quinta-feira, 21 de outubro de 2021
Cultura

PAÇO IMPERIAL DE SERRINHA DESABA HÁ 30 ANOS E A HISTÓRIA PEDE SOS (TF)

O prefeito Adriano Lima pode entrar para a história ou apenas passar pela história.
Tasso Franco , da redação em Salvador | 05/09/2021 às 10:48
Paço Imperial fechado e caindo aos poucos
Foto: BJÁ
    Em 21 de dezembro de 1915, por decreto do governador J.J.Seabra, o tenente-coronel da Guarda Nacional Luís Ozório Rodrigues Nogueira foi nomeado intendente em Serrinha (cargo, hoje, equivalente a prefeito). Era filho do sergipano Antonio Rodrigues Nogueira que chegara a região por volta de 1878 para trabalhar na estrada de ferro trecho Água Fria-Serrinha. 

  A estrada Salvador até Serrinha foi inaugurada em 1880 e Antonio casou-se com Maria José de Carvalho Ribeiro (Michelina), irmã do primeiro intendente Marianno Silvio Ribeiro. Daí nasceu Luis, em 1882, nomeado intendente (1916/1920) aos 33 anos de idade e já casado com Áurea Herminia Ribeiro.

  Em Serrinha, nessa época, a familia mais importante (politicamente falando era a Ribeiro), do pai Geza, Miguel Carneiro Ribeiro, pai do 1º intendente, Marianno Silvio Ribeiro. Antonio Rodrigues Nogueira se aliou aos Ribeiro, o mesmo fazendo Luis, por casamentos. Daí para chegar ao topo do poder foi um pulo com alianças aos seabristas e ao presidente Epitácio Pessoa. 

  Luis, no entanto, vai ter vida própria na política e depois um dos seus filhos, Rubem Nogueira, chegou a ser deputado federal. O importante, no entanto destacar é que Luis realizou uma das obras mais importantes de Serrinha em sua história republicana, a urbanização da praça Manoel Victorino, com 13.500 metros quadrados sendo 270 m de comprimento e 50 metros de largura. 

  Mas, como conseguiu esse milagre antes de terminar seu primeiro mandato, em 1920? Com recursos próprios da Prefeitura e uma ajuda de Seabra.
  
   Reuniu a prata da casa - Ascendino Pereira, Paulo Bertoldo, Antonio Carlos Varjão e 88 artífices - e construiu 3 jardins, calçou a praça com pedras cabeça-de-negro, plantou os oitis em redor e o paço municipal (da época da monarquia) foi reformado e no topo colocado uma águia, e mais instalou um coreto, fonte e globos de iluminação. Francisco Wenceslau cuidou do ajardinamento e da canalaização da água. A inauguração da praça foi algo deslumbrante e em beleza e arte só perdia para a de Santo Amaro. 

  Então, a propósito dessas linhas iniciais, não se entende como Serrinha, hoje,com um orçamento anual beirando R$200 milhões não consegue recuperar o prédio imperial do Paço, esse mesmo que Luís Nogueira colocou a águia no topo, em 2018, com seus recursos próprios. Por que deixam um prédio tão valioso, local onde era a casa do fundador da cidade, Bernardo da Silva, desabar há 30 anos telhas sob telhas, caibro sob caibro?

  Vou dar mais um exemplo de obras realizadas com recursos próprios na gestão Carlos Mota (1959/1963) quando promove o calçamento de diversas ruas na cidade e remodelou a praça Manoel Victorino (a essa altura já denominada Luis Nogueira) com jarros, neons, fontes luninosas, pedras portuguesas, bancos estilosos, parque infantil e outros. A praça Luis Nogueira e o paço municipal eram consideradas orgulho de Serrinha e da Bahia. Poucas cidades do interior tinham algo parecido.

  A partir dos anos 1980 o paço começou a definhar. Na gestão Ferreirinha a sede do Paço passou a ser instalada no Palacte Nogueira (antiga morada de Luis), depois mudada para outro local e já está numa terceira sede, no prédio do antigo Fórum Luis Viana Filho. 

  E o Paço original, imperial, um dos sitios mais importantes da história de Serrinha segue desabando. Um povo não vive nem se sustenta sem preservar a sua memória. Povoado, vila e cidade sem história não existem. 

   No inicio do século XX, Paris, para mostrar sua pujança numa feira mundial ergeu a Torre Eifel, ainda hoje, mais de 100 anos depois o principal monumento da cidade, era o top da tecnologia em ferro do inicio do século XX. Milhões de pessoas/ano visitam essa torre com museu, restaurantes e uma vista deslumbrante de Paris.
  
  Assim é a história. Em nossa capital, o Elevador Lacerda, construido pelo engenheiro Antonio de Lacerda, no final do século XIX (antes da Torre Eifel) é o monumento mais importante e mais querido de Salvador. Agora, a prefeitura entrega reformado o elevador do Tabuão. É assim que se preserva a memória de uma cidade, de um povo.

  O prefeito Adriano é jovem e tem carreira política promissora pela frente. E essa missão - que considero das mais simples - reformar e dar vida ao Paço Municipal de Serrinha. Se fizer isso, entra para a história. Se não fizer, apenas passará pela história. (TF)