Cultura

SERRINHA NO TEMPO DOS MEUS AVÓS (1880-1960): O LOBISOMEM ERA O TERROR

Os principais personagens folclóricos eram o lobisomem, o rasga mortalha, o nego d'água do açude Gravatá, a mula sem cabeça e o bode preto (diabo)
Tasso Franco , Salvador | 29/01/2026 às 13:34
Meu avô Jovino enfrenta o Lobisomem
Foto: SERAMOV

 O Nordeste brasileiro é rico em personagens folclóricos. Há uma quantidade enorme deles povoando as localidades urbanas e rurais. Claro, embora sejam de ficção essas lendas e manifestações artísticas em geral são preservadas pelo povo ou grupos populacionais, por meio da tradição oral ou através de representações da dança, da música, em ilustrações da arte popular, na literatura, na dramaturgia e outros.

  No tempo dos meus avós (1880-1960) os personagens mais falados eram o lobisomem, o rasga mortalha, o nego d’água do Açude Gravatá, o boi barbatão, o bode preto (associado ao diabo) e a mula sem cabeça.

  Serrinha por não ter florestas, não incorporou o curupira – protetor desses locais e que tinha os pés virados para trás; nem o saci pererê com suas travessuras que aparecia em redemoinhos. Até o boi bumbá que envolve a morte e ressureição de um boi era pouco cultuado.

   Havia, ainda, muitos “causos” de assombrações pontuais como Maria Couro Seco – uma alma que gemia ao pé do Morro Guarani; bruxas ou fantasmas que montavam nas garupas dos vaqueiros, enfim, muitas lendas.

  Creio, no entanto, que os mais famosos da época dos meus avós foram o lobisomem – mistura de homem e bicho peludo com garras e dentes pontiagudos que devorava galinhas e outros bichos dos terreiros e das roças; e a mula sem cabeça que, no folclore nacional representa o fantasma de uma mulher que fez sexo com um padre e se transformou numa mula sem cabeça, e nesta parte do corpo saem labaredas de fogo.
Mas, não causa males maiores a ninguém, só medo.

  O lobisomem, sim, este era o terror porque além de comer as “criações” – galinhas, galos, carneiros, etc – ameaçava seus donos de morte quando alguns deles queriam repeli-los.

  Meu avô Jovino (já contei essa história no livro intitulado “O Lobisomem de Serrinha") teria lutado contra um deles que, certa ocasião, tentou levar e comer algumas de suas poedeiras.

  É vero que, em noite de lua cheia, que não sei precisar a data nem ele sabia (normalmente, as lendas têm esse viés) estava deitado com sua Roza, no aconchego do lar no sitio de sua propriedade (hoje, próximo ao Ponto do Araci, bairro da Rodagem) quando ouviu um cacarejo estranho das poedeiras e do galo pedrez, desconfiou da zoada excessiva, cutucou Roza que dormia a sono pleno, dizendo no seu pé do ouvido que “as galinhas estão assanhadas e pode ser alguém querendo rouba-las”.

  Roza não deu muita atenção ao que ele falava e mandou que se aquetasse, fosse dormir, que aquilo não era nada.

  A zoadeira, no entanto, aumentou e meu avô se sentou na beira da cama, enfiou os pés nas botas, levantou-se, cobriu-se com uma capa colonial, acendeu um candeeiro, pegou a espingarda lazarina que estava municiada de chumbinhos e chuliadeiras e disse a Roza – a essa altura de olhos abertos – que ia ver o que se passava no galinheiro.
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  Em chegando nas proximidades após abrir a porta do fundo da casa que dava no terreiro e no galinheiro viu um vulto negro enorme com duas poedeiras em mãos, nas suas garras afiadas, as galinhas pedindo socorro e perguntou: “Quem está ai” e o vulto, que segundo ele, era um lobisomem, deu um urro assustador e se direcionou para ataca-lo, quando colocou o candeeiro num prego do alpendre e atirou em direção a fuça do bicho homem, a espingarda que era boa e de cano longo provocou um estampido alto, minha avó Roza se levantou apavorada gritando “valha-me Deus”, os chumbinhos teriam atingido os cornos do bicho que soltou as galinhas e, em seguida, avançou em direção ao meu avô, que mesmo se desviando do monstro recebeu uma lanhada na altura das costelas e só não morreu porque o capote colonial que usava, o protegeu e a horas tantas, minha avó Roza apareceu no terreiro com uma cruz em mãos e o bicho quando viu a cruz saiu em disparada, pulou a cerca e sumiu na escuridão.

   Ainda de acordo com meu avô foi um panavoeiro de cinema, cena de filmes de Roy Rogeres ou de O Zorro, mas felizmente seu ferimento foi leve e depois bem cuidado por Sêo Cosme da Farmácia. 

  Uma das galinhas teve que ser sacrificada porque ficou muito ferida e foi levada à panela e cozida de ensopado com verduras, no dia seguinte ao acontecido, a tela do galinheiro foi consertada por um homem chamado Eliotério e a lazarina foi recarregada com chumbinhos comprados na venda de Sêo Isidório.

  Depois, meu avô conversando com outro roceiro da área, chamado Oséas, este disse que também já tinha lutado com esse mesmo lobisomem que, ao que sabia morava no bueiro da Transnordestina, no bairro da Rodagem, porém, depois dessas confusões se mudou para viver no pontilhão da Bomba, isto é, embaixo do pontilhão, já visto por lá e assombrando jovens dos bairros Treze e Bomba que fumam uns baseados por lá.

  Isso é o que sei do lobisomem, mas tem muitas outras histórias e um deles era viciado em comer restos da produção da farinha na localidade da Baunilha; outro andou aprontando na Barrocas; e um bem alto era o terror do João Vieira, povoado do distrito do Razo. 

   Portanto, são muitos e quem quiser que duvide. Eu acredito e até imortalizei-os nos meus livros como personagem intitulado “Lobisomem de Serrinha”, agora, também, na tirinha do Seramov.
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   Outro personagem também muito famoso era o “Nego d’Água do Açude Gravatá”. Meus avós não falavam dele, até porque moravam distante deste açude e quando nasceram e eram adolescentes, o açude não existia, a Serrinha era uma localidade que predominava a seca e o nego d’água é comum em lugares com rios, sobretudo em localidades às margens do Rio São Francisco, que, como vocês sabem tem 2.768 km de extensão, nasce na Serra da Canastra, em Minas Gerais, e atravessa territórios de cinco estados – Minas, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe – e desagua no mar entre esses dois últimos estados. 

  Ao longo do São Francisco existem muitas cidades e as pessoas são chamadas de ribeirinhos e o “Nego d’Dágua” se transformou na figura do folclore deles, descrito como um ser anfíbio, negro, careca, com pés e mãos de pato, que habita o fundo do rio.

  É conhecido por assustar pescadores, virar canoas e rasgar redes, exige oferendas como fumo e cachaça para deixa-los pescar, e em Juazeiro, há estátua de 12 metros erguida no rio em sua homenagem.

  Com a construção do Açude do Gravatá entre a primeira e a segunda décadas do século XX diz-se que alguns operários, que eram negros, morreram durante a obra e foram sepultados no local. Quando o açude ficou pronto e encheu durante as trovoadas de novembro, aos poucos o local recebeu peixamento e, já na década de 1930, surgiram pescadores que se beneficiavam com a pesca e venda dos peixes. Foi então que o “Nego d’Água” teria emergido das catacumbas e cobrava pedágio aos pescadores e quem não pagava com fumo, pinga e missangas – espelhos, perfumes, etc – ele furava as redes e virava as canoas.

  O ex-vereador Nelinho – que muitos dos meus leitores conhecem e sua esposa ainda é viva e mora no bairro Novo Horizonte – certa ocasião me contou que, sendo homem da terra (e não do mar ou de rios) nunca viu o “Nego d’Água”, mas, amigos seus do antigo bairro Matadouro, um chamado Pedro; outro chamado Otílio pescavam no açude e contaram que tiveram suas canoas viradas porque não pagaram o pedágio e chegaram à margem do açude nadando, feito cachorrinhos, e mesmo na terra, levaram um carreirão do “Nego d’Água” até as proximidades de um local onde hoje se localiza o Bar da Curva.
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  Outro personagem da época dos meus avós que amedrontava a população da Serrinha era um bicho voador, uma ave, corujão ou gavião, o “Rasga Mortalha” que passava grunhindo sobre alguém em voo rasante e aquele que o bicho sobrevoasse, estava com os dias contados para morrer. Muita gente se assombrou com isso e existem vários “causos” narrados por moradores do antigo Largo da Usina e ruas nas imediações do cemitério.

  Essa lenda é bem antiga e não saberia dizer como chegou a Serrinha. Entre os anos 1950-1960 – da minha adolescência – a gente (eu e minha turma da praça da Usina) tinha um medo enorme do “Rasga Mortalha” e nossa sorte era que a ave só atuava às noites e a gente não saia nessas horas, salvo nas festas de Sant’Anna, Natal e São João.

  A lenda se espalhou pelo Nordeste (não é típica de Serrinha) quando uma carpideira (choradeira de defunto) filha de um feiticeiro chamado Eliel, que se chamada Suindara (coruja branca) namorava Ricardo – filho da condessa Ruth; e foi morta a mando dela.

  O pai de Suindra descobriu o motivo do crime e realizou um ritual onde um espírito jovem entrou na estátua de uma coruja que havia no túmulo de Suindara, essa coruja voou para a sacada da janela da condessa Ruth (rasgando a mortalha em gemidos ráááá) e quando o dia amanheceu Ruth estava morta e suas vestes rasgadas.
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   Quanto a “Mula sem Cabeça” há muitas histórias na Serrinha de gente que a viu em vários lugares. Fala-se que as mais famosas foram as de João Devoto e Dionísio Rico. Não saberia dizer se é verdade e meus avós nunca falaram delas. Minha avó Leonor dizia quando perguntavam a ela sobre essas assombrações que “é tudo bobagem do povo”.

   Mula sem cabeça é um personagem do folclore brasileiro muito popular cantada e versada em cordéis e livros. Segundo a crença popular é a assombrado de uma mulher que fez sexo com um padre. Como punição foi condenada a se transformar numa mula sem cabeça.  Se isso fosse vero, quantas mulas existiram hoje no Brasil? 
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  Por fim, havia o boi barbatão ou valentão que povoou o território da Serrinha, ao vivo, em cada lugar tinha um deles, que causava medo e os vaqueiros não queriam conversa com ele. Agora, quando um grupo de vaqueiros o enfrentava e dominava, era conversa para a noite toda ao pé da fogueira, cada qual contando sua arte para dominar o boi.

  Sobre o bode preto era a representação do diabo e os fazendeiros não gostavam de tê-los em suas roças. Totalmente inocente, salvo aqueles que mandaram incendiar os depósitos de sisal na Serrinha. 
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  Há, em Serrinha, mais recente e fora dos tempos dos meus avós, um folclore cantado do Pavão Misterioso, no Mocambo, coordenado por uma senhora chamada Alaide (Dona Lai) e o grupo Pavão Dourado, de Maria José do Nascimento dos Santos (Bibi).

   A história do “Pavão Misterioso” é um clássico da literatura de cordel que narra a aventura de um jovem – Evangelista – que se apaixona por uma donzela – Creuza – que a rapta usando um aeroplano em forma de pavão. Dois autores – José Camelo de Melo Rezende  e João Melquiadas Ferreira – disputam a autoria.

   Em 1974, o cantor cearense Ednardo ficou famoso no Brasil com a gravação da música “Pavão Mysteriozo” que integrou a novela “Saramandaia”. Ney Matogrosso com sua interpretação rebolativa e sensual a imortalizou.

  Creio que, ao lado do lobisomem é a figura folclórica mais cantada e com criações artísticas em xilogravuras, gravuras, desenhos e óleos. O pavão, claro, é mais belo que o lubi. Mas, há lubis mui belos como o Lobisomem de Serrinha.

**** Próximo capitulo (penúltimo) o barro, a madeira e a pedra