Cultura

LITERATURA: ROSA DE LIMA COMENTA A MÁQUINA DO CAOS, DE MAX FISHER

Um livro alerta sobre as redes sociais e as mensagens de ódio e como as big techs querem reprogramar nossas mentes
Rosa de Lima , Salvador | 21/03/2026 às 10:00
A Máquina do Caos, de Max Fisher
Foto: BJÁ

  A pergunta que estamos a nos fazer é qual o impacto que as redes sociais da internet estão provocando nas sociedades? A resposta é: são muitos e alguns deles devastadores; outros, nem tanto. O alerta, no entanto, tem sido permanente sobretudo em relação aos comportamentos extremistas e a disseminação de notícias falsas.

   O jornalista Max Fisher, do New York Times, finalista do Pulitzer, em 2019, com reportagem sobre esse tema escreveu o livro “A Máquina do Caos – como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo (TODAVIA Editora, 540 páginas, tradução Erico Assis, SP, capa Daniel Trench, ilustração da capa SEB Agresti, 2023, R$55,00 nos portais) em que disseca a história e funcionamento das grandes empresas de tecnologia e o impacto social em nossas vidas.

   Em resumo, o autor mostra com dados, com análises, com exemplos, como as sociedades de uma maneira geral estão à mercê de forças que empurram as pessoas (e governos) ao encontro dos seus interesses, ora enfiando goela abaixo procedimentos e coisas de consumo que, necessariamente, você não precisa e ditando teses políticas e sociais que consideram politicamente corretas, porém, nem são corretas; nem aquelas que você gostaria de adotar. 

  E quando se contesta, se confronta, você é taxado de reacionário, fascista e outras bobagens maiores, porém, que machucam as pessoas, distorcem suas ideias e lançam carimbos que, de fato, não possuem. É aquela história: o estrago foi feito e f...

  Fisher produz um histórico revelando que a alvorada das mídias sociais data de setembro de 2006 quando os operadores de um site criado dentro de um alojamento universitário, o Facebook.com, fizeram uma descoberta acidental enquanto tentavam resolver um problema comercial. E que descoberta foi essa? O feed de notícias personalizado. Ideia do jovem Mark Zuckerberg. A chave permitia que os amigos vissem o que você estava fazendo e vice-versa, isso em grande escala (internacional), sem fronteiras, pela web. 
 Brotaram grupos contrários ao feed e o efeito foi bumerangue. O engajamento com o Facebook explodiu e em 15 meses, e no final de 2007 a empresa já valia 15 bilhões de dólares. O engajamento com as redes sociais pulou de 2% em uma década para 2/3 da população norte americana. Em 2016, quase 70% dos norte-americanos usavam a plataforma (200 milhões de pessoas usando em média, cada uma delas, 50 minutos por dia).

  Hoje, já se sabe qual o efeito disso na sociedade mundial porque o Facebook não tem fronteiras. Num exemplo mais raso, sem dados numéricos, é só verificar o que acontece no Brasil, nos dias atuais, em relação ao uso dessa plataforma e os efeitos que produz. E, claro, o rastilho de pólvora não parou por aí porque existem outras plataformas, sobretudo o Instagram, Twitter, YouTube, Tik Tok, etc, que ampliaram os alcances das redes sociais com novas inovações e interações. 

  Hoje, em instantes, no Brasil ou em qualquer parte do planeta onde haja democracia se sabe o que se passa quase em tempo real da vida de pessoas (celebridades, em especial), governos, instituições e outros. Tudo isso sem controle com milhões (bilhões) de pessoas opinando e tentando impor pontos de vistas que consideram os mais corretos. Mas, não são. E as “fake-news” (noticias falsas) campeiam e muitas vezes prevalecem provocando estragos enormes em pessoas, famílias, instituições e governos.

  No capítulo intitulado “Os sinos da igreja” Fisher narra a tragédia que aconteceu em Mianmar e cita Gema Santamaria, pesquisadora de vigilantismo e violência, no México, tentando entender esse fenômeno quando ela cunhou a expressão “as mídias sociais desempenham o papel que os sinos das igrejas já tiveram no passado. () É assim que as pessoas sabem que vai acontecer um linchamento, uma violência coletiva”.
  Na transição de Mianmar para a democracia, em 2013, quando o general Thei Sein assumiu o poder iniciou algumas reformas no país, soltou presos políticos e o uso da internet saltou de 0.5% para 40% (entre 2012-2015). No período em que o presidente dos EUA, Barack Obama, visitou este país, um nome aparecia com frequência – Wirathu - monge budista que havia passado a última década preso por seus sermões carregados de ódio e acabara de ser solto graças a um pacote de anistia geral. 

   Ele então usou o Facebook e o YouTube – ao invés de viajar pelo interior do país – para fazer suas pregações odiosas, onde a empresa (Face) tinha apenas um moderador.  Wirathu postou uma mensagem falsa (fake-news) dando conta de que, na cidade de Mandalay um muçulmano tinha estuprado uma budista. Dava nome dos homens e o endereço da loja. A mensagem viralizou e dominou os feed do país. Centenas de budistas em Mandalay se revoltaram e depredaram lojas muçulmanas e correu um rio de sangue. 

  O Facebook foi alertado do problema por uma pesquisadora de Stanford, Aela Callan, e a empresa disse que iria melhorar alguma coisa, mas, nada de perceptível acontceu. Quando a situação se dramatizou o governo decidiu bloquear o Facebook e as revoltas arrefeceram.

  Mas, no Oeste do país onde viviam os rohingyas – grupo étnico muçulman , originário do estado do Rakhine sofreu perseguição severa com estupramentos, assassinatos e as tropas do governo os matavam como ratos. “Os rohingyas padeceram. Em 2015 – diz o autor – milhares tentaram fugir, falando em ´perseguição crescente tanto de vizinhos quanto de soldados”.

  Segundo o autor, até funcionários do governo de Mianmar avisaram que o discurso do ódio guiado pelo Facebook podia minar a estabilidade do país, conforme extremistas ganhavam público inédito e imenso da internet. Em 2015, Wirathu – o monge que havia sido apelidado de Bin Laden birmanês tinha 117 mil seguidores, quantidade muito grande para Mianmar - e um político nacionalista da mesma linha Nay Myo Wai, rodava relatos populares com a seguinte mensagem sobre os rohingyas: “Irei ser curto e grosso: primeiro atirem e matem. Segundo, atirem e matem. Terceiro, atirem e enterrem”.

   “Nunca houve ferramenta mais potente para a disseminação do discurso de ódio e para a peçonha racial-nacionalista do que o Facebook e outras mídias sociais”, escreveu Ashley Kinseth, ativista de direitos humanos de Mianmar, durante a matança. 

  A crença de que os benefícios que o Facebook propiciava a Mianmar , naquele momento, superavam seus malefícios r é algo difícil de entender. A companhia não tinha sede no país para avaliar seu impacto. Poucos funcionários seus já havia estado lá.  Tudo funcionava on-line.

 Um repórter chamado Max Read postou no Twitter uma pergunta a Adam Mosseti, o executivo que supervisionava o feed de notícias do Facebook. Escreveu: “Pergunta sincera que mal faria desligar Mianmar. Mosseti respondeu: o Facebook fez um grande bem a Mianma – conecta pessoas a amigos e familiares, ajuda pequenas empresas, traz conteúdo informativo à tona. Se desligarmos perdemos tudo isso”.

  -Quando cheguei a Mianmar – diz Fisher, então enviado pelo NYT – os soldados já estavam jogando bebês nas fogueiras. Fazia semanas que as Forças Armadas vinham travando uma guerra fora do controle nos vilarejos com telhadinhos de sapê que pontilhavam a província a extremo oeste do país. () Atacavam uma comunidade de 1.5 milhão de fazendeiros e pescadores muçulmanos que se denominavam rohingias. 

  Fisher narra outros casos e fatos que aconteceram no mundo, como o que se deu no Sri Lanka, onde uma briga no trânsito, boatos espalhados pela internet davam conta que seria uma conspiração muçulmana para dizimar os cingaleses, a maioria étnica do país. Um incidente bobo em Ampara – cidade pequena – num restaurante muçulmano dos irmãos Atham-Lebbe, em 2018, um freguês começou a berrar em cinegalês que havia encontrado algo no seu curry.   Um boato no Facebook viralizou que naquele restaurante haviam encontrado 23 mil comprimidos de esterilização masculina que eram usados na comida.

 O irmão que cuidava do caixa Farsith pressionado e espancado pela turba budista disse que não sabia de nada. Mas, a mensagem que se divulgou pelo Facebook foi num cinegalês truncado “nós põe”.
   
  Essa mensagem foi compartilhada (Farsith: sim, nós põe” e seguidores do grande grupo budista Central de Informações publicaram videos islamofóbicos, etc, e o massacre se seu graça ao pacote tarifa zero do Facebook. 

  O objetivo do Facebook que era (e é) de fornecer uma infraestrutura social de uma uma nova era que alcançaria além de cidades e nações uma comunidade global , em tese, para espalha prosperidade e liberdade, promover a paz e o entendimento, de fato, muito disso aconteceu (e acontece) porém, tem o outro lado da moeda, uma abertura mais ampla para disseminar o ódio, e os casos de Mianmar e do Sri Lanka são exemplo e se multiplicaram pelo mundo.

  O livro está repleto de exemplos: fala do Gamergat, que aconteceu nos EUA, em 2014, do surgimento e evolução das redes sociais e das mega empresas de tecnologia que comandam esse processo, das disputas e da corrida entre eles, das eleições de Donald Trump, da ascensão de Jair Bolsonaro, caso COVID, etc, enfim, um livro alerta, bem documentado e produzido em 2022, quando a Inteligência Artificial estava em início do sua atuação prática.

  Hoje, creio, Fisher não mudaria nada do que escreveu em “A Máquina do Caos” porque os exemplos da história não se modificam, o que passou-passou e foi uma realidade daqueles momentos, porém, numa continuidade sobre o mesmo tema já tem muita coisa a acrescentar, pois houve uma evolução da “Machine learning” – um subcampo da inteligência artificial que está permitindo aos computadores tomar decisões autônomas. E, claro, por detrás dessas estruturas estão as “Big Techs” e os mans.