Nara Franco é jornalista
NaraFranco , BSB |
22/04/2026 às 09:09
Cavalhada de Pirenópolis
Foto: wikimedia commons
Desde que me mudei para Brasília, a pergunta é quase automática — especialmente vinda de quem não conhece a cidade e nem seu entorno: mas o que fazer em Brasília? Respondo sem muita cerimônia: muita coisa e não escondo a boa surpresa ao descobrir em pouco tempo de moradia por lá que a capital vai muito além da sua famosa e reconhecida arquitetura.
O que fazer em Brasília se revela aos poucos, porque, afinal, é preciso dinheiro e tempo — recursos cada vez mais escassos na vida moderna. Ainda assim, não é da filosofia da contemporaneidade que trato aqui. Esta é uma crônica de descoberta, ou melhor, do primeiro grande espanto (positivo) da minha vida candanga: Pirenópolis.
Mais exatamente, escrevo sobre a Cavalhada de Pirenópolis, tradição que atravessa séculos, herança luso-brasileira alimentada por guerras medievais, fé cristã, teatro popular e uma boa dose de imaginação. Não conheci Piri — como a cidade é chamada com intimidade — durante a festa, o que já me oferece um novo pretexto para voltar. Confesso que: na minha ignorância diante da vastidão da cultura brasileira, fui surpreendida pela dimensão do evento. Nós, sudestinos — e falo com a autoridade de quem viveu no Rio de Janeiro dos 5 aos 52 anos — carregamos uma arrogância silenciosa, essa convicção mal disfarçada de que o Brasil se esgota no eixo Rio–São Paulo, embora alguma parte do inconsciente saiba que o mundo é bem maior.
O mascarado
Ao chegar à cidade, algo parecia me observar de todos os cantos. Estava nas camisas, nas canecas, nos souvenires: um palhaço colorido, chifrudo, quase insolente. Quem era aquela figura? Pergunta daqui, pergunta dali, descobri que se trata do Mascarado ou Cururucús — símbolo maior de Pirenópolis e personagem central da Festa do Divino Espírito Santo. É ali que começa o verdadeiro mergulho ao passado que não apenas explica a cidade, mas a torna ainda mais fascinante.
Os Mascarados — conhecidos localmente como Curucucús ou Mascarados do Divino, salvo melhor correção dos leitores — são figuras centrais da festa. Usam máscaras de papel-machê, produzidas artesanalmente há gerações e hoje espalhadas por lojas, ateliês e restaurantes da cidade. Há mais de duzentos anos, esses personagens animam as Cavalhadas e a Festa do Divino, encarnando o riso, o deboche e a crítica social. Enquanto os cavaleiros representam a nobreza, os mascarados representam o povo.
Entre trilhas, cachoeiras, o sol do cerrado e uma gastronomia generosa, Pirenópolis abriga uma das mais importantes Festas do Divino do país. A celebração, trazida de Portugal, chegou ao Brasil no período colonial e aqui ganhou contornos próprios ou como se diz, foi abrasileirada. A celebração fala de um tempo utópico do chamado Império do Divino.
O caldo da Cavalhada
Desse caldo luso-brasileiro nasceu a Cavalhada. E aqui faço um parênteses honesto: história com mais de duzentos anos não é matéria jornalística e ouvir todas as versões é tarefa impossível. Sendo eu apenas cronista, peço desde já perdão aos historiadores por eventuais heresias.
Reza a lenda — e a tradição — que tudo começou no fim do século VIII, durante o reinado de Carlos Magno (742–814), o unificador do Império Franco e defensor da cristandade ocidental. Conta-se que, ao enfrentar os sarracenos e se afastar da França, Carlos Magno deixou seu território vulnerável, confiando a retaguarda ao sobrinho, o Conde Rolando, comandante dos Doze Pares de França.
A primeira reviravolta da trama aconteceu em Em 778, na emboscada de Roncesvales, quando Rolando caiu em combate. A derrota, porém, virou poesia cantada e exagerada — no melhor estilo samba-enredo medieval. Nasce daí A Canção de Rolando, um dos grandes poemas épicos da Idade Média.
Enquanto isso — e aqui a história e o mito caminham lado a lado — os mouros avançavam pela Península Ibérica. Vindos do Norte da África, muçulmanos árabes e berberes conquistaram vastos territórios a partir de 711, deixando marcas na ciência, arquitetura, agricultura e cultura. Por quase oito séculos, cristãos e muçulmanos dividiram o mesmo chão, entre guerras e trocas. Quando os reinos cristãos do norte reagiram, a chamada Reconquista ganhou contornos mais épicos, porque naquela época o povo era bem exagerado.
Séculos depois, em Portugal, essa narrativa virou teatro. Doze cristãos contra doze mouros. Azul contra vermelho. Poente contra nascente. A história era tão boa que atravessou o oceano rumo ao Brasil com autorização da Coroa, uma ótima peça de marketing e propaganda cristã, amplamente difundida por padres e usada para catequizar indígenas e escravizados.
A chegada em Piri
Introduzida na cidade em 1826, a Cavalhada fincou raízes profundas naquele pedaço do Goiás. Talvez porque os primeiros moradores trouxessem na memória a resistência do norte de Portugal. Talvez porque a hierarquia rígida do ritual agradasse a uma sociedade acostumada a distinguir lugares e papéis. Ou talvez — e isso me parece o mais honesto — porque é bonita, diferente, com um irresistível ar medieval. O ser humano precisa de festa para esquecer os problemas, já diziam os Titãs e nada melhor que juntar a fome com a vontade de comer para criar uma das datas mais simbólicas e divertidas do calendário goiano.
Durante três dias, Pirenópolis acorda antes do sol. A Banda de Couros percorre as ruas anunciando que a história vai começar outra vez. Os cavaleiros se reúnem e obedecem à ordem imutável: Rei, Embaixador e Soldados. Eles comem juntos a Farofa, rezam, dançam, agradecem. Cristãos e mouros não se cruzam fora do tempo permitido — a guerra exige protocolo. Só Donald Trump parece não saber disso.
No domingo, tudo se revela. As roupas já não lembram fardas, mas fantasias de um carnaval medieval: plumas, pedras, mantos bordados, elmos dourados e prateados. Os cavalos também entram em cena como personagens. E então surgem eles: os Mascarados, coloridos e debochados. Não obedecem à lógica da guerra nem à disciplina dos exércitos. Representam o povo, o excesso, a crítica, o riso. Circulam entre cristãos e mouros como quem lembra que nenhuma história é completa sem o caos.
Pesquisando todo esse enredo, compreendi que a Cavalhada não fala apenas de cristãos e muçulmanos. Fala da nossa necessidade de repetir histórias, de encenar conflitos antigos para dar sentido ao presente (jurei que não ia filosofar). Talvez seja por isso que, em Pirenópolis, o passado não descansa: ele veste máscara, monta a cavalo e atravessa a cidade em galope.
Como e quando ir
A Festa do Divino Espírito Santo é móvel e acontece, em geral, entre maio e junho, seguindo o calendário de Pentecostes. As Cavalhadas ocorrem sempre no domingo, segunda e terça-feira que sucedem o Domingo do Divino. Pirenópolis fica a cerca de 150 quilômetros de Brasília, trajeto que leva em média duas horas de carro, por estrada asfaltada e bem sinalizada.
Quanto à hospedagem, a cidade oferece opções para todos os gostos — de pousadas históricas no centro, ideais para quem quer fazer tudo a pé, a casas e chalés mais afastados, para quem prefere silêncio e vista para o cerrado. Em períodos de festa, o aviso é simples e sincero: reserve com antecedência. Pirenópolis lota, e com razão.
Vale também chegar um dia antes das Cavalhadas. Assim, dá tempo de caminhar pelas ruas de pedra, visitar cachoeiras, experimentar a comida local e perceber que a cidade já começa a mudar de ritmo antes mesmo do primeiro toque da Banda de Couros. Quando a festa chega, Pirenópolis não apenas recebe o passado — ela o encena.