Cultura

ÚLTIMA CRÔNICA DE DOM FRANQUITO EM ALAIDE FOI EM 2015: XINXIN GALINHA

Crônica de Dom Franquito de 31 de julho de 2015
Tasso Franco ,  Salvador | 31/01/2022 às 17:31
Xinxin de Galinha
Foto: BJÁ 2015
  Tenho um apreço muito grande com o Centro Histórico de Salvador.

   Em qualquer país é o local das cidades mais valorizado, mais visitado, mais exaltado, porque é onde se encontra a história, a raiz, a origem, a vida inicial da urbe.

   Ir a Roma e não visitar o Coliseu é como faltar algo à viagem. Conhecer Barcelona e não descer na antiga Bercino, ainda da época dos romanos, é como visitar Salvador e não ir ao Pelourinho não descer e subir o Elevador Lacerda, não andar na Rua da Misericórdia, transitar pela Sé e na Pão de Ló, atravessar a rua do Bispo, papear na praça do Terreiro de Jesus.

   A história de Salvador está concentrada aí, no coração da cidade, embora, nos seus primórdios, quando ainda não fora erguida a cidade fortaleza por Thomé de Souza, o povoamento inicial euro-tupinambá se deu na Aldeia dos Franceses, no Rio Vermelho, e na Barra.

   Esse é um assunto que deve ser sempre discutido porque os historiadores baianos, em 1949, num Congresso de História do IGHB resolveram apagar esse momento e só consideraram Salvador a partir de 1549.

   Paciência! Preguiça de pesquisar! Burrice!

   No Pelourinho, ainda hoje, mesmo com a retirada dos moradores e das prostitutas que o mantiveram em pé durante anos após sua decadência, pós fase colonial, o local tem vida, tem gente, tem personagens que se assemelham aos descritos pelo escritor Jorge Amado em seus livros.

   Como meu assunto é gastronomia com ambientação histórica, com comportamento, hoje vamos falar do Restaurante de Alaíde do Feijão, cozinheira que está estabelecida há 35 anos no Pelourinho vendendo feijoada. 

   Sua história vem do tempo em que as mães-pretas vendiam feijoadas nas ruas e praças de Salvador, nos bairros e no centro, como meio de vida e ganho para o sustento das familias. A familia matriarcal - comum em Salvador - onde as mulheres trabalham mais do que os homens.

   Alaíde da Conceição diz que nasceu colada na saía da mãe que vendida sua feijoada na Praça Cayru, nas proximidades do antigo Mercado Moedelo. Ela e outras. Assim como havia aquelas que vendiam na cidade-alta nos contornos da Adjuda e do Tabaris onde havia vida noturna e os frequentadores - boêmios e trabalhadores - saiam dos bares e boites com fome.

   Vida dura. O panelão da comida era feito em casa. Depois transportado de ônibus - nos antigos mistos - até os locais de venda. Depois surgiram as kombis e o transporte ficou mais facilitado e até algumas kombis viraram restaurantes.

   Alaíde chegou ao Pelourinho na Rua 12 de Outubro, ao lado da Ordem Terceira do São Francisco, como espaço alternativo da boemia, local de encontro dos negros que participavam das manifestações da cultura popular baiana - o Carnaval, a terça da benção, as festas de largo, etc - ponto de ativistas, sempre bastante frequentado no hora do almoço e do happy-hour.

   Recentemente, dentro de um programa do IPAC, seu restaurante foi estabelecido na Rua Larajeiras, 28. O espaço dá mais visibilidade ao empreendimento, conforto à clientela e infraestrutura para manifestações culturais, além de atender a uma antiga demanda da comunidade, cuja luta teve à frente lideranças como João Jorge, do bloco afro Olodum.

   Frequento o Alaíde há mais de 20 anos, creio que levado por mãe Tanira de Yemojá, e retornei na semana passada na casa nova para saborear um xinxim de galinha com feijão, arroz e farofa.

   Prato simples, bem baiano, popular e delicioso.