Cultura

SALVADORES, CONTO 8: SALVADOR CAPITAL DA BAHIA E NÃO DA ÁFRICA (TF)

A capital baiana tem sua própria identidade e não precisa de uma muleta para se sustentar
Tasso Franco , Salvador | 29/03/2026 às 09:47
Salvador e sua identidade própria
Foto: Seramov

  Em sala de aula o professor Vicente Tanajura, titular da cadeira de Sociologia da Faculdade de Filosofia da Universidade Salvadores dizia aos seus alunos no curso de História que a cidade do Salvador estava perdendo a sua identidade original, a própria, para adotar uma alienígena com a difusão oficial de ser “Salvador Capital Afro” quando a África é um Continente com múltiplas identidades, várias línguas são usadas por lá, majoritariamente, que não são as nossas, especialmente o inglês e o francês.

  Portanto carimbando a cidade com algo que não condiz com a sua história de ser, isto sim, “Salvador Capital da Bahia”, entendendo-se que Bahia é originário de Baía=Golfo ou Baía de Todos os Santos, na linguagem dos Tupinambás, povos que habitaram áreas no seu entorno nos territórios hoje, de Salvador, Itaparica e Lauro de Freitas, “Kirimurê”.

  - Então – assegurava o mestre – não existe “Luanda Capital Brasis” nem tampouco “Nairobi capital de Kirimurê” essas cidades têm suas identidades próprias e correto é se dizer e se vender no marketing político e de negócios “Salvador Capital da Bahia” e se quiserem algo mais glamuroso “Salvador Capital de Kirimurê” e não “Capital Afro”.

  A propósito – pausou o professor Tanajura bebendo um pouco d’água – o afro muçulmano do Egito; o afro africâner da Namíbia e da África do Sul; o afro Igbo do Sudeste da Nigéria; os afros Haussá, Iorubá e inglês de outras áreas da Nigéria; o afro uolofe do Senegal. Que afro? Duvido que esses propagandistas do governo saibam que afro é esse.

  Imagino que englobam tudo no que se traduz como ancestralidade uma raiz que vem da época da escravidão, justa referência, porém, inadequada para ser o axioma geral, os pilares, porque somos um povo misto de tupinambás, europeus e negros, mais recentemente incorporamos uma parcela de asiáticos e o que traduz o “totum” expressão latina que significa a totalidade - a essência - é “Salvador Capital da Bahia”.

  E temos marcas e produtos que configuram o que falo. A baiana tropicalista é uma delas, provavelmente, a mais expressiva. E não encontramos esse tipo que é especial da Bahia Kirimurê no Marrocos ou na Tanzânia; nem em Lisboa nossa terra mãe e nem havia baianas com seus balangandãs e saias rendadas entre as tupinambás na aldeia de Iperu, no atual São Bento.

   E essa é uma marca tão nossa, tão enraizada em nossa cultura que ganhou estilos e adereços os mais lindos nos desfiles das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Santa Catarina, de Minas Gerais e se alguém perguntar em Florianópolis vendo uma delas desfilando ou um grupo delas vai dizer na ponta da língua que é uma baiana, que são baianas.

   E, por analogia, baiana vem de Bahia e lembra imediato a capital da Bahia que é Salvador embora também haja baianas em Ilhéus, em Porto Seguro, em Morro de São Paulo, em toda franja litorânea de 1000 km do território da Bahia, mas também há baianas no Sertão do São Francisco, baianas na Chapada Diamantina e assim por diante em quase todo estado da Bahia.

  Então estou convicto que é o símbolo da Bahia e que remete imediatamente a Salvador, por isso mesmo, Salvador é a capital da Bahia e não Capital Afro, isso é reducionista, subdesenvolvimentista.

  A dança, a música, o gingado e a força estão presentes noutro emblema da capital da Bahia que é a capoeira. Vá ao Cairo e veja se há capoeiristas na Praça Tahrir Midan al-Tahrir), conhecida como "Praça da Libertação", no centro da cidade e marco histórico, político e cultural do Egito, famosa por ser o epicentro de grandes eventos populares; ou na Nelson Mandela Square no bairro de Sandton, Joannesburgo, ponto turístico icônico, famoso pela estátua de bronze de 6 metros de altura de Mandela, além de concentrar diversos restaurantes, cafés, hotéis e o shopping Sandton City, e veja se você encontra alguém jogando capoeira, uma roda de capoeiristas. Não vai encontrar.

  Mas se fores ao Terreiro de Jesus no centro histórico de Salvador, no Santo Antônio Além Carmo, no Mercado Modelo da Cidade Baixa vai encontrar várias rodas de capoeiristas.

  Isso também pode ser visto na Praça do Comércio, em Lisboa; ou na Place de La Concórdia, em Paris; ou numa cidade qualquer dos Estados Unidos ou do Japão e verás que há baianos na roda, há baianos que levaram a capoeira regional do mestre Bimba para a Europa. Esses são símbolos autênticos da capital da Bahia, que remetem a Salvador, que é a “Capital da Bahia”.

   A aluna Cecília Fontes levantou o dedinho pedindo uma explicação ao professor Tanajura e este a concedeu. Assim ela falou: - Ora, digníssimo mestre, a baiana é a representação da negra baiana do acarajé, das rodas do culto ao candomblé e dos batuques e rodas de samba dos terreiros das casas e áreas ondem vivam os negros e a capoeira é a dança e a arte da luta dos negros contra o colonialismo português, portanto, o sentido de “Salvador Capital Afro” tem raiz, tem resilência.

  - Sem dúvida, minha jovem e astuta aluna, mas Salvador é muito mais do que isso e tem sua identidade própria alicerçada num conjunto de seres em que se misturaram as culturas tupinambá, europeia e africana formando uma miscigenação em que a essência, a flor de manacá é a Bahia e veja quem foi a baiana mais famosa e divulgou a imagem da Bahia, foi a Maria do Carmo Miranda da Cunha, que era portuguesa de nascença e levou a nossa imagem para o mundo ocidental através dos EUA, onde faleceu. E quantos filmes e histórias interpretou vestida de baiana, uma baiana estilizada tropicalistas com frutas nos seus adereços da cabeça, seus turbantes.

   A Gal Costa foi a baiana da Bahia na voz na interpretação de suas canções, na amplitude da imagem de “Salvador da Bahia” que assim seja e se divulgue dessa maneira. A Bahia tem seu axé próprio, sua identidade própria que, em Salvador, ao longo dos seus 477 anos foi sendo criada, alicerçada, nas instituições, nas ruas, nas suas lutas, na sua história e não necessita de muletas para se sustentar com absoluta soberania.

   A aula terminou dessa maneira...o professor deixou o prédio da faculdade no bairro de Nazaré, era um dia de quarta-feira gorda do futebol e a Fonte Nova se embandeirava com as bandeiras tricolores do Bahia que enfrentaria o Vasco, e se dirigiu ao larguinho em frente a Academia de Letras da Bahia para pegar seu fusca, quando um grupo de torcedores do Bahia que partira da Ladeira do Alvo, atravessara a Saúde e chegara a Joana Angélica, se dirigia à Fonte em algazarra alegre, portando bandeiras e pandeiros, gritando a pulmões cheios de ar “é Bahêa minha porra, hoje vamos brocar” e repetia a frase em gritos agudos ao som de pandeiros e atabaques.

  O professor parou na porta do fusca e ficou a astuciar, a meditar, a admirar, e a dizer para si, aos botões, que estava ali aos seus olhos a imagem da aula que dera afirmando ser “Salvador Capital da Bahia”, a aula prática, a real Bahia com sua identidade própria que não é a do Cairo nem de Lisboa, muito menos de Camarões ou Moçambique.

  A turba se incorporou a massa humana, a Nação Bahêa, na Fonte, milhares de baianos com suas identidades próprias nas arquibancadas do estádio.

  Tanajura entrou no fusca, atravessou trecho da Joana Angélica, desceu o Desterro, subiu a Independência, cortou o atalho pela Rua da Mangueira e chegou a sua casa, no bairro da Mouraria onde estacionou seu veículo na garagem e o esperava sua amada Florinda.

  Estava de alma lavada, convicto de que dera uma significativa aula de cidadania baiana.