Esse conto 10 integra o livro Salvadores que está sendo publicado por capítulos no www.wattpad.com
Tasso Franco , Salvador |
23/04/2026 às 13:34
Yo e Osvaldinho no "Sabor da Gula"
Foto: SERAMOV
10. CACHORRINHOS EM SHOPPINGS
O que mais se fala em dias que correm nesta cidade do Salvador, conhecida também como Salvadores tantos são os seus problemas que desaguam no mar e ninguém resolve, nem há de resolver porque não temos gente capaz para isso, é a modernidade, os direitos humanos, a defesa da mulher.
Agora, diz-me o aposentado Climério Olavo Barreto que existem e prosperam como abelhas os defensores dos direitos dos animais - cães, gatos, baleias, periquitos, micos e seja lá que bicho for - e estão os cães a frequentar os shoppings desde que acompanhados dos donos, que, pela linguagem nova têm que ser chamados de tutores e fazem o que querem e que desejam desde que os acompanhantes levem consigo saquinhos de plásticos casos os totós queiram se aliviar nalgum canto.
E imaginar – segue Climério a comentar comigo no Café do Benedito – que certa ocasião quando ainda tinha pernas para dar voltas no passeio da Avenida Centenário até se interessou por um desses lulus visto que a madame que o conduzia para um trote e fazer suas necessidades adicionais era uma fulgurosa senhora, uma polaca a chamar a atenção por seus dotes pessoais, embora, diga-se de passagem, a cachorrinha que ela conduzia matinalmente ao parque era amável, carinhosa, sacudia o rabinho quando ele dava bom dia a madame e por extensão a lulu, um par perfeito, admiráveis.
Certa ocasião, informações adicionais que me confidenciou, Climério teve a ousadia de lhe perguntar qual raça era aquela e a madame que se chamava Silvana disse ser “cooker spaniel” inglês e ele ficou sem entender nada porque em matéria de conhecer raças de cães era uma nulidade, mas era linda, tinha um pelo marrom escovado, orelhas imensas, cabeça pequena, porte médio e a senhora complementou que aquele tipo de raça já fora muito utilizada nos campos ingleses como animal de caça, de farejar perdizes e faisões e quando esses voavam os britânicos atiravam neles com espingardas de dois canos e logo depois o “cooker” se encarregava de buscar as aves abatidas que eram penduradas pelos pescoços nas cintas dos caçadores. Mas agora serviam como animais de estimação como a dela que era uma filha.
- Creio – disse eu no encontro com Climério - certamente fizeste uma boa amizade quiçá algo mais profundo com essa senhora de excelentes dotes pessoais e imagino, assim penso, tão vistosa e bela sempre bem arrumada também de bons dotes financeiros, pois só aquelas que podem comprar cremes e batons andam tão charmosas e cheirosas.
- Sem, dúvida respondeu-me Climério – e acrescentou a sua fala que se tratava de uma aposentada do Petróleo, endinheirada, solteirona, residente num desses prédios bacanas que tem em volta da Centenário, mas, quando já estava a meio caminho andado, confesso que paquerando-a e já acariciando a lulu em mãos, a danadinha chamada Kika, ela parecendo gostar mais de mim dos que da tutora, elas se mudaram para Aracaju onde vivia a família da distinta, e ela, a madame, disse que não gostaria de viver a velhice sozinha em Salvadores, que seria muito traumática sem alguém para lhe amparar.
- E porque não ofereceste os seus serviços para ampará-la até que a morte os separasse?
- Ora, estava eu pois disposto a ampara-la, mas, quando ela soube que eu era um pé rapado, sem eira nem beira, morador de conjunto habitacional do Parque São Geraldo, me confidenciou que melhor era ficar só vendo o mar de Atalaia ao lado dos seus parentes, do que ter que emparar um quebrado, não no sentido financeiro porque tenho minhas reservas até a passagem e daria para dividir com ela e a lulu, mas no sentido de alquebrado, envergado, já que estou nessa condição - segundo a visão dela - o que confesso é real, em parte, uma vez que vivo estou, pratico acupuntura com frequência e ainda dou no couro.
- É a vida meu caro – repliquei – hás de encontrar uma nova madame com um lulu ainda mais charmoso. Só recomendo que não impliques com os cães nos shoppings, nem nas praias, nem nas academias de ginástica, nos restaurantes e em outros lugares públicos porque são os novos tempos.
- Admito, em parte esses novos tempos de que falas, pois, se essa moda segue adiante vamos ter que conviver com outros bichos de estimação nos shoppings e sabes que existem aqueles que cultuam e criam cobras, outros papagaios, e até os mais exóticos que adotaram porcos, cabras e até vacas como animais de estimação e terapias.
- A propósito, convido-o para um brunch na próxima terça no “Sabor da Gula” no shopping perto de sua casa por minha conta.
- Aceito. Gosto muito das tortas e empadas servidas por lá.
- Quero, no entanto, lembrar ao amigo que certamente não chegaremos a praticar o “cow cuddling” (abraço na vaca) num shopping, que é uma prática de bem-estar com bovinos calmos para reduzir o estresse, a ansiedade e a pressão arterial.
- Precioso confrade, não duvide de que essa prática originária da Holanda chegue aos shoppings de Salvadores, pois, se escova-se e carrega-se cães como filhos e filhas, deitar-se junto a uma vaca os adeptos dirão que se trata de um relaxamento profundo com a liberação de ocitocina e nos shoppings há praças com espaços para isso.
- Não exagere meu nobre isso é coisa para o campo para a Fazenda das 7 Mulheres e para pessoas que estão comprando fazendas com dinheiros das maracutais neste Pindorama sem jeito.
***
Dias depois, como combinado, nos sentamos a hora do angelus no “Sabor da Gula” e observei que Climério Osvaldo, gosto de chama-lo na intimidade de Osvaldinho, estava nos trinques com calça branca com vinco bem passado, mocassim preto, camisa de seda estampada e boné estilo Casa Azevedo Rua, de Lisboa, na cabeça. Saudei-o com euforia e um forte abraço, furto da nossa velha amizade, mas, um abraço não tão forte como os de Clarindo Silva, estilo quebra costela.
- Estás mais elegante do que o Cristiano Ronaldo ou o Mário Soares quando era jovem e usava essas belas boinas portuguesas.
- Não chego a tanto meu nobre, no máximo ao Manoel Arcoverde do Açougue da Baixa Pombalina ou ao motorneiro Joaquim dos Anjos dos bondes da Alfama.
Uma garçonete se apresentou com uma tabuleta na lapela indicando se chamar Rita e perguntando o que gostaríamos de lanchar. Solicitamos duas empadas de frango, uma delas, simples, a outra com catupiri; e um fatia de torta de chocolate africano e mais dois cafés médios estilo capuccino.
Em instantes a donzela nos serviu e ficamos a papear, a trocar ideias sobres os novos tempos, mas já tínhamos superado a conversa sobre cães e vacas nos shopping para ajudar a conter o estresse e falávamos da viagem dos astronautas da Artemis II ao redor da lua e Osvaldinho estava admirado com a façanha e perguntava-me quando o nosso astronauta Marcos Pontes faria uma expedição dessa, quiçá partindo da base do Rio Grande do Norte com outros patrícios e até alguém da Bahia, como o denodado astrofísico Orricon.
- Ora, meu prezado Osvaldinho, temos outras demandas, Pontes hoje é senador da República, o nosso Observatório Astronômico da UFBA é noviço, nossa engenharia cuida de implantar uma ponte gigantesca entre Salvadores e a ilha que já estão há mais de dez anos em estudos, prospectos, análises, porque cuidamos prioritariamente da nossa base, do povo, das bolsas, das Upas e Upas, construindo pontes populares e ensinando o povo a pescar.
- Vosmincê está parecendo políticos que ficam embromando o povo com essa conversa mole de trabalhos sociais, de bolsas, de um monte de penduricalhos, de guarda-chuvas para os carentes e o povo está a cada mais pobre, se fodendo.
A conversa estava animadíssima e eu já ia entabular uma réplica, quando vejo que o lulu de alguma madame se soltara da coleira, se aproximava da nossa messa e antes que eu fizesse qualquer carrinho em sua direção, Osvaldinho de costas, o lulu ancorou na bainha de sua calça e sapecou uma mijada nos vincos do linho branco e do mocassim.
Quando sentiu aquele ardor quente o homem levantou-se brabo, atiçou a empada que estava em mãos no lulu que saiu correndo pelo corredor do shopping e ele atrás, dando bicudas na tentativa de alcançar o traseiro do animal, quando escorregou e picou a bunda no chão e logo apareceu a madame tutora abraçada ao lulu lhe pedindo mil desculpas pelo ocorrido.
Dizia ela, quase em prantos, que seu cãozinho era muito educado, nobre, imperial, e eu levantei-me para socorrer o meu amigo e esse gemia pois tinha batido no piso encerado o lado do quadril dolorido e foi um inferno.
Mas, nada que não se resolva, pois a madame era bela, cheirosa, elegante em panos finos, sedas no pescoço e o lesionado - eu o aparando - disse que deixaria o ocorrido para lá e que o momento em tela era de consertar o quadril.
A senhora muito delicada, com cara de rica, deu-me o zap enquanto eu e um segurança do shopping chamávamos a ambulância do Savu para levá-lo a uma clínica reparadora de quadril.
E, assim, meus abnegados leitores foi feito, o doutor colocou o quadril do lesionado no local passou uma atadura em volta do órgão e recomendou descanso de 15 dias para ficar bom e voltar a ativa.
Claro que Osvaldinho ficou interessado em conhecer a dona do lulu e eu disse a ele que ela já havia me ligado e dado todas as suas referências, e que “se tiver alguma despesa com aquele senhor acidentado pagaria e até mesmo necessária ajuda complementar daria numa boa” e eu disse que o amigo não precisava.
Quero, portanto, lhe dizer que não se assanhe para o lado da distinta senhora, pois, pelo que percebi é mulher de muitos voos em primeira classe, até na Ásia já esteve, já experimentou os melhores patos Pequim, não no Tong Fong e sim no Jiaomen Xuan e no Wan Li, da capital chinesa, ao vivo; e já degustou ceviches no Central de Lima, então, com mulher desse naipe o melhor é desistir.
- Ora, meu acadêmico escritor, o amor não tem limites, de repente, essa senhora viajada que vós falastes se enamora deste humilde servo de Pindorama, espada da melhor qualidade, varonil.
- Onde você já viu isso? Só mesmo nos romances de Eça de Queiroz ou de Tchekhov, mas, na vida real meu admirável colecionar de selos, rico só se enamora de rica, em lancha de milionário só entra milionários e milionárias, salvo o marinheiro e o garçom, pobre só come o pato laqueado de Dong com pele crocante sapecada no Beco das Flores da Av. Sete, então, tire seu cavalinho da chuva e voltemos as nossas empadas no “Sabor da Gula”.
E, assim, retornamos as empadinhas e as fatias de tortas do quiosque do shopping, Osvaldinho, a essa altura mais precavido contra possíveis mijadas de cães sentado com os olhos virados para o corredor e com olhares amoroso para Rita, a garçonete, e a atendente a esnobava chamando- de “meu querido lenhado”.
O pobre coitado continuou indo ao “Sabor da Gula” com frequência na esperança de rever aquela madame, porém, nos últimos tempos por lá só passaram uma hippe com cabelos no sovaco e um cão estilo sujismundo, pelo hirsuto; a dona da “Meia Moderna” que vai ao banheiro e leva sempre consigo seu lulu protegido com meinhas nas patas; um funcionário do SACT que trabalha com seu cãozinho ao lado; e a viúva de Sêo Dantas, sua vizinha no Parque São Geraldo, educadíssima, porém, pobre, a cuja, adora passear no shopping e gaba-se que faz cooper na melhor pista de Salvadores com seu lulu, a qual, se chama lalá.
Osvaldiinho vive inconsolável.