Quem tem fé vai de Uber ou 99
Ana Virginia Vilalva , da redação em Salvador |
08/01/2026 às 20:04
Obras são apenas razoáveis
Foto: Jefferson Peixoto
Na próxima quinta-feira (15), durante a Lavagem do Bonfim, quem seguir em direção à Colina Sagrada pelo Caminho da Fé — localizado entre as Obras de Irmã Dulce e a Igreja do Bonfim, na Avenida Dendezeiros — vai se deparar com as obras de arte que retratam a história de Santa Dulce dos Pobres e a devoção ao Senhor do Bonfim completamente restauradas. As estruturas que compõem a exposição foram recuperadas após sucessivos atos de vandalismo registrados no ano passado.
As 14 estações, com 28 obras de arte que retratam a história de Santa Dulce dos Pobres e do Senhor do Bonfim, são fixadas com parafusos ocultos e contam com uma camada extra de proteção em vidro. Ainda assim, do total de peças expostas, 22 foram furtadas, o que tornou necessária a reposição dos 28 totens em madeira com chapas de aço inox, criados pelo artista Juarez Paraíso, autor da obra original. A produção do novo material foi viabilizada pela Fundação Gregório de Mattos (FGM).
De acordo com a gerente de Patrimônio da FGM, Roberta Ventura, as obras do Caminho da Fé possuem importância imensurável, tanto do ponto de vista artístico quanto espiritual e cultural, por homenagearem duas figuras profundamente enraizadas na devoção popular e na identidade do povo brasileiro: Santa Dulce dos Pobres, símbolo maior da caridade, da solidariedade e do cuidado com os mais necessitados, e o Senhor do Bonfim, expressão máxima da fé, da esperança e da tradição religiosa que atravessa gerações.
“Essas obras criadas por Juarez Paraíso, um dos mais relevantes artistas visuais da Bahia, dialogam diretamente com a religiosidade, a memória coletiva e a paisagem cultural do nosso território. O Caminho da Fé não é apenas um percurso artístico, mas um espaço de contemplação, reflexão e encontro entre arte, espiritualidade e identidade social”, afirmou Roberta.
A gestora destacou ainda que as obras do Caminho da Fé integram o conjunto de trabalhos de Juarez Paraíso que está em processo de tombamento e já conta com proteção legal provisória desde 2024, a partir da Notificação de Abertura do Processo de Tombamento. “Esse reconhecimento reforça o valor artístico e simbólico das obras, assegurando sua preservação para as futuras gerações. Mesmo com esse reconhecimento, elas vêm sofrendo atos de vandalismo, o que é extremamente grave”, reforçou.
Respeito ao patrimônio — De acordo com o Código Penal Brasileiro (art. 163), depredar ou danificar monumentos e bens públicos, tombados ou não, é crime, com penas que variam entre multa e detenção. O artista responsável pelas obras, Juarez Paraíso, ressaltou que o vandalismo se tornou uma questão de segurança pública, envolvendo educação, respeito à religião do outro e ao patrimônio coletivo.
“A obra de arte merece toda a atenção possível, porque é um investimento econômico e cultural, o que exige responsabilidade de todos. Para nós, autores e produtores, o vandalismo foi um golpe grande. Provoca dor e impotência quando se percebe que não há como resguardar completamente as obras. Hoje, elas estão de volta graças ao interesse e à responsabilidade da FGM, à consciência pública da gestão e ao respeito à Santa Dulce. A Fundação, em um ato de responsabilidade, promoveu a reposição das obras com uma equipe dedicada”, afirmou.
O artista lembrou que o projeto do Caminho da Fé foi desenvolvido durante a pandemia, sendo considerado um ato de esperança em um período marcado pelas incertezas da Covid-19. Além das obras de Paraíso, mais 14 artistas participaram da concepção das obras. São eles: Sônia Rangel, Márcia Magno, Edsoleda Santos, Paulo Rufino, Fernando Pinto, Jota Cunha, Washington Falcão, Leonel Mattos, Ray Vianna, Chico Mazzoni, Murilo, Bel Borba, Guache Marques e Juraci Dória. Márcia Magno e Washington Falcão também atuaram na produção do projeto e na restauração completa do material, no ateliê de de Juarez Paraíso.
Caminho da Fé — Inauguradas em 13 de agosto de 2020, o Caminho da Fé é rota religiosa de 1,1 quilômetro, pensada como trajeto a ser percorrido por fiéis entre o Santuário do Bonfim e o Santuário de Santa Dulce dos Pobres, na Península de Itapagipe. As obras estão instaladas ao longo da via em formato de totens com duas faces. Cada peça pode ser apreciada conforme o sentido do trajeto: um lado é visto por quem segue em direção à Igreja do Bonfim, e o outro por quem caminha em direção ao Hospital de Irmã Dulce.
O primeiro totem está localizado em frente ao Hospital Santo Antônio, nas proximidades da Igreja de Irmã Dulce. A partir desse ponto, as estruturas seguem alinhadas pela calçada no sentido da Igreja do Bonfim, formando um percurso com diversas obras distribuídas ao longo do caminho.