhava a uma peça de ficção, porém, era real, a essa altura de conhecimento público.

   - Nossa advogada me avisou que jornalistas a procuravam e que a imprensa estava atrás de nossa história. A identidade das vitimas de agressão sexual era protegida por lei, e por isso ela me perguntou que nome eu gostaria de usar – era uma questão de dias ou semanas até que a primeira matéria saísse. Escolhi Marie. É meu segundo nome e também de minha avó materna, sempre muito ereta em seu vestido preto de luto, a mulher mais forte que já conheci. () No dia 6 de outubro de 2021, a noticia saiu. Uma amiga ligou para avisar. Uma faixa atravessava a capa do “Le Noveau Détective” A pior história jamais revelada. Uma rede de estupradores em Vaucluse. Ele droga a esposa para oferece-la a outros homens”.

   Paralelo a divulgação do fato, em si, os estupros, a Policia dava informações sobre as investigações do caso e no decorrer quase imediato dos informes iniciais cerca de 40 a 45 homens já haviam sido presos. A autora confessa que “seus depoimentos continuavam chegando até mim por meio da advogada, como estranhas verdades, cenas comigo, mas sem mim. Descobri que um deles tinha HIV e que fora a nossa casa várias vezes sem nunca usar preservativos. Por milagre não me contaminou. Também descobri que um dos homens que me estuprou me cumprimentava educadamente na padaria de Mazan, e que já tinha isso a nossa casa comprar rodas de bicicleta que esqueceu de levar, duas vezes inclusive. Agora sei que essas rodas eram só um pretexto, uma ideia de Dominique. O sujeito queria me ver, ver a mercadoria, antes de me estuprar”.

   Diria que Gisèle foi exposta a um drama em conta-gotas e quando ela fala de “estranhas verdades comigo, mas sem mim” significa dizer que aquilo tudo era real, ela era uma espécie de múmia drogada, inconsciente, por isso mesmo não era ela, a integral, a mulher consciente, e sim uma espécie de morta-viva que nada percebia. E esse drama só aumentou ou acrescentou doses de mais pavor na medida em que alguns advogados de defesa dos réus arguiram no julgamento que ela consentia os atos sexuais perversos. E, para perplexidade do corpo de jurados, da imprensa, da opinião pública que acompanhava o caso pela mídia, alguns dos estupradores eram senhores da comunidade amigos do casal. É de estarrecer. Ela depõe no correr do livro: “Aquela mulher entre o sono e a morte não era eu”.

    Não vamos entrar em detalhes sobre os conflitos familiares – mãe, filhos e netos – nem como ela encarou Dominique nas oitivas nem os seus estupradores, senão tiro dos litores esse suspende, nem como no decorrer do processo Gisèle encontra um novo companheiro Jean Loup, um viúvo francês aposentado da aviação, sua relação com a advogada e a mudança na defesa, sua desconfiança com a melhor amiga e um pós bom relacionamento, enfim, a estrada do sofrimento e de como atravessá-la sem perder a necessidade de se manter viva, altiva, enfrentando a tudo e a todos.

   Diria que se trata de um livro forte onde se misturam as lembranças de um passado feliz com o marido, momentos muito difíceis de serem apagadas mesmo diante de tantas atrocidades, final de contas viveram juntos muitos anos lutando pela sobrevivência em empregos variados, tiveram filhos e netos, curtiram e muito o lado bom da vida; e de repente, o inspetor Perret, o corte, a navalha da vida real e ter de enfrentar uma nova realidade já idoso, no caminho do ocaso.

   Gisèle, no entanto, se tornou luz, uma nova trilha de esperança para as mulheres em todo o mundo.

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*** Nota: Dominique Pelicot foi condenado a 20 anos de cadeia pelo Tribunal de Avignon, em 2024; em 2026, a Policia francesa, investiga fatos adicionais envolvendo-o com outros casos de estupros.]

** Gisèle está com 74 anos de idade, aposentada da Cia de Eletricidade da França, se tornou ativista para que a "vergonha mude de lado" e atua como voz defensora dos direitos das mulheres.