Há livros sublimes? Creio que sim. Um autor quando encanta os leitores com o gotejar poético de sua pena torna isso de uma perfeição extrema que desperta admiração. Penso assim. Creio que o jornalista italiano Dino Buzzati 1906/1972 pode (e deve) ser classificado dessa maneira no trabalho de suas obras literárias. Buzatti integrou a redação do Corriere Dela Sera, Milão, por muitos anos e faleceu em 1972 vítima de câncer.
Sua obra prima, creio, é o livro “Deserto dos Tártaros” (EDITORA NOVA FRONTEIRA, 8ª Edição, 2020, prefácio Ugo Giorgetti, tradução Aurora Fornoni Banardini e Homero Freitas de Andrade, 171 páginas, R$40,00 nos portais) que encanta os leitores com uma linguagem primorosa, observações sobre a existência humana poucas vezes analisada com tanta profundidade.
A princípio, alguém adquiri um livro pelo chamariz da capa, por sua ilustração na vitrine de uma loja, creio, não se entusiasmaria com o “Deserto dos Tártaros”, não só pelo título pouco convincente, como pela gravura de um óleo sobre tela de 1872 onde se vê dois militares montados em cavalos no iniciar de um deserto.
As aparências, no entanto, ficam restritas a essa tola observação, pois, um desses militares, o jovem tenente Giovanni Drogo, designado para servir ao Exército Imperial (a Itália ainda era Império no enredo do livro publicado em 1945) num forte de fronteira com o objetivo de reforçar as tropas da guarnição para enfrentar a chegada dos tártaros, nunca mais sairá desta fortaleza e os tártaros, os temíveis guerreiros do Oriente, nunca chegam.
Eis, pois, o fulcro, o âmago da narrativa, um enredo simples, aparentemente sem o menor atrativo – servir num forte, temporariamente, cumprir uma missão militar em tempo de não guerra propriamente dita, mas a espera de que isso possa acontecer, e retornar para a cidade, para a vida urbana normal n’algum quartel cumprindo a tabela do tempo com as promoções de praxe na carreira, as ascensões a capitão, major, coronel, general, como é a praxe.
O autor, no entanto, aproveita esse enredo para falar da existência humana, do ser ou não ser shakespeareano, fazendo com que o tenente Drogo se apegue ao forte de tal maneira que dele não queira mais sair vislumbrando a possibilidade real (e irreal) da chegada dos tártaros e o dever de enfrenta-los, de lutar, de afinal honrar a farda que conquistou na academia militar. Mas os tártaros nunca chegam, nem dão o menor sinal de que vão chegar, mas ele assim entende que estão vindo, há esse sentimento em visões de pontos no deserto, de manchas que se movem, e o livro vai se tornando sublime.
Traduz o autor esse sentimento de angústia e esperança: - Do deserto do norte devia chegar a sorte, a aventura., a hora milagrosa, que, pelo menos uma vez, cabe a cada um. Para essa vaga eventualidade, que parecia tornar-se cada vez mais incerta com o tempo, os homens consumiam ali a melhor parte de suas vidas.
Drogo, a princípio, fora destacado para servir no forte por uma temporada de 4 meses e compreendia o fácil segredo daqueles homens que consumiam suas vidas, há anos, sem nada acontecer, “e com alivio pensou estar fora disso, espectador não contaminado. Dentro de 4 meses, graças a Deus, ele os deixaria para sempre. Os obscuros fascínios da velha construção tinham-se dissolvido, ridículos. Assim pensava”.
Eis onde o autor, inspirado em sua vida pessoal como plantonista do Corriere dela Sera, entre 1933 e 1939 trabalhando às noites percebeu que os meses se passavam, “e passavam os anos, e eu me perguntava se seria sempre assim, se as esperanças, os sonhos inevitáveis quando se é jovem, iriam se atrofiar pouco a pouco, se a grande ocasião viria ou não”.
Daí criou essa ficção militar do “Deserto dos Tártaros” envolvendo militares, um forte de fronteira e a passagem do tempo daqueles homens de plantão com fuzis em mãos, canhões sempre azeitados, toques de clarins, pronto para uma batalha, para um confronto, e este nunca acontecia.
O livro, pois, embora tenha essa figuração ilustrativa, a rigor, trata-se da vida de todas as pessoas que se sentem nessa situação (e são milhares, milhões no planeta) que veem o tempo passar, quer como jornalistas, médicos, motoristas, contabilistas, ascensoristas, etc, etc, vendo o elevador da vida subir e descer; descer e subir sem que se faça algo que possa romper essa linha da monotonia.
E, na maioria das vezes, o que acontece é que o tempo o passa e quando se percebe que os cabelos brancos tomaram contra do corpo, já era, não dá mais tempo de fazer nada. Há, no entanto, um possível arrependimento interior de não ter feito a mudança, porém, não explicito, politicamente correto e aceitável, pois, o seu dever consigo e com a família (Pátria) tinham sidos cumpridos.
No caso do tenente Drogo, no entanto, o segredo e o sublime do livro está no fato de que ele percebe a necessidade de deixar o forte depois dos 4 meses para não se assemelhar aos que ali já estavam há anos, porém, passam-se esses 4 meses, 4 anos e muito mais anos e ele não consegue deixar o forte (mesmo não sendo obrigado a isso) diante de uma força estranha e misteriosa que o prendia ao lugar, sobretudo entendendo que era essa a sua missão de vida (enfrentar os tártaros) e eles estavam a caminho.
Lembro-me de um jornalista baiano que aconselhado pelos mais experientes da época, anos 1970, dizendo que a Bahia não dava régua e compasso a ninguém nessa área e se assim quisesse progredir fosse para São Paulo, se mudasse para São Paulo ou Rio de Janeiro, ele fez muitos planos, tomou muitos chopes discutindo com os colegas, mas nunca saiu da Bahia. E ademais, não tinha possíveis “tártaros” a invadir Salvador e não estava de plantão para combatê-los.
São muitos esses sentimentos trazidos à tona por Buzatti neste maravilhoso livro, com enredo e lições de vida atualíssimos e, no plano da literatura, nas descrições que faz da possível chegada dos tártaros no deserto do Norte são arrepiantes, assim como o ser e não ser de Drogo.
Quando o médico do forte Dr Rovina atesta que Drogo estava com problemas de saúde, distúrbios do aparelho circulatório, e é hora de enviá-lo à cidade, o que ele concorda, no momento em que os dois se encontram frente à frente pra que seja tomada essa decisão, Rovina diz: - Aqui está o atestado de transferência. Vou leva-lo para o comandante assinar.
- Passou pela cabeça de Drogo a lembrança de sua cidade, uma imagem pálida, ruas fragorosas sob a chuva, estátuas de geso, umidades de casernas, tristes toques de sinos, rostos cansados e desfeito, tardes sem fim, tetos cobertos de poeira () Doutor, doutor, disse Drogo, quase sussurrando, estou bem. Não posso ir embora () Jogue fora aquele papel (da licença) e assim agiu o médico.
O jogar fora o papel foram ou não levá-lo ao comandante para atestar sua licença, embutido nesse conceito estava o subliminar de que, logo após sua licença (ou no decorrer de sua ausência do forte) os tártaros atacariam. Era, em certa amplitude uma questão psicológica (e mais ampliada, psiquiátrica), uma alucinação, pois, os mais antigos na fortaleza sabiam que os guerreiros do Oriente nunca chegariam.
Então, porque esse fascínio pelo forte? Porque esse apego?
Inexplicável. É exatamente o que sentia Buzatti na redação do Corriere Dela Sera entre 1933 e 1939 nos plantões noturnos e enfadonhos do jornal, numa rotina tipo “vendo o tempo passar sem reagir, sem mudar de atitude”.
Mudar de atitude, de alcançar outros degraus da vida, de mexer-se, motivar-se, sem se apegar ao seno comum, ao estabelecido, ao enraizado, é muito difícil. Muitas vezes ocorre empurrado por circunstâncias, mas por decisão própria envolve uma enorme complexidade, o que não é fácil de decidir.
Drogo é o personagem síntese desse modelo universal. Com a adicional de que tinha uma causa ficcional (que muitos de nós temos quando sentados na posição de conforto esperando que as coisas melhorem) a invasão dos tártaros e um ponto de honra: o combate a esses bárbaros na defesa do seu país. Por isso, consumiu todo seu tempo de caserna até a velhice, com esse aforismo, com essa convicção profunda, até sua morte.
- Envolto assim pelas trevas, enquanto lá embaixo prosseguiam as doces canções entre os arpejos de um violão, Giovanni Drogo sentiu nascer dentro de si uma extrema esperança, Ele, sozinho no mundo e doente, enxotado como peso importuno, ele, que ficara atrás de todos, ele, tímido e fraco, ousava imaginar que nem tudo estava acabado, pois quem sabe tinha realmente chegado a sua grande oportunidade () Coragem, Drogo, esta é a última cartada, vá ao encontro da morte como um soldado, que a sua existência erra pelo menos terminou bem. Vingado finalmente da sorte, ninguém cantará seus louvores, ninguém o chamará de herói ou de qualquer coisa semelhante, mas justamente por isso vale a pena”.
Atravessou assim a cortina entre a vida e a morte convicto de que os tártaros estavam chegando e mesmo no leito da morte, sem forças físicas, debilitado, acamado, a força mental o mantinha no combate.