quarta-feira, 23 de junho de 2021
Cultura

HISTÓRIA DO BAIRRO DA BOMBA, O SEGUNDO MAIS ANTIGO DE SERRINHA, p TF

Bairro nasce com esse nome graças a uma bomba d´agua num açude na zona Oeste da cidade
Tasso Franco , da redação em Salvador | 01/06/2021 às 10:27
Vanuza de Sêo Adão e Eliane, na década de 1980, em pose na boma
Foto: REP
    O bairro da Bomba é o 2º mais antigo de Serrinha e algumas de suas áreas se confundiam, na origem, com o Centro Histórico, hoje, Centro. Nasceu com a implantação da Estrada de Ferro inaugurada em 18 de novembro de 1880, ainda no Império, com Dom Pedro II. A Vila de Senhora Sant'Anna de Serrinha era a maior localidade entre Alagoinhas (Estação São Francisco) e a Vila Nova da Rainha (Senhor do Bonfim), portanto, precisava ter uma base para as máquinas - oficina de consertos, engenharia, residências - e a necessidade de água para abastecer todo esse sistema. 

  Ademais, a linha do trem estava prevista no projeto original da Junta da Lavoura para ir até Juazeiro. De Serrinha e Bonfim as obras duraram mais 7 anos e entre Bonfim e Juazeiro mais 9 anos (1896). A base inicial de apoio a extensão da linha até Bonfim - Barrocas, Santaluz, Queimadas - era Serrinha e o governo imperial decidiu construir um açude à jusante da estação, área Oeste da Vila com a missão de fazer esse abastecimento. 

  Depois de pronto o açude, a Rede Ferroviária iniciada no Brasil pelo Barão de Mauá (Estada de Ferro Petrópolis, 1854) colocou uma bomba manual para levar água às máquinas, ainda nos troleys - uma espécie de carroça ferroviária com quatro rodas movido a mão - que levavam a água em tonéis (ou bombonas).

  As locomotivas - apelidadas de Maria Fumaça - eram impulsionadas por um motor a vapor composto por caldeira, responsável por produzir o vapor com energia (lenha ou carvão), a máquina térmica, transformando a energia do vapor em trabalho mecânico e a carroçaria. 

  Era um trabalho braçal duro, infernal: o combustível (lenha seca) era queimado na fornalha (colocada manualmente), o calor da queima passava para a caldeira (é ai que entra a água) que, ao ferver, gerava vapor, se acumulava no Domo criando pressão para movimentar os cilindros fazendo a máquina andar nos trilhos. 

  Esse sistema precisava de dois elementos chaves: combustível (lenha) e água. E, claro, um operador capacitado para controlar as pressões dos gases quentes gerados através dos tubos da Caldeira para dentro da Caixa de Fumaça, de onde eram expelidos para cima, através da chaminé. Por isso as máquinas eram chamadas de Maria Fumaça.

  Em Serrinha, a máquina 500 explodiu na estação exatamente por descontrole dessa pressão.

  As bombas manuais que, na origem, abasteciam as máquinas, foram substituidas por uma bomba hodráulia enorme (vide foto) movida a óleo diesel que transportava a água por canos de metal até uma caixa d1água construida a 100 metros da estação (na direção Leste) e através de uma mangueira abastecia as máquinas, a estação que possuia um salão de passageiros, bar, sanitários, o Hotel da Leste e as casas dos ferroviários. 

  É exatamente a partir dessa bomba que a população da vila e depois da cidade (a partir de 1891) apelida o reservatório de água da Leste Brasil com o nome de Açude da Bomba. E, com o passar dos anos, o bairro passou a ser chamado e efetivado na divisão territorial como Bomba. Com o advento das locomotivas a óleo diesel a bomba entrou em desuso e o sistema ferroviário, como um todo, entra em decadência quando o Brasil adotou de forma mais dinâmica o sistema rodoviário, em Serrinha, com Mário Andreazza e a abertura da BR-116 Norte (Rio-Bahia) asfaltada. 

  O BAIRRO DA BOMBA

  Até Serrinha ainda Vila e depois na República Velha (1891/1930) o bairro da Bomba não existia com essa designação. Tudo era Serrinha nessa área Oeste da Cidade. Já nos anos 1960/1980 uma parte dessa área da cidade passou a ser conhecida como Coréia, zona de prostituição, com o Cabaré do Viana e boites de Zinho e Cecílio. Ganhou esse nome em função da Guerra da Coréia, meados da década de 1950, com a invasão dos EUA e a divisão da Coreia em duas, do Norte e do Sul. A Coreia serrinhense se concentrava em duas ruas e no beco da Galinha Morta e se estendia, numa delas, até a Getúlio Vargas (linha do trem). Na década de 1990, a Coreia deixou de existir e uma dessas ruas, hoje, chama-se Bernardo da Silva (fundador do povoado).

  A formatação do bairro da Bomba é a seguninte: o eixão longitudinal (Sul/Norte) é a Avenida Manoel Novaes. O que está à direita da Manoel Novaes no sentido Sul/Norte é Centro; e o que está à esquerda é Bomba. Na linha Sul, situa-se a Av Getúlio Vargas (a linha do trem); o outro eixo é a Avenida Antonio Rodrigues Nogueira (antiga Rua Direita) que sai do centro em direção a Barrocas. Nessa direção, o que está à esquerda é Bomba; o que está à direita é Santa. E, na zona Oeste, situam-se o enclave Os Treze (noroeste) e a Vila de Fátima, antiga Coruja, sudeste. 

  O açude da Bomba não existe mais. Virou um pinicão, pois recebe o esgotamento sanitário dos bairros Rodagem, Santa e Oseas. Ainda existe uma lâmina dágua (fio d'água) com um capinzal e todos os quadrantes do antigo açude foram sendo aterrados, aos poucos, com a construção de casas até mesmo em cima do antigo pontilhão. Existe até uma capela no local e várias casas comerciais e de serviços - oficinas de automóveis e de tratores. Há, ainda, o campo da Lixa (de futebol) hoje cercado e com uma arquibancada e liga constituida. 

  A tendência é desaparecer de vez na medida em que o esgotamento sanitário sejá concluido. Na atualidade, encontra-se na Baixa de Dr Samuel e se avançar na direção Sul deve por fim a lâmina d'água do que resta da antiga bomba. Hoje, são centenas de casas em torno da bomba sendo o enclave principal a rua dos Tamarineiros. O bairro cresceu e está quase todo urbanizado com calçamento em paralelepípedos com uma boa área comercial na sua zona Norte. Na parte Sul tem uma pracinha - da Bandeira; e no centro do bairro um colégio.

  Quando ainda havia o açude pescava-se na bomba, mas o local não era piscoço. Há muitas histórias de pessoas que morreram aprendendo a nadar na Bomba, a maioria conversa fiada. Muitas pessoas de minha geração aprenderam a nadar na Bomba, local que era considerado o nosso mar. O pontilhão da Bomba - área onde passava o trem - na zona Norte - era o local ideal para dar caidas quando o açude estava cheio. Diz-se que, nesse local, morava o lobisomem de Serrinha, numa loca. Havia, ainda, quando o açude estava cheio uma lámina d'água que se formava onde está Os Treze que chamávamos de açudinho, bom para aprender a nadar. Na parte Sul ficava o pontilhão - também estrada antiga que se dirigia Barrocas - área de escape da água quando o açude enchia. 

  A Bomba, também, era um local turístico para a população serrinhense e as pessoas iam com as familias para fazer foptografias e até pic-niques. (TF)