Cultura

SERRINHA NO TEMPO DOS MEUS AVÓS (1880-1960):O BARRO, A PEDRA,A MADEIRA

Os três elementos da natureza - barro, pedra e madeira - colocaram, a Serrinha em pé para sempre
Tasso Franco , Salvador | 05/02/2026 às 08:27
As construções antigas foram feitas em adobe e já se usava ferro nos portões e vidros nas janelas
Foto: DIV
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   O BARRO, A PEDRA E A MADEIRA

   Esses três elementos da natureza foram os alicerces edificadores da Serrinha no tempo dos meus avós (1880-1960) e mesmo desde os seus primórdios, em 1723, quando o Sítio      Serrinha começa a ser transformado em povoado. 

   Sem eles seria impossível edificar as residências, a capela, os edifícios públicos, as lojas e armazéns comerciais que vão dar inicio ao povoado. O cimento, o ferro, o vidro, todos também provenientes da natureza só começaram a ser utilizados como materiais construtivos no inicio do século XX, quando a Serrinha já estava em pé.

   Na Bíblia, o barro simboliza a criação humana, a fragilidade e a capacidade de ser moldado por Deus, o Oleiro, que nos forma do pó da terra (Gênesis 2:7) e nos remolda conforme Sua vontade, como em Isaías 64:8 e Jeremias 18, sendo o homem um vaso de barro que precisa ser moldado e corrigido, mas que também pode conter tesouros, como a Palavra de Deus e o Evangelho, mesmo sendo um vaso frágil.  

  Portanto, na concepção bíblica, Deus formatou o homem do barro da terra (Gênesis 2:7), Deus, como o Oleiro, molda o barro (nós) para diferentes propósitos. Se um vaso se deforma, Ele o desfaz e refaz (Jeremias 18:4), assim como Ele nos corrige e nos molda para Seus planos, nos tornando vasos para honra ou para uso comum (Romanos 9:21-23; 2 Timóteo 2:20-21).

  A pedra tem múltiplos significados -firmeza, fundamento, obstáculo e até julgamento, sendo central em profecias (Jesus como Pedra Angular), nas vestes sacerdotais (pedras preciosas), e na edificação da Igreja (Pedro como rocha ou a confissão sobre Cristo), além de pedras como objetos litúrgicos ou descrições da Cidade Celestial no Apocalipse.

  Frequentemente, Jesus, é chamado de "Pedra Angular" (Salmos 118:22, Atos 4:11), o fundamento da fé cristã e da Igreja, rejeitado pelos construtores, mas escolhido por Deus.

Jesus disse a Pedro: "Tu és Pedro (Petros/pedrinha) e sobre esta pedra (Petra/rocha) edificarei a minha igreja", gerando interpretações de que a rocha é a confissão de Pedro ou o próprio Pedro como líder.

  A madeira simboliza a humanidade, a fragilidade e a necessidade de transformação por Deus, com destaque para a madeira de acácia, usada nos utensílios do Tabernáculo, representando resistência e a transformação do homem imperfeito em algo santo por meio da intervenção divina, sendo revestida de ouro como Cristo.

  Uso no Tabernáculo: Usada na Arca da Aliança, mesas e outros móveis sagrados, revestida de ouro por dentro e por fora, simbolizando Deus revestindo a humanidade com Sua glória e santidade. 

  Em Ezequiel 37, o profeta une dois pedaços de madeira (um para Judá, outro para José), simbolizando a unificação do povo de Israel sob um só rei, o Messias. O termo também remete à cruz de Cristo (um madeiro transformado em salvação) e à madeira usada para sacrifícios. 

  A bíblia (em especial o Velho Testamento) a mais judaica e que analisa a criação do homem e as formas de viver primitivas, a.C., tem explicações para tudo.

  Na prática, de fato, foram esses três elementos, que, conjugados permitiam os homens a erguer as casas com adobes (tijolos de barro), as pedras que eram a base das construções e a madeira que servia de pilares, suportes, treliças e também se construíam os móveis – camas, cadeiras, mesas, armários, baús e outros.

  Na inicial do tempo dos meus avós (1880-1900) todas as edificações seguiram esse modelo e meu avô Jovino, nas proximidades de sua Fazenda Guariba (na altura da entrada do Lamarão, hoje, na BR-116) teve um barreiro que era um local da natureza onde se retirava o barro para fazer adobes.

  O adobe é uma das técnicas de construção mais antigas da humanidade, consistindo em tijolos de terra crua, água e fibras naturais (como palha ou esterco), secos ao sol sem queima. É uma técnica de bioconstrução focada na sustentabilidade, baixo custo e alto conforto térmico. 

  Mas, naquela época, ninguém falava em bioconstrução e sustentabilidade. Era o modelo que se usava porque não havia outro ou já havia de forma embrionária a fabricação de tijolos (em formato menor) e telhas com a queima em fornos de barro. 

   O adobe, no entanto, era o rei do pedaço, e na sua fabricação usava-se formas de madeira (sem fundo) e depois de secos eram assentados com uma argamassa de barro (similar à composição do tijolo), formando paredes sólidas e, muitas vezes, estruturas (capazes de suportar o telhado). 

   As paredes podem eram rebocadas com terra ou cal para proteção. O uso de telhados com grandes beirais era fundamental para proteger a base da chuva. 

  Se vocês olharem para uma fotografia da Serrinha por volta de 1917 quando foi urbanizada a praça principal todos aqueles sobrados foram construídos com o uso de adobes. Aos olhos de hoje em que as construções usam muito ferro, brita e cimento, pareciam frágeis, mas não eram. Duraram anos, alguns mais de um século e nunca caíram. 

  Os serrinhenses seguiam por intuição e necessidade, sem ler a bíblia ou seguir o que dizia o Velho Testamento, moldando o barro em abode (sendo o homem um vaso de barro que precisa ser corrigido) e argamassa de união; a pedra na forma bruta, mas também angular, isto é cortada, para se ajustar as bases construtivas e a madeira, como na Arca da Aliança, processada, lavrada e moldada de acordo com as necessidades e usos, na feitura de um portal ou de uma mesa. 

A madeira, dos três elementos, era o material mais versátil (a necessidade de transformação por Deus) e foi utilizada na mobilidade como roda, veiculo (a mesa de madeira do carro de boi e da carroça), arreios (cangas) e objetos mais variados desde a bengala que sustentava o homem velho a um berço para crianças.
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  A chegada do trem, em 1880, (como já vimos noutros capítulos a sua importância) iria mudar muita coisa uma vez que introduziu na Serrinha o uso do ferro na construção da estrada de ferro Salvador e Juazeiro, técnica construtiva de porte iniciada na Primeira Revolução Industrial, Inglaterra (1760-1850) e andamento na Segunda Revolução Industrial (1850-1945) 1850-1945) de intensa aceleração tecnológica e expansão do capitalismo, marcada pela introdução do aço, eletricidade, petróleo e motor a combustão, na Alemanha, EUA e Japão, trazendo produção em massa e novos meios de transporte e o imperialismo.

  O trem foi o carro chefe desse processo e em Serrinha chegou com o uso do ferro nos trilhos, na construção da estação, nas máquinas a vapor, na instalação da bomba no açude, mas, só vai ser usado em forma de ligas e chapas na construção civil no correr do século XX, provavelmente a partir de 1917, quando foi usado em grades nos sobrados e no coreto. 

   A história diz o seguinte: o marco Ferroviário (1854) no Brasil foi a inauguração da primeira estrada de ferro (Petrópolis/RJ) por D. Pedro II e o Barão de Mauá marcou a introdução de infraestrutura metálica (trilhos e estruturas de estações) em grande escala. A produção nacional de ferro industrial tenha começado no início do século XIX (como na Real Fábrica de Ferro São João de Ipanema), o uso em larga escala na construção civil dependia de importação até o desenvolvimento siderúrgico mais robusto no século XX.

    O concreto armado - utilização conjunta de ferro/aço para reforçar o concreto ganhou força nas primeiras décadas do século XX, com o fortalecimento da indústria siderúrgica nacional, como a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) nos anos 40, que impulsionou o uso de estruturas metálicas nacionais. 

    Em Serrinha, seguiu, portanto, esse caminho e só avançou na construção civil a partir dos anos 1940-1950 com o uso do cimento Aratu, que era exclusivo em vendas pela Casa Gonzaga.

   Já o uso dos vidros nas janelas se iniciou no Brasil com os holandeses, em Pernambuco, século XVII e em Serrinha já era usado no final do século XIX, como elemento de iluminação nos sobrados.

  Do ciclo ferro/vidro Serrinha só teve de relevância a primeira estação do trem substituída pela Rio Branco, em 1943, portanto, desapareceu do mapa, e não tivemos vitrais de relevância e a igreja matriz o edifício antigo mais velho da cidade não os tem.
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   Todo esse processo de mudança do adobe para o tijolo, da argamassa de barro para o cimento, do cimento para o aço/vidro, do uso da madeira e outros foi lento e mesmo hoje Serrinha ainda não usa a dupla vidro/aço nas suas construções, salvo em algumas estruturas, e persistem, ainda, em algumas áreas o uso do adobe.

   Vale observar que Serrinha é um município pobre do semiárido baiano e convive com desigualdades sociais enormes daí que é possível vê-se uma construção mais moderna e um casebre ainda no modelo construtivo de pau-a-pique (madeira em treliças e barro). Mas, no geral, o uso mais comum é a alvenaria com tijolos e o concreto armado (cimento/brita/ferro) momento em que meus avós não conheceram.

   Há de se dizer, com razão, que as novas tecnologias convivem com as velhas e ainda se usa bancos de madeiras com os que eram usados por Jesus Cristo e seus discípulos, há 2.000 anos.
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Último capítulo – as três gerações dessa época 1880-1910; 1910-1940; 1940-1960.