quarta-feira, 12 de maio de 2021
Cultura

ROSA DE LIMA COMENTA LIVRO DE CONTOS O PAÍS DOS CEGOS DE H.G.WELLS

Wells é um escritor inglês dos século XIX e XX criador do conto com a ficção científica
Rosa de Lima , Salvador | 05/04/2021 às 10:54
O país dos cegos, excelente livro
Foto: BJÁ
  
  O escritor inglês Herbert George Wells (1866/1946) que assinou seus mais de 100 livros com a marca H.G.Wells integrava a geração da época dos 'romances científicos' - uma mistura de realismo com ficção. É o autor, ao menos, de três livros famosos desse conteúdo (A Guerra dos Mundos, a Máquina do Tempo e o Homem Invisível) em que já abordava o advento do estado mundial - tão falado nos dias atuais - uma guerra nuclear e a ética em relação aos animais. 

  Wells foi um dos autores pioneiros na ficção em contos com estilo alinhando a imaginação à especulação científica e uma criatividade impressionante. Deu, assim, uma nova perspectiva a esse gênero literário.

  Vamos comentar desse autor o livro de contos "O País dos Cegos e outras histórias" (Editora Alfaguara, 2014, 341 páginas, R$55,00 na internet, tradução de Bráulio Tavares, direitos da Editora Objetiva) onde revela toda a sua genialidade em suas narrativas, o que nos parece raro num escritor. A maioria tem contos fantásticos na ficção e outros medianos e até medíocres. HG Wells, ao contrário, cada conto é melhor do que o outro, ou pelos menos em igual qualidade, o que leva o leitor a se sentir ainda mais interessado em seguir adiante para ler toda a obra. 

  Evidente que não é um livro - como se diz no popular - para se ler de um só fôlego. Pelo contrário, deve ser lido em vários dias ou até meses a depender do tempo livre da função laboral de cada pessoa, apreciando as narriativas de Wells, degustando-as como se fosse um bom vinho.

   De cara, o conto que dá título ao livro "O País dos Cegos" é sensacional. O autor nos leva a um país ficcional a trezentas milhas de Chimborazzo, nas brenhas selvagens dos Andes equatorianos, onde havia uma área (país) de cegos e tudo funcionava bem, com toda uma estrutura hierarquizada administrativa, completamente diferente de qualquer civilização mundial.

   E, o que fez o autor. Colocou neste país isolado do mundo um personagem (Nunez) que enxergava normalmente e que por lá apareceu após um deslizamento de terra durante investigações numa área de erupção vulcânica da Montahha Apodrecida, este, sim, considerado anormal, um ser estranho e que tinha o poder maligno de enxergar.

   Só isso já paga o livro. Não que se possa medir o valor de uma obra por moedas. Apenas figurativo. Os diálogos entre Nunez e os três homens que o recepcionaram no País dos Cegos é de uma criatividade singular.

  Os três homens cegos seguraram Nunez após o acidente que o levou numa avalanche ao local e o apalparam de cima abaixo, sem dizer mais nada, até que terminaram seu exame. - Cuidado ai! - exclamou ele, quando um dedo foi enfiado no seu olho, e percebeu a estranheza deles diante daquele órgão, com suas pálpébras trementes.

  - Vamos levá-lo aos anciãos - disse o cego Pedro. - Gritem primeiro para que as crianças não se assustem - disse o segundo cego. Eles conduziram Nunez em direção a umas casas e ele disse: - Eu posso ver. - Ver? - disse o cego Correa. - Sim, ver - diz Nunez, virando-se para ele e ao falar, tropeçando no balde de Pedro. - Os sentidos dele são imperfeitos - disse o terceiro cego. Ele tropeça, fala palavras sem sentido. Levem-no pela mão. 

  A publicação da primeira versão desse conto foi publica em 1904. Depois tem o final modificado, em 1939. No contexto geral não houve alterações e o que o autor quis traduzir com isso são as relações de um indivíduo que se sente superior porque enxerga; com uma comunidade que não enxerga, mas leva uma vida normal, em níveis de compreensão da vida.

   No decorrer de sua permanência no país dos cegos é agregado a uma familia e conhece uma mulher Madina-saroté por quem se apaixona (e depois se casa) e o conto passa a ser ainda mais saboroso até que acontece uma avalanche de rocha e leva o casal à volta do mundo normal e vão viver felizes para sempre.

   O autor coloca-os a viver em Quito e certo dia ele pergunta a ela: - Você nunca consultou um oftalmologista? - Nunca - disse Medina-satoré - Eu nunva quis ver. - Mas, as cores, as formas e a distância! - Não vejo utilidade para suas cores ou suas estrelas. Não quero perder a minha fé na sabedoria superior.

   Na seleta desses 18 contos de Wells, chamo a atenção para "A Estrela", "A Loja Mágica", "Pollock e o homem do Porroh", "O Senhor dos Dínamos" e "A Pérola do Amor". São excepcionais. Em o "Senhor dos Dínamos" põe em duelo o poder da tecnologia e o misticismo primitivo e em "A Estrela" seu principal protagonista é a humanidade.

   Há quem sugira que Wells se antecipou ao gênero da ficção policial ou teria influenciado escritores nessa direção com seus fantásticos contos. Ou também teria se aproveitado dos escritos desse gênero para burilar a sua obra e antecipar algumas interpretações.

   O importante para o leitor, em nosso ponto de vista, é analisar os meandros do texto de Wells, a sua criatividade em abordar a ficção científica com dados reais da ciência.