Durante mais de 200 anos, Serrinha teve apenas o ensino primário (público e privado) e alcançou o segundo grau (ginasial), em 1952
Tasso Franco , da redação em Salvador |
14/01/2026 às 15:30
A professora Milú de Laboré e 24 alunos, 12 brancos e 12 pretos, 1915
Foto: Arquivo pessoal
18. EDUCAÇÕES: CASEIRA, PRENDAS E ESCOLAR; A CARTA DE ABC E A PALMATÓRIA
A Bahia teve um dos primeiros colégios do Brasil logo no inicio da colonização quando os jesuítas solicitaram ao governador geral, Thomé de Souza, em 1550, autorização para construir estabelecimento de ensino fora dos muros da fortaleza, atual praça da Sé, em Salvador. E assim foi feito e se tornou crucial na formação de jovens da Colônia uma vez que alguns alunos eram tupinambás.
Daí até a implantação do primeiro colégio público de ensino médio - Colégio da Bahia, conhecido como Central - em 1837, se passaram 287 anos. Inaugurado no governo provincial de Francisco de Souza Paraiso já vinha sendo construído desde 1832 copiando o modelo dos liceus franceses no governo Joaquim de Vasconcelos, em período de instabilidade na Província.
A Bahia também tinha sido pioneira no ensino de nível superior. Diante da expulsão da família real de Portugal pela invasão francesa de Napoleão Bonaparte, 1808, Dom João VI quando de passagem pela cidade do Salvador com destino a capital da Colônia, Rio, desde 1763, fundou uma Escola de Cirurgia, depois Academia Médico Cirúrgica, em 1913; e Faculdade de Medicina, em 1932, funcionando no prédio do Colégio dos Jesuítas onde também havia as dependências de um hospital militar.
Então, vocês podem perceber que o ensino público no Brasil foi nascendo por golfadas, a mercê e boa vontade desse ou daquele governante.
As primeiras leis organizando o ensino público no país surgem após a Independência, com destaque para a Lei de 1827, que estabeleceu a criação de escolas de primeiras letras em todas as cidades e vilas, definindo o método de ensino mútuo e o Dia do Professor; posteriormente, o Decreto de 1854 (Reforma Couto Ferraz) buscou universalizar o ensino primário e organizar o magistério.
No século XX, a Lei nº 4.024/1961 (primeira LDB) fixou diretrizes nacionais, e a Lei nº 5.692/1971 profissionalizou o ensino médio, marcando a busca por um sistema mais estruturado e abrangente.
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Dando um corte para chegarmos ao tempo dos meus avós em Serrinha (1880-1960) o povoado começou a ser organizado a partir de 1723. Quando Dom Pedro I editou a lei de 1827, Serrinha era arraial desde 1780.
Só vai ser elevada a Distrito de Paz em 1838 com a nomeação de um Juiz de Paz, Miguel Carneiro da Silva Ribeiro (Pai Geza) e a organização de um Conselho Municipal. Era esse Conselho que administrava o arraial.
O município se emancipa de Irará, em 1876, e a nomeação do primeiro intendente dá-se em 3 de março de 1890, mas, não conseguimos informações para saber se a lei das escolas primárias fora cumprida em Serrinha e qual a primeira escola pública implantada.
Veja que entre a lei de Dom Pedro I instituindo as escolas primárias (1827) e a posse de Mariano Ribeiro como primeiro intendente (1890) se passaram 63 anos.
Serrinha não era o Rio de Janeiro (capital do Império) nem Salvador e sim um arraial e vila do interior da Bahia onde não havia fiscalização para cumprimento da lei.
É provável que, com a instalação do Conselho Municipal (1838) tenha surgido alguma escolinhas na área urbana para atender, ao menos, aos filhos da elite dirigente do arraial. Mas, essa informação não é precisa, porque não consegui documentação ou registro dela.
Meus avós nasceram no período que vai de 1880-1890 e certamente só foram alfabetizados graças a instalação da Intendência (Prefeitura) quando vão surgir as primeiras escolas públicas, mas, também os registros delas são orais.
Meu pai, que nasceu em 1910, disse-me que foi alfabetizado pela professora Milu de Laboré e há um registro da turma com a professora (vide foto), mas, ainda assim, não tirei a dúvida (na época que conversei com ele) se era escola pública e/ou privada. Ao que tudo indica era pública.
Havia, ainda, no inicio do século XX, a escola da professora Fara Baltazar da Silva (Rua da Estação, 1915), substituída por Rita Marques, e uma escola do professor Orlando Meireles, ambas, particulares.
De registro oficial, em 10 de outubro de 1895, o governador Joaquim Manoel Rodrigues Lima dividiu o estado da Bahia em 24 distritos escolares e Serrinha era a sede do 12º Distrito, n meando o professor Inocêncio Alves da Rocha (para sede) e Josephina Carolina de Araujo para o distrito da Manga (Biritinga)
O “Jornal de Serrinha” registra a instalação da Escola Moderna, 1917, sita na Rua Conselheiro Dantas, do professor Raimundo Gomes, pai do advogado Aristóbulo Gomes, redator do JS”.
Em 4 de agosto de 1919, o advogado Alcindo Camargo inaugura o Colégio Rio Branco, na Rua Pinheiro da Mota que era misto, pois, à noite, ministrava aulas de habilitação a empregos comerciais e públicos e de adaptações a escolas superiores e a “gymnásios e escolas normais” – assim era sua propaganda.
Publicava no “JS” o desempenho do alunado: Curso elementar, 1º lugar – Olinda Nader; 1º lugar – Carolino Valadares; Cursos inferiores: 1º lugar José Nogueira; 1º lugar Eulina Paes.
O “JS” em editorial edição do número 76, 29 de março de 1919, sem citar nomes de escolas e professores publica um texto intitulado “A anomalia do ensino” e diz: - A instrução entre nós, é um dos mais difíceis problemas enquanto a sua solução depender da falta de escrúpulo dos paes da família, muitos dos quaes, fazendo desconhecer os primordiais elementos para o alicerce sólido do intelecto das crianças, sacrificam a memória dos seus filhos, entregando-os a improcedência de certos ercadejadores da arte melindrosa de ensinar.
O que o “JS” denuncia é que o poder público era omisso e criticava: - Verdade é que em
todas as classes o charlatanismo medra e faz tenda, preterindo o direito de quem o tem por uma ridícula retribuição dos que preferem ser servidos de um modo deficiente e duvidoso () E enquanto cada um não compreender que indiscutivelmente o ensino primário claro, intuitivo, methodisado e pedagógico é o alicerce inabalável de todas as vidas profissionais, teremos sempre o ensino anômalo, defeituoso, inutilizado.
Observe, pois, quão antiga é essa questão, ainda hoje, persistente em nosso meio.
Mas, também há de se dizer que, naquela época ou no tempo iniciais dos meus avós, a Serrinha teve algumas escolas e professores e professoras destacadas, tais como as já citadas Moderna e Ruy Barbosa, professor Piedade, professor Posidônio Dias Coelho, professora Aurea Nogueira, Escola Reunidas de Eunice Paes, professora Anita Ferreira, Didia Brasil Alves da Silva (primeira vereadora de Serrinha), Elvira Mota, Florinda Castro, Astrogilda Paiva Guimarães e tantas outras heroínas sem causa, cuja missão era educar com o ensino das primeiras letras ainda com a carta do ABC e informações gerais.
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No geral, a educação era dividida em 3 bases ou alicerces: a familiar (também conhecida como caseira ou de berço); a prática (hoje, chamada profissionalizante); e a escolar (através da escola). Cada uma delas tinha seu valor e eram complementares.
Na educação familiar os pais ensinavam os filhos maneiras de se comportarem, respeito aos mais velhos, posturas éticas em relação a honradez – não roubar, não matar nem humanos nem animais, etc – respeitar o próximo, vestir-se e pentear-se adequadamente e assim por diante. Algumas famílias eram mais rigorosas do que outras e os códigos variavam entre as áreas rurais e urbanas.
Alguns pais adotavam castigos para os filhos, punições às vezes rigorosas com surras usando cintos, proibições, tudo a depender das infrações. Dava-se também bolos nas mãos com palmatórias de madeira – em casa e nas escolas – e castigos mais severos como ficar ajoelhado com joelhos postos em caroços de milho e o rosto virado para uma parede.
Lembro que quando entrei na escola primária aos 7 para 8 anos de idade, a Agripino Barbosa, que ficava localizado onde se situa o Semes, minha mãe me escovou dos pés a cabeça, me arrumou todo – calça curta e camisa branca de mangas curtas - penteou o pimpão, pôs a lancheira à tiracolo, calçou minhas alpercatas e foi me levar, isso em 1952/53.
Quando entrei no ginásio, em 1957, foi outro patamar, nova faxina, uso da calça comprida, camisa branca, gravata e blazer caqui, meias e sapato de couro, sem lancheira e eu mesmo fui sozinho. Mas, claro, ouvi as recomendações dos meus pais para me comportar de forma decente, agora, como um rapaz. Palavras de minha mãe: - Você agora é um rapazinho.
Nessa educação caseira os pais também ensinavam aos filhos como se comportar numa mesa, como comer usando talheres e as formas de manusear o garfo e a faca, como respeitar os irmãos mais velhos e assim por diante, como degustar uma sopa sem zoar a boca como se estivesse chupando alguma coisa. Enfim, vários modos de comportamentos.
Era frequente ouvir-se nas ruas ou em salões quando alguém destoava para um comportamento estranho ser chamado de “mal educado”; ou de “não teve educação caseira”. E, o contrário era o elogio a um menino (a) educada, este” teve boa educação de berço”.
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Já a educação prática era aquela transmitida pelos pais aos filhos ensinando-lhes uma profissão, quase sempre, ou regra geral, as deles. Ou seja, o pai era marceneiro e ia ensinando ao filho a arte da marcenaria; pai comerciante, filho comerciante; pai farmacêutico, filho farmacêutico; pai dentista, filho dentista.
Essa regra foi muito adotada, mas, nem sempre seguida. Meu avô paterno, João, era comerciante e meu tio Aderaldo foi ser comerciante; meu avô paterno Jovino era produtor rural e comerciante, meu pai foi ser produtor rural e comerciante, mas, mudou o rumo ao adotar o jornalismo autodidata; e eu, neto de Jovino, já fui comerciante e sou jornalista.
Essa regra geral foi se alterando com o crescimento da cidade, surgimento de novas profissões, mudanças de hábitos, mas, ainda assim, até os dias atuais tem raízes que se mantém. Eu presenciei muito essas mudanças e alguns dos meus colegas seguiram as profissões dos pais; outros, não.
O primeiro curso profissionalizante de Serrinha foi o de “prendas” ministrado pela senhora Vitória Gomes, 1917, instalado na Escola Moderna, na Rua das Abóboras. O “JS” não explica que tipo de prendas ensinava, se domésticas (é provável que tenha sido essa especialidade, incluindo a arte de arrumar uma casa, se vestir, cozinhar, etc) ou gerais – com dança e arte.
Logo depois, em 1919, a Escola Moderna instalou cursos a noite para ensinar a arte de ingressar no serviço público e no comércio e se preparar para o ginásio.
Em 1925, surgiu a grande novidade, um curso de datilografia em máquinas Remington, o top de linha da época, dirigida por uma mulher Eremita Barbosa de Castro.
Em 1940, surge outra escola de datilografia, dirigida também por uma mulher Alice Beatriz de Carvalho (Ziza), onde aprendi essa arte nos anos 1950 com a senhora Ziza.
A datilografia era o computador desse tempo, uma maneira de escrever e copiar textos muito mais rápido do que com a caneta tinteiro. São essas máquinas que vão aposentar as canetas tinteiros e depois, já na década de 1990, são aposentadas pelos computadores embora o modelo de bater as teclas (asdfg, cada tecla sendo acionada pelos dedos da mão esquerda, etc) seja o mesmo, copiados dos EUA e nunca alterado.
Ao longo dos anos foram surgindo ouros cursos profissionalizantes muitos dos quais por correspondências desde eletricistas a técnicos para consertar rádios, detetives de polícia e outros.
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Na educação escolar o grande impacto na cidade foi a instalação do Ginásio Estadual do Nordeste projeto do deputado federal Rubem Nogueira, 1952, no governo Régis Pacheco.
Até então e durante mais de 200 anos, Serrinha só tinha ensino primário e partir daí, a localidade implantou o ensino secundário. E, o mais relevante ainda, em 1956, implantou-se a Escola Normal que era a formação de professores em nível secundário.
Meus avós a essa altura já estavam velhos, nos finais de suas vidas e não desfrutaram desses benefícios, e meu pai, aos 42 anos de idade, já com 4 filhos, também não. Coube-nos estudar nesses colégios.
Foi um salto, um “up-grade, algo fantástico e que permitiram novos sonhos, novas realizações. A Serrinha, pois, formava professores e professoras e muitos e mutas deles e delas foram ensinar no “liceu” que passou a se chamar Ginásio Rubem Nogueira e depois Colégio Estadual Rubem Nogueira e também na própria Escola Normal, pois, não se exigia, até então, nível superior.
Assim foi em linhas gerais, a educação no tempo dos meus avós (1880-1960) da qual participei durante 15 anos em que convivi com eles e fui aluno do primário na Agripino Barbosa com a professora Edna Santos e depois no Grupo Escolar Graciliano de Freitas, com Eneida Ferreira, ambas de saudosa memória, a primeira filha de Manoel Chileno e irmã do ex-prefeito Horiosvaldo Bispo dos Santos (Lourinho) e a segunda de Emilio Ferreira e irmã de Evoá Ferreira, também minha pro de Ciências no Ginásio.
Tempo em que os meninos e meninas tinham apelidos de todo tipo, o tal “bullyng” que, nos dias atuais tanto apavora, mas, que tiramos de letra, eu, por conseguinte apelidado de “Olho de Boi”, Adelson Nogueira, era o “Espirro”, Antonio Carlos Magalhães (filho de Titi) era o “Boi”; Jefferson era o “Carrapato”; Casrlinhos, o “Bacalhau”; Miro, o “Pezão”, etc e ninguém morreu por isso nem procurou um psicólogo (a) para se orientar, pois, na Serrinha, nessa época sequer existia.
E meus avós lá se foram para outra esfera espiritual vendo a Serrinha dos Sertões dos Tocós mudando de cara e de comportamento.
**** A foto da matéria mostra a professora Milú e 24 alunos sendo 12 pretos e 12 brancos o que demonstra ser uma escola democrática. Os alunos e alunas todos de botinhas e usando meias, os homens de terno e gravatas compridas e no estilo borboleta, meu pai o primeiro a esquerda, em pé, vestido de marinheiro. Não sei onde minha avó Roza conseguiu essa roupa pois a Serrinha não tinha mar. Quando meu pai me deu essa todos os anos 1980 ele marcou com uma cruz aqueles que já tinha morrido, por isso aparece essas cruzes. Dá pra ver, entre pessoas que também conheci, os irmãos Ramos, Profeta pai de Edmundo Bacelar e um Nogueira. A foto é de 1915 e não sei (nem ele lembrava) quem foi o autor da proeza.
*** Próximo capítulo: o burro era a hilux da época dos meus avós