Cultura

SERRINHA NO TEMPO DOS MEUS AVÓS: AS GERAÇAÕES X,Y E Z; O AMANHÃ, 2030

Uma análise do que virá pela frente até o ano de 2030 e como serão essas mudanças na economia mundial
Tasso Franco , Salvador | 20/02/2026 às 12:38
As primeiras feministas de Serrinha, 1896, correspondente, hoje, a geração Z
Foto: BJÁ
    EPÍLOGO – AS OUTRAS GERAÇÕES E O QUE VAI ACONTECER ATÉ 2030


   Como havia prometido aos leitores faria um epílogo para concluir essa obra falando das gerações que sucederam a temporalidade deste livro (1880-1960), que defini em número de três – a dos meus avós (1880-1910); a dos meus pais (1910-1940) e a dos meus irmãos e a minha (1940-1960) essencialmente conservadoras, mas que passaram por muitas mudanças no comportamento social (modus de vida) e dos avanços tecnológicos com o uso do automóvel, dos eletrodomésticos e assim por diante. 

   Temos no livro o marco temporal 1960 (época do falecimento dos meus avós e onde se encerra nosso enredo), mas, é obvio que a roda do universo seguiu seu giro e é disso que vamos falar, agora.

  De meu avô para mim (estamos falando de Serrinha) saímos da “idade das trevas” – sem energia elétrica; à “idade das luzes” – instalação da energia, década de 1960; do barro – água barrenta que consumíamos – para o filtro – água filtrada; do ensino primário para o secundário; do sapato de couro para o tênis; da valsa para o rock; do toucinho para o óleo vegetal; da caneta tinteiro para a esferográfica. Foram tantas as mudanças que daria um capítulo se fossem enumerá-las.

  Os nascidos entre 1965 e 1981 durante a reconstrução da Europa após a Segunda Guerra Mundial representam a Geração X, terminologia (não brasileira) que se espalhou pelo Ocidente. 

   Os pais dessa geração viveram durante o período pós-guerra e são chamados de “Baby boomers” — nascidos entre 1945 e 1964 — e seu nome deve-se ao fato de terem nascidos durante o período em que a taxa de natalidade disparou em vários países anglo-saxônicos, sobretudo nos Estados Unidos, Canadá e Nova Zelândia.

  Primeiro adendo: Embora a II Guerra tenha sido mundial a realidade da Europa e dos EUA era diferente do Brasil e da América Latina, países que sofreram as consequências do conflito, mas nem tanto. Encontrar um trabalho na Europa era mais difícil do que no Brasil e por lá imperou a filosofia de vencer pelo trabalho, muito trabalho, quase uma dependência. Daí surgiu o termo “workaholic” – na tradução mais popular ‘burro de carga’ ou pessoa que se dedicava exclusivamente ao trabalho. 

  Também copiamos esse modelo especialmente no estado de São Paulo, motor industrial do Brasil. Essa -é a segunda ressaltava que faço, pois, nosso país tem diferenças regionais muito grandes e a Bahia, onde morava (e moro) se situa na região Nordeste, que é a mais atrasada do país. Então esse modelo “workaholic” moveu poucos baianos.

  Foi um período de evolução tecnológica muito forte (a bomba atômica vem dessa época e o uso do átomo se expande na engenharia, na medicina, na química, na física, etc; época também marcada pelo surgimento e desenvolvimento dos meios de comunicação de massa (o conceito da aldeia global de Marshall McLuhan, concebido no início dos anos 1960, se consolida quando as tecnologias eletrônicas avançam), além de desfrutarem de estabilidade (profissional e familiar) e estarem ativos (tanto fisicamente quanto mentalmente.

  Foi uma época de muitas transformações sociais no Brasil - a maioria copiadas da Europa:  o rock (jovem guarda, nova maneira de se comportar e se vestir), o feminismo (o liberou geral das mulheres), a luta delas pela igualdade de condições no trabalho, o avanço do sindicalismo, a ditadura militar, enfim, época bem conturbada da qual fiz parte como “Baby boomer” e meu primeiro filho vai nascer em 1972, em Salvador.

   Já tinha girado minha manivela saindo de Serrinha em 1963 e me deslocando para a capital da Bahia em busca de conquistar um curso superior o que só consegui, em 1968, época do AI 5 no Brasil e do movimento estudantil na França com Daniel Cohn-Bendit (maio de 1968) que infernizou o governo De Gaulle e chegou com muita força no Brasil (e na Bahia, capital), na UFBA, justamente, quando entrei na universidade. Época de muitas greves estudantis e protestos que geraram uma geração de políticos emanados desse movimento e anti-ditadura.
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   Em termos de gerações fomos ficando para trás com o surgimento da Geração Y ou 'Millenial' também chamados de nativos digitais, os nascidos entre 1982 e 1994, com a tecnologia faz parte de seu dia a dia, com quase todas as suas atividades sendo exercidas por meio de uma tela. On e off quase totalmente integrados em suas vidas. 

    Na Bahia, devido ao atraso do Nordeste brasileiro, isso não aconteceu como nos países desenvolvidos e houve uma migração lenta do analógico para o digital.

    Eu trabalhava em jornais nessa época (1980-1990) - a essa altura na faixa de 35 a 45 anos de idade - e era totalmente analógico. Coube a mim implantar o primeiro jornal digital em Salvador (o Bahia Hoje) o que só aconteceu no ano 1993, quando a internet já estava a mil por hora nos Estados Unidos, Europa e Ásia e nós ainda trabalhávamos com máquina de escrever Remington. Mesmo quando implantamos o Bahia Hoje o uso da internet era mínimo.

   Nos procedimentos do dia-a-dia tudo ainda era no papel e no analógico e embora já existisse celular desde 1983, funcionava apenas como aparelho de telefonia. Lembrando, ainda, que o Brasil tinha reserva de mercado, não possuía tecnologia da computação e essa mudança só começa a acontecer nos governos Fernando Collor e FHC, a esquerda brasileira contra. Foi uma luta acabar com a Telebras, isso graças ao esforço de um ministro Sérgio Mota, de FHC, que sofreu o pão que o diabo amassou, mas conseguiu.

   Nós (eu e Pedro Irujo, o empresário) quando montamos o Bahia Hoje importamos todos os computadores dos EUA, praticamente, contrabandeados. E, na Bahia, ninguém sabia nada de diagramação, formatação em computadores e importamos técnicos de Belo Horizonte. Quando o jornal foi lançado, em 1993, deu-se o ‘start’ na mídia local, agências de publicidade, etc, e todo mundo correu atrás.

  Nessa época eu morava num conjunto habitacional chamado Alfa, Beta e Gama na Avenida Centenário e os prédios não tinham garagens cobertas e cada prédio possuía um portão de ferro dando acesso ao pátio, onde colocávamos nossos veículos, todos com correntes e cadeados. Isso perdurou por 30 anos (1972-2002) até que se instalaram os portões eletrônicos. Meu carro era um gol – o popular mais vendido no Brasil – e a única diferença para o jeep Willys de meu pai (1962) era que tinha ar condicionado. Fora isso, a tecnologia era rudimentar com câmbio manual, acelerador, freio e embreagem, manivela para baixar ou subir o vidro da porta, sem airbag e sem gps.

  E isso acontecia em todos procedimentos da vida dos cidadãos. O médico do coração que me atendia tinha fichário com envelopes contendo dados de cada paciente. Quando eu ia me consultar a atendente ia a um armário e pegava o envelope com meu nome e colocava na mesa do médico. Ele então abria o envelope e ia verificando meu histórico e se eu estava cumprindo o escrito, tomando os remédios adequados, etc. Tudo funcionava assim.

   Estou dando esses exemplos para mostrar que a realidade de um país é diferente da outra e o digital só vai avançar no Brasil a partir do século XXI, sobretudo após 2007 quando Steve Jobs lança o iPhone. Essa foi uma mudança radical. O Brasil já tinha superado a reserva de mercado, e, em 2009 fui a NY e comprei meu primeiro iPhone, ainda formatado no Brasil, mas, um telefone que era computador.
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   Meu filho, nascido em 1994, integra a geração Y dos nativos digitais e minha filha nascida em 1972 integra a geração X nascida analógica e que migrou para digital. Enquanto eu, nascido em 1945, atravessei esses dois mundos. Na classificação Tasso Filho é millenials; Nara Franco geração X; e eu Baby boomers. 

   São três gerações diferentes com características diferenciadas e as devidas adaptações. Eu sai de vez do jornalismo impresso para o digital em 2006 e Nara, que também é jornalista, já estava no digital desde a década final de 1990; e Tasso Filho, que se mudou para a Europa (Espanha) 2019, era integral digital.
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  Foi o fotógrafo Robert Capa que cunhou a expressão 'geração X' para se referir às pessoas que nasceram a partir dos anos 60. Em apenas meio século, esta geração conviveu com outras três: 'baby boomer', Y e Z. 

   Para melhor entendimento, a geração X compreende os nascidos entre 1965 e 1981, durante a reconstrução da Europa após a Segunda Guerra Mundial. Os pais dessa geração são os Baby boomers — nascidos entre 1945 e 1964 — e seu nome deve-se ao fato de terem nascido durante o período do baby boom, isto é, a época em que a taxa de natalidade disparou em vários países.

   Grandes eventos históricos desses períodos: Queda do Muro de Berlim, fim da Guerra Fria, primeiros computadores, ataques terroristas de 11 de setembro, primeiras redes sociais, flexibilidade e trabalho on-line, computação em nuvem.
  
   Há, em curso, uma nova geração a Z ou 'Centenial' com idades de 16 a 31 anos os nascidos entre 1995 e 2010 que chegaram com um tablet e um smartphone debaixo do braço, grupo marcado pelo uso da internet.

     É preciso observar (falo em relação ao Brasil/Bahia) que muitos país dos “centenial” são das gerações X e Y e poucos da geração Z (nascidos em 1995). Ou seja, pais, hoje, com 50 anos de idade ou mais, educando e convivendo com filhos “digitais” cuja cultura, nas relações familiares e sociais, são diferenciadas das que se formataram. Esse choque tem sido muito forte e há intensos conflitos familiares, como confisco do celular e outros procedimentos.

   O que fazer? Como agir? 

   Não há consenso em relação a esse complexo tema, muitos jovens e pais se agregam a procedimentos terapêuticos da psicologia, as novidades nesse campo são muitas, porém, nada muda (ou quando muda) são os pais que têm que se adaptarem a nova realidade. Um pai que cantou cantiga de roda querer que o filho “centenial” faça isso, ou pratique isso, não existe. Porque a manivela do tempo girou a cantiga de roda (ainda existe) mas é coisa do passado. 

      Então, se a minha geração demorou 50 anos para passar do analógico para o digital; a da minha filha (1972) encurtou a distância para 20 anos; a de Tasso Filho (1994) nasceu nela, mas, sem o celular ainda sendo usado quando criança; e de minha neta Lua (2005) cresce com o celular no colo, desde criança pequena.     

     Especialistas em comportamento humano, dizem que os pós-millenials se preocupem menos com suas relações interpessoais, embora sejam eles os que mais dão voz às causas sociais na Internet. Gostam de ter tudo aquilo que desejam de forma imediata, uma consequência do mundo digital em que estão imersos. Seu estilo de vida também está marcado pelos youtubers.

   Diria que não precisa ser especialista para observar e procurar entender esse fenômeno, essa mudança de comportamento. Quem tem filho e/ou neto nessa situação vê isso em suas casas, nas ruas, nos shoppings, etc. 

   São multitarefa, mas seu tempo de atenção é muito breve. São independentes, consumidores.  De acordo pesquisa do Bank of America Merrill Lynch, hoje em dia, há 2 bilhões de millennials e 2,4 de centenials, que representam 27% e 32% da população mundial, respectivamente.
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  Segundo livro intitulado 2030, de Mauro Guillen, sociólogo formato em Yale, EUA, e pensador do Wharton School, há 2.3 bilhões de millenials no mundo, faixa etária que, de acordo com o Morgan Stanley é a faixa etária (35 a 60 anos) mais importante para a atividade econômica.

  Mas, não é essa geração que detém a maior quantidade de riqueza e sim aqueles que estão acima dos 60, entre 70 anos e 80 anos de idades (e até mais do que isso, 90/100). Que detém a riqueza e o poder. Veja que os líderes da maioria dos países no campo da política, os dirigentes mundiais, estão acima de 70 anos, inclusive no Brasil, o presidente Lula da Silva.
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   O que vai acontecer até 2030 ou o que já está acontecendo não representa um choque de gerações – ninguém, aparentemente, está interessado nisso – mas caminhar, cada geração, dentro dos seus espaços, interligando-se. Claro os mais jovens “centenial” se adaptando e se familiarizando com as novas tecnologias, enfrentando-as também na perda de empregos com a IA e a robótica, mas também participando dos novos nichos.

  O escritor John Passos diz que a “criação de uma visão de mundo é obra de uma geração e não de um indivíduo, porém, cada um adiciona um tijolo no edifício global”.

  Noutras palavras: uma geração não mata a outra ou aniquila a outra. Elas vão se complementando. Eu, por exemplo, tenho 80 anos de idade e estou ativo como jornalista na web, minha filha com 54 anos de idade, também atua nessa área; e meu filho com 32 anos opera na área de seguros e trocamos informações.

   Globalmente falando, até 2030, as pessoas acima de 60 anos de idade serão quase 2 bilhões, mais de 20% da população mundial, e integram hoje o que se chama de “mercado grisalho” e que tem um forte poder de compra estimado em R$20 trilhões, em 2030.

  Claro que as empresas já operam nesse mercado não só oferecendo planos de saúde, mas, sobretudo cultura, lazer, vaidade, clínicas de toda natureza desde sex a emagrecimento, muitas as ofertas via iPhones e pelos canais de televisão abertos e fechados. 

   Os marketeiros descobriram (o que não é novidade) que os velhos de hoje não pensam e agem como os velhos do tempo dos meus avós. Até clínicas oferecem a morte, uma maneira de morrer amparado pela medicina com conforto e assistência, já existem e muitas.

   Vale observar que isso se processa a Oriente e Ocidente. Os chineses e os indianos melhoraram seus padrões de vida e formaram classes médias enormes (algo em mais de 500 milhões de pessoas) que passaram a consumir além de comidas, perfumes, livros, joias, viagens, etc.

   Fazer uma previsão mais detalhada do que vai acontecer até 2030 é praticamente impossível diante dos avanços das novas tecnologias e da robótica. 

   O que virá depois dos “Milenialls” uma vez que eles também vão envelhecer a partir de 2040 ninguém sabe ao certo. O que se denota, hoje, e já de algum tempo, é que as novas gerações a partir da Z, sobretudo, e em alguns países europeus, EUA, Asia, estão diminuindo o número de nascimentos (novos bebês), a família está diminuindo. 

  Isso, no entanto, na mesma proporção não acontece na África e na América Latina e alguns países da Ásia e o fenômeno da migração é possível que se intensifique.

  A questão mais complexa será no embate com as novas tecnologias. A cada ano, na atualidade, estima-se que entre 35.000 a 40.000 novos robôs estão sendo instalados nas fábricas mundo a fora. 

   E, até 2030, teremos mais computadores que cérebros humanos operando, ou seja, mais olhos e braços robóticos do que humanos. Estima-se, ainda, que haverá uma concentração humana em cidades e a Biblioteca da Câmara dos Comuns do Reino Unido, revela que dois terços da riqueza do mundo pertencerão a 1% dos bilionários vivendo em cidades, que na atualidade, tem 4 bilhões de moradores e estima-se que, em 2030, haverá 34 cidades com populações acima de 20 milhões de pessoas, cada.
  
  Muitas consequências advirão daí, desde novas epidemias mortais como questões ambientais gravíssimas, o aquecimento global, enfim, não é o fim do mundo nem uma catástrofe porque, ao contrário do que muitos propagam, a qualidade de vida dos humanos está melhorando, vive-se melhor e mais tempo (o Brasil já superar a marca de 77 anos em expectativa de vida), novas tecnologias de alimentos vão surgir, o dinheiro como conhecemos tende a desaparecer, é possível uma bolsa mundial para os mais pobres, uma luta pela sobrevivência que se dará, em grande parte, com as máquinas (os computadores e os robôs).

   Quem não entender isso e começar a se associar a eles está perdido. O Brasil, por sua parte, tem feito pouco caso desse campo, de criar suas tecnologias e seus mecanismos, importamos tudo e vivemos nessa dependência. E também, é bom que se diga, ainda conviveremos muitos tempo no dualismo novas e velhas tecnologias caminhando juntos, até que se invente uma nova maneira de produzir acarajés, e cadeira deixe de ser cadeira.