Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado
Walmir Rosário , da redação em Salvador |
17/02/2026 às 10:55
Placa da igreja de Ilhéus furtada
Foto: José Nazal
Recentemente recebi um zap do meu amigo José Nazal narrando o furto deuma placa da Igreja de São Jorge, em Ilhéus, paróquia que está entre asmais antigas do Brasil. Só para nos situarmos na história, ela foi criada pelo primeiro bispo do Brasil, Dom Pero Fernandes Sardinha, aquele que foi comido pelos índios em Alagoas, após o naufrágio do navio que o levava de volta a Portugal.]
E conta Nazal que, quando a paróquia chegou ao seu quarto centenário,em 1956, o então bispo diocesano, Dom João Resende Costa, promoveu a realização de um Congresso Mariano para a comemoração. Para marcar a data, assentou uma placa comemorativa na parede frontal da Igreja, em 07de outubro d 1956, até então Sé Diocesana de Ilhéus.
Pois bem, não é que às 22h05min de 07 de fevereiro último, a câmera do escritório de Geraldo Carvalho registra o furto da placa por uma pessoa de aparência drogada. Ao que tudo indica, buscava algo de valor para continuar na sua vida desregrada.
“Um pobre em Cristo desajustado com ahumanidade”, assim citou José Nazal, que fotografou a Igreja e a placa por diversas vezes.Nesse mesmo período, recebi um vídeo do pároco da Igreja de Nossa Senhora de Lourdes, em Coaraci, também aqui no sul da Bahia, no qual o Padre lamentava a falsificação de bilhetes do caruru da Festa da Padroeira. Mais de 150 bilhetes foram vendidos pelos falsificadores – sem a menorcerimônia – na comunidade católica.Visivelmente acabrunhado pela ação dos falsificadores, o padre mandou um recado para eles – os falsificadores – comentando os castigos divino sem que poderiam ser penalizados, além dos impostos pelos homens.
“Quero dizer que as pessoas que tiveram a coragem de fazer isso esperem a torradeira do inferno, para que um dia sejam queimadas, por cometeremum crime inconcebível”, desabafou.
Como se esses crimes cometidos contra o respeito com a Igreja fossem poucos, em cerca de três meses a Igreja de São Judas Tadeu, em Itabuna, sofreu a ação do amigo do alheio. Mesmo equipada com câmeras devigilância, os larápios retiraram fios da rede elétrica. Um desses furtos foi feito assim que o eletricista recuperou a rede elétrica da igreja, e sem a menor preocupação.
A cada instante somos surpreendidos por atos e fatos que nos deixam assombrados com a banalização dos costumes e até mesmo da própria vida, desvalorizada ao extremo. Os valores religiosos e morais são alvo de zombarias e vandalismo a todo o momento, como se tivéssemos sofrido um apagão em nossa memória.
Fomos acostumados a crer e respeitar a família, nossos semelhantes, e o que é considerado sagrado. Todas as divergências entre religiões eram toleradas, embora cada grupo defendesse sua crença internamente, considerando a vida em sociedade. Claro que cito exemplos de modo geral, embora as diferenças de alguns tenham chegado ao extremo, por vezes.
Cada grupo obedecia aos seus princípios, suas regras, sua ética ou convicções morais criadas ou impostas pelas autoridades dominantes. No tocante às religiões, as igrejas ou locais de reuniões sempre foram respeitados, intocáveis, mesmo por aqueles tidos como foras da lei, embora tementes a um Ser superior: Deus e os santos católicos.
Exemplos mais práticos como o que citei acima podem ser verificados nos casos de grupos armados, como os cangaceiros do Nordeste brasileiro, notadamente o liderado por Virgulino Ferreira, o Lampião. Seus atos de violência física ou os saques praticados em cada cidade se restringiam às residências e as igrejas eram preservadas por temor a Deus.
Com o tempo, esse costume vem mudando – cada vez mais rápido. No meu entender, é o embrutecimento da sociedade, provocado pela perdada sensibilidade espiritual, na mesma velocidade em que são desfeitas as famílias. Hoje o homem faz pouco caso da justiça divina, com açõe segoístas, ausência do respeito ao próximo, arrogância e a falta de Deus no coração.
Esses atos de vandalismo – crimes, mesmo – são praticados sem a menor cerimônia, pois nem sempre existe o cumprimento da pena ao violador do patrimônio alheio. Na minha visão, a banalização do crime pelo Estado incentiva, ainda mais, o retorno do criminoso a agir criminosamente com mais tranquilidade, por ser considerado de menor potencial ofensivo.
Se por um lado não existe o temor do Estado contra seus atos aqui na terra, menos, ainda, o temor do juízo divino, sobretudo pelo distanciamento de Deus, levando-o ao pecado desenfreado. A falta ou desvirtuamento da família dá a sensação de que tudo é permitido, o que é corroborado pela falta da chamada punição dos homens.