Cultura

NO MEU TEMPO DE MENINO: CRIANÇA NÃO OUVE NINGUÉM, NEM TEM JUIZO (TF)

Era assim no meu tempo de menino e creio que até hoje continua igual com a expressão 'menino não tem juizo' ainda valendo
Tasso Franco , da redação em Salvador | 07/10/2020 às 09:13
Uma jangada que ficou nos sonhos
Foto: Seramov
  O jornalista Tasso Franco publicou no aplicativo wattpad a 22ª crônica do seu livro "No meu tempo de menino, o último apito do trem" (1945/1957), Serrinha (Amazon.com) sobre as 'artes' das crianças que não ouvem os pais nêm têm 'juizo".

   CRIANÇA NÃO OUVE NINGUÉM, NEM TEM JUIZO

 
   Só depois de adulto é que se fica entendendo porque criança tem cabeça de vento e não ouve ninguém. Faz de conta que ouve, mas, o que os pais falam para elas entram por um ouvido e saem pelo outro, numa boa.

   Lembro que, no meu tempo de menino meu pai falava assim: - Não faça isso! Tá ouvindo o que estou lhe falando. Eu respondia: - Estou. E minutos depois já tinha esquecido o que ele havia falado.

   - Você não vá tomar banho no tanque do Tiro de Guerra que é perigoso, recomendava.

   No outro dia, quando meu velho descia para ir trabalhar em sua tipografia e livraria, eu me mandava pelo sitio do meu avô, atravessava a Transnordestina na altura do atual ponto do Araci, estrada que dava em Pernambuco, encontrava-me com os amigos e ia tomar banho no tanque do Tiro de Guerra.

   Quando meu pai me pegava de volta, em casa, segurando-me pelas orelhas dizia: - Você não tem medo de morrer, não! E como criança não tem a mínima ideia do que seja a morte, eu não respondia nada. Ficava com a cara de banjo choromingando. Uma semana depois me mandava pro Tanque do Tiro de Guerra.

   Morte? A gente não tinha a menor ideia do que isso representava. Na cabeça da meninada, só quem morriam eram os velhos. Daí que medo da morte a gente não tinha porque não sabia o que era.

    Quando um menino novinho morria e era enterrado num caixão de anjo, todo branco, a gente achava curioso. Até mangava: - Lá vai um anjinho pro céu.

    Hoje, adulto, na quadra dos velhos, percebo que crianças não ouvem ninguém. Guardam ao longo dos anos ensinamentos e alguns comportamentos. Não furtar, respeitar os mais velhos, estudar, ser uma pessoa direita e honesta. Isso fica. No mais. Impossível lembrar o que recomendavam os pais e as professoras.

    - Vocês cheguem em casa e vão fazer o dever de casa, estudar - soletrava a pró Edna.

    Quando eu chegava em casa, almoçava e, às vezes, ia jogar bola no Largo da Usina. Minha mãe perguntava: - Tem dever de casa? - Coisa pouca, daqui a pouco em faço. 

    Tinha uma expressão muito usada pelos pais e pelas prós que era a seguinte: - Menino (a) não tem juízo. 

   O juízo - segundo eles - era dividido em dois segmentos. Ou seja, tinha a parte da inocência e dos descuidos, e um exemplo era passar o dedo no ferro de engomar em brasas para verificar se estava quente e queimá-lo; e a parte da teimosia: achar que poderia voar e pular da escada.

   - Quando digo que esse menino não tem juízo, ralhava minha mãe diante de alguma traquinagem que eu fazia.  Expressão que, creio, muitas crianças ouviram dos pais.

    Certo dia chegou um circo na Serra e armou no Largo da Usina próximo de nossa casa. A grande atração era o trapézio com aparelhos de ginástica para acrobacias aéreas. Um camarada mais forte ficava na base se balançado enquanto dois outros - tinha também uma mulher - mais magros voavam de uma espécie de plataforma gangorra chamada trapézio para o fortão da base pegá-lo pelos braços e depois eles retornavam dando cambalhotas.

    O auge era o trapézio duplo com dois voando pra lá e pra cá. Embaixo tinha uma rede para proteger se alguém caísse. Para dar mais sensação à plateia um sempre simulava uma queda para a gente gritar oh!oh!

   Quando a gente saía do circo o comentário geral era sobre os trapezistas e alguma graça dos palhaços. 

    Em casa, disse para minha mãe: - Quando crescer vou ser trapezista. Minha mãe nem me deu ouvidos. 

    No outro dia eu já estava de cabeça pra baixo pendurado numa goiabeira que tinha no quintal do chalé treinando para ser trapezista. Quando o circo foi embora meu sonho também se foi.

   Criança também tem isso. Além de não ouvir ninguém tem os sonhos, os desejos mais passageiros do mundo. Muitos diziam: quando eu crescer vou ser isso e com pouco tempo esqueciam o prometido. Raros eram aqueles que desde pequeno diziam: vou ser professor e se tornavam professor. 

    A regra geral eram os filhos seguirem os passos dos pais. Houve uma transformação muito grande na sociedade nos anos 1960 e essa regra desmontou-se. Eu mesmo pensei em ser padre - monsenhor Franco - médico, polícia e acabei como jornalista que era a profissão de meu pai. Meu irmão mais velho virou militar e depois administrador, quebrou a regra; e minhas irmãs, professoras, também quebraram a regra, pois, minha mãe era dona de Casa e comerciante avulsa.

    Outro sonho que tive foi ser maquinista de trem. Ferroviário era o melhor emprego da Serra e os maquinistas usavam uma roupa caqui com quépi. Era um charme. Falei pra meu pai: - Quando crescer vou ser maquinista. Meu pai deu risada e mandou eu estudar.
 
   Certa feita, eu, meu primo Franklin Fiúza, Bacalhau, Toinho de Sêo Neco, Boquinha, Tonho Avelino e Miro Pezão astuciamos fazer uma jangada de bambus para atravessar o açude Gravatá. Tínhamos visto na matiné do cinema algo parecido num filme de Tarzan, uns camaradas atravessando um rio repleto de crocodilos, na África, e achamos que poderíamos fazer uma jangada.

   Alguém lembrou que seria preciso um facão para cortar o bambuzal que havia no caminho do açude e cordas para puxá-los e amarrá-los fazendo a jangada. 

   Fizemos até uma locação. Saiamos do Largo da Usina, pegamos a Trasnordestina na altura do Posto Fiscal, onde hoje se situa a Hospital Antunes, e descemos por uma trilha de mato até o açude. Tinha um bambuzal, de fato, mas os bambus eram duros e precisaria de força para manejar um facão e cortá-los.
 
   A ideia nunca foi adiante. Primeiro porque não conseguimos um facão e não tínhamos força e destreza para fazer uma jangada. Mas, em compensação, tomamos banho no açude, no raso. A jangada ficou nos sonhos.

     Miro Pezão advertiu: - Cuidado com os jacarés.

   - Em Serrinha não tem jacarés, comentou Boquinha.

   - Mas tem cobra d'água - lembrou Franklin dizendo que iria embora. 

   E fomos todos nós de volta para casa. 

    Outra brincadeira perigosa que fazíamos da série menino não tem juízo era pongar e despongar do trem. Quando o trem despontava na direção do Bairro do Matadouro diminuía a velocidade para parar na Estação Rio Branco. A gente ficava de butuca nas imediações corria o quanto podia pegava numa alça de ferro e pongava no trem com máquina 'Maria Fumaça' a vapor. 

   Já a brincadeira de despongar era após a saída do trem na direção da Bomba. Na altura da rua Barão de Cotegipe, quando o maquinista apitava dando sinais de que aumentaria a velocidade, a gente despongava.

   De vez em quando um se ralava todo, mas, nunca ninguém morreu, pelo menos que eu saiba.

   A Bomba também era outro atrativo. Tinha uma caixa d'água para abastecer as máquinas dos trens e quando chovia muito na Serra esse açude transbordava. E, do alto dessa caixa, se jogar n'água era uma arte perigosa.

   Tenho a impressão que um dos campeões era filho de Sêo Brizolara que morava no Largo da Matança, próximo da Bomba.

    Agora, que tenho juízo, mas, já estou com ele falhando devido o alto da idade, lembro dessas coisas. Tenho a impressão que os meninos e meninas de hoje também não ouvem ninguém e não têm juízo. Há exceções.