Cultura

SALVADORES,CONTO 7: O FLANEUR SIMÃO PIEDADE E A MORTE DA POESIA DE RUA

O filósofo Simão Piedade perdeu o prazer de flanar pelas ruas de SSA; os shoppings e a bandidagem sepultaram esse prazer
Tasso Franco ,  Salvador | 10/03/2026 às 09:49
Jornalista Amaro Arakem e o filósofo Simão Piedade
Foto: SERAMOV

7. O FLANEUR SIMÃO PIEDADE

  Sentados no Velho Espanha Bar e Cultura dos Barris o veterano e perspicaz jornalista Amaro Arakem, de longa experiência em entrevistas com intelectuais das letras, das artes cênicas e da música conversava com o mais destacado “flaneur” (andarilho0 de Salvador), Simão Piedade, um filósofo niilista descrente de tudo.

  Simão Piedade tinha esse nome fantasia, nome popular. Era de batismo Simão Souza Pereira, mas isso pouco importava. Os leitores, inclusive, não se apegam a esses nomes cartoriais. Ninguém em Salvador chama o pintor Carybé de Hector Júlio Páride Bernabó, nem o tocador de berimbau Camafeu de Oxóssi, de Ápio Patrocinio da Conceição; nem muito menos o sambista Riachão, de Clementino Rodrigues. O que vale, o que importa, são os nomes populares, emanados do povo.

   Portanto, o Souza Pereira, tinha pouca valia. Bondade, sim, para pessoas mais refinadas como o historiador Luís Henrique Dias Tavares, o presidente do IGHB, Joaci Fonseca de Góis; o presidente da ALB, Aleilton Fonseca; o jurista Edvaldo Pereira de Brito e tantos outros sábios que habitam a cidade. Aí, sim o nome tinha que ser grafado completo.

   Amaro puxou a conversa. Bebiam cerveja em doses colocando pouco líquido nos copos e virando-os goelas abaixo. Que estúpidos, incréus. E veio a pergunta: - Como está o flanar por esta cidade?

  - Morreu. O advento dos shoppings e a expansão da violência armada das inúmeras facções nos reduziram a pó, a cinzas.

  - Como assim! Não se dá para andar nem mais no centro antigo?

  - Dá, mas é desestimulante. Sepultou-se o tempo do glamour, do debate poético, dos cafés, da blandícia, do prazer em ser visto, ser paquerado e endeusado por alguma senhora.

  - Parece, assim, a configuração de um tempo de tristeza. É isso?

  - Sem dúvida. Foi-se o tempo do poeta Godofredo Filho e seus linhos brancos a desfilar na Chile como se o passeio fosse uma passarela de moda, com seus toques sutis da bengala no solo, seu Patek Philippe de ouro à mostra na algibeira, seu chapéu de feltro.

  - Poderia dizer que trazes à luz do debate uma imagem saudosista...é o que insinuas.

  - De modo algum, na essência, na história pode até ser, mas não me considero um saudosista nem desejo mover a manivela do tempo em marcha a ré. Sempre ando adiante, à frente. A natureza do pensador é a altruísmo, o verdadeiro. E o que vemos nos dias atuais é a degradação da cidade, dos seus sítios históricos repletos de vendedores de um tudo, até veneno a granel se vende nas bancas da Avenida Sete, então, perdemos o prazer de flanar. Como estabeleceu Descartes em sua célebre frase filosófica de que o bom senso, a potência do pensar é a coisa bem partilhada, o gracejo, a arte nos monumentos e no mover da cidade. E esse prazer Salvador sepultou.

  - Penso ao contrário: É o que vemos na cidade, ao menos temos um burburinho de gente, um agito - gracejou Arakem - pedindo “uma quente”, uma dose de conhaque para mesclar com o puro malte.

  - Sim, há um burburinho de gente sem arte, sem glamour, sem filosofia, sem pensar, a vender sandálias rasteiras e perfumes falsificados dizendo que são de Paris, a comercializar roscofes de pulso chineses a granel de 20 reais cada, pastores evangélicos pregando a entrada ao reino de Deus expondo bíblias em mãos e monumentos em decadência, fachadas de casarões históricos da Sete com banners de plástico dos atacadões de toda natureza, até o prédio do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, belíssimo, com laterais e fachadas servindo de quaradouros de roupas dos vendedores de jeans e sutiãs. Perdemos a dignidade, perdemos o amor pela cidade, e nos dá desprazer em andar pela Piedade, onde tanto andei, pelo São Pedro, pelo São Bento, salvo o faço por obrigação, por dever de oficio, ainda que minha poética não comporte essas malvadezas. Sou lírico, sou amor, sou o perfume dos jasmins.

  - Creio que o nobre filósofo está angustiado e rigoroso demais com sua prática de andar, de ser o andarilho mais astucioso desta cidade.

  - Já fui. Hoje sou um mero Zé, um Mané com disse um desses ministros midiáticos de Pindorama e creio que o togado está certo, corretíssimo, somos mesmo uns Manés de bolso furado e não podemos nos ombrear com eles os marajás do Planalto Central. E se queres entender melhor o que digo já que estamos neste reduto único nos Barris, onde ainda se pode papear à sombra das mangueiras apreciando o elefante branco da Biblioteca Central vamos a Junqueira e a Piedade, passemos no Gabinete Português de Leitura e no IGHB e estiremos as penas no Relógio de São Pedro.

   - Será um prazer meu distinto filósofo, mas considero que essa biblioteca (apontou para a Central) ainda é a casa do saber.

  - Uma casa oca, sem estudantes, sem gente, com os equipamentos defasados, sem um projeto de leitura. O que foi bom no passado (não me fale que seja saudosista) dos tempos de Anisio Teixeira e Luís Viana Filho, o governador que a implantou, passou...o que passou... passou (cantarolou) e não atualizaram os procedimentos. Se o inteligente jornalista teve a oportunidade de conhecer a Biblioteca Nacional de Paris, 4 monumentais prédios instalados na época de Miterrand, tudo computadorizado, dinâmico, atualizado, repleto de pesquisadores franceses e de várias parte do mundo, há de sentir a diferença.

  - Quem sou eu para viagem desse porte. Não sou um dos togados. Mal passo de Lauro de Freitas...bebamos a saideira e partiremos para o Relógio.

 E, assim, após pagarem a despesa no Velho Espanha andaram pelo passeio da general Labatut e chegaram à esquina da Junqueira Ayres onde se situam dois grandes shoppings e é o acesso Barris à Piedade e vice-versa.

  - Iremos pelo passeio à esquerda pois me recuso até em passar a frenes desses cemitérios da cultura, desses túmulos dos “flaneures”, disse o vate. Amaro Arakem consentiu sem pestanejar e não quis alongar a interpretação para saber que cemitérios seriam esses.

  Na descida, o passeio, repleto de degraus parecia uma escada.

  - Vês, disse o filósofo apontando para os degraus – que se trata de uma área onde idosos não podem circular, salvo, como fazemos nós, com extremo cuidado e uso de bengalas.

  - É complicado, mas, devagar vai-se indo numa boa.

  - Vai-se sem a arte de flanar, de apreciar o belo, o casario deste bairro onde as famílias serviam chás e biscoitos às tardes, algumas senhoras dedilhando bandolins. Hoje, são boutiques, lojas que vendem celulares.

  Percorria a ladeira descendente. Quando chegaram no rés do chão, na baixada, para iniciar a subida à Piedade, aproxima-se da dupla uma bela senhora e cumprimenta efusivamente o jornalista Amaro com beijos nas faces e toques de intimidade.

  - Que prazer imenso vê-lo por aqui. Trabalho neste shopping (apontou para o centro comercial) e sinto saudade dos nossos encontros.

  - Haveremos de retornar. Este é o filósofo Simão Piedade – apresentou a distinta ao “flaneur”.

  - Encantada. Já ouvi falar do senhor, de sua fama como cronista da cidade. Estou lisonjeada, gratificada.

  O filósofo agradeceu os elogios, destacou a cortesia da senhora e absorto com aquela inesperada fã despediram-se com abertos de mãos.

  Adiante, no iniciar a subida da ladeira para a Piedade, o jornalista Amaro Arakem crispou-se: - Foste econômico em palavras com minha amiga Dulcinéia. Ela é uma pessoa aberta, amável.

  - É, pode ser. Nos tempos atuais temos que ser discretos ao máximo com as mulheres para não sermos classificados de impertinentes, gaiatos, machistas. Elogios, hoje, viram ofensas.

  E, assim, conversando se de livrando de pedestres que circulavam na área, chegaram ao adro da Igreja e Convento de Nossa Senhora da Piedade.

  - Esta praça é meu santuário. Agradeço a ele a distinção de ser Simão Piedade. Mas, sofro quando aqui chego e a vejo repleta de mendigos e moradores de rua que os politicamente corretos chamam de “pessoas em situação de rua”, um eufemismo de intensa subjetividade, pois, ninguém mexe com eles para tirá-los pela força do convencimento, na expectativa de que a “situação de rua” se transforme, algum dia, no Morar Melhor ou no Minha Casa Minha Vida, porém espera-se há anos e nada acontece. Nada se modifica e a praça que já foi dos poetas, do povo, dos moradores da Piedade, Barris, Largo 2 de Julho, Carlos Gomes, é um acampamento de moradores de rua, alguns deles, ao que dizem, fumam cachimbos de crack.

  - É uma realidade que, creio, tende a mudar. Nossos governantes falam muito no social. É o que mais defendem...

  - Sim, defendem no discurso, na ladainha política, mas, na prática, pouca coisa funciona, pois, se funcionasse, a Piedade não é a única praça nesta situação. Há muitas outras. Se fores ao Largo dos Mares onde há uma belíssima igreja no estilo gótico com pilares e cúpula que buscam atingir o céu se certificarás no que falo. Então, meu arguto jornalista, como posso flanar neste centro antigo mais especificamente nesta Piedade, onde vi, apreciei, me deliciei com os versos dos poetas Antônio Short, Geraldo Maia, Eduardo Teles, Ametista Nunes, com as manifestações estudantis lutando contra a ditadura militar dos anos 1960 a 1980, ou prosando com os aposentados nos bancos do jardim. Todo isso acabou. E não significa saudosismo porque a cidade ainda tem muitos poetas, há desejo de rebelar-se contra muita coisa, e a pós Covid foi um tempo sombrio, mas tá todo mundo acomodado, empregado nos cabides governamentais e a praça foi ocupada pelo desprazer.

  - Lamentável, lamentável, respondeu o jornalista enquanto atravessam a Direita da Piedade em direção ao Instituto Geográfico e Histórico da Bahia.

  - Vamos ao IGHB, ao menos bebemos uma água, prosaremos com o Góis, que tem uma memória fantástica, capaz de recitar versos & versos de “Os Lusíadas”, do Camões, e folhearemos os jornais do dia na biblioteca.

  - É uma boa ideia, sigamos em frente, apontou o filósofo com a bengala o prédio do IGHB à vida, à frente.

  E assim entraram na Casa da Cultura da Bahia onde duas valorosas mulheres enalteceram os saberes – Edith Gama Abreu e Consuelo Pondé de Senna – e o fizeram por um portão lateral no contra prédio do Gabinete Português de Leitura.

  No interior do prédio notaram que a porta principal de acesso ao IGHB, na Avenida Sete, estava fechada devido a ocupação da fachada por ambulantes e vendedores de comidas, e havia no saguão uma fita amarela em volta dos pilotis e os dizeres em placa para evitar a área, pois, a cúpula do prédio está com fissuras.

  O filósofo então bradou para o jornalista: - Eis um tema para grande reportagem do seu matutino: o corte de verbas governamentais para a Casa da Bahia coisa nunca vista deste o tempo de JJ Seabra, a pequenez, a pirraça, tudo em nome do politicamente correto ou do bajulatório indispensável e obrigatório. Não rezou na cartilha, não se ajoelhou aos pés do rei, se ferre.

  E assim chegaram à sala da biblioteca do IGHB para lerem algo. Estava com o ar condicionado desligado pela economia da sobrevivência. Zarparam para o Relógio de São Pedro, como combinado, ao menos teriam o ar fresco da tarde. Prosaram sentado nos bancos de cimento da praça até que os sinos de São Bento marcaram a hora da Ave Maria.

  Simão, residente na Praça Inocêncio Galvão despediu-se do amigo e se encaminhou ao Largo 2 de Julho; e o jornalista desceu rumo a Barroquinha benzendo-se em frente ao Relógio de São Pedro que, numa face marcava 12h, na outra em direção a estátua de Rio Branco, 9h15min, a de frente ao Edifício Politécnica 13h e aquele onde passou embaixo 22 horas...balançou a cabeça como a dizer que o filósofo estava certo, se não conserta-se os ponteiros de um relógio numa cidade história, flanar com poesia, realmente, faleceu.