Salvador

TERREIRO DE CANDOMBLÉ É PICHADO COM ATAQUES DE INTOLERÂNCIA RELIGIOSA

Veja declarações do deputado Hilton Coelho e as informações dom Portal A Tarde
Da Redação ,  Salvador | 20/01/2026 às 12:07
Terreiro em Cajazeiras 11
Foto: DIV
   Amãe de santo Tatá Mutá Imê foi surpreendido pela notícia de que seu terreiro, no bairro Cajazeira 11, em Salvador, havia sido pichado com palavras de ódio religioso. Pela primeira vez, em 33 anos de história, o espaço amanheceu violado e com as marcas da intolerância pintadas em vermelho.

Nos portões de acesso ao Nzo Mutá Lombô ye Kayongo Toma Kwiza - templo religioso de tradição Bantu -, localizado na Rua Geraldo Brasil, e nas paredes da fachada, as palavras "Assassinos" e "Jesus" marcavam o tom do ataque covarde e silencioso, possivelmente, praticado nas primeiras horas da madrugada.

"Eu levantei umas seis e meia, tomei banho, e aí fui até a cozinha da roça [terreiro], que é um pouco mais abaixo, e quando eu cheguei lá, uma filha de santo que tinha acabado de chegar, me perguntou: 'meu pai, você já viu a pichação que fizeram na entrada da roça?' Eu disse não. Ela falou: 'pois é! está lá uma pichação, é melhor você subir e ver”, contou Tata Mutá Imê , como ficiou sabendo do crime.

Ele relembra que, ao subir até a entrada do terreiro, o impacto foi imediato. “Eu chamei um filho meu de santo e nós fomos até lá em cima. Quando a gente chegou lá e abriu o portão, estava lá escrito assassinos no plural. Cobrindo o letreiro do nome do terreiro, o portãozinho de entrada de pedestre, também todo pintado de vermelho. E o portão maior, onde entram os carros, escrito Jesus”, descreveu.

Mas, foi a palavra “assassinos”, escrita em destaque, que lhe provocou mais revolta e perplexidade. “Quando eu vi, eu tomei um choque! Porque a palavra assassinos no plural é muito chocante. Eu fiquei me perguntando: assassino por quê? Eu assassinei quem? Quem são os assassinos?”, questionou o sacerdote. (A TARDE)

HILTON COELHO

O deputado estadual Hilton Coelho (PSOL) apresentou uma Moção de Solidariedade na Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA) após o ataque sofrido pelo Terreiro Nzo Mutá Lombô ye Kayongo Toma Kwiza, que funciona há 33 anos no bairro de Cajazeiras XI. Para o parlamentar, o caso é mais uma expressão explícita do racismo religioso estrutural que segue vitimando os povos de terreiro em todo o país.

“Não se trata de conflito religioso. O que está em curso é violência, é crime, é perseguição racial e cultural contra povos negros e tradicionais”, afirma Hilton Coelho. Segundo o deputado, os ataques a terreiros não são episódios isolados, mas parte de um projeto histórico de silenciamento, demonização e tentativa de extermínio simbólico das religiões de matriz africana.

Na moção, o legislador destaca que a intolerância religiosa não pode ser relativizada nem naturalizada. “Intolerância não é fé. Intolerância é destruição de territórios sagrados, tentativa de apagar modos de existir que resistem há séculos. Racismo religioso é crime e precisa ser tratado como tal pelo Estado”, reforça.

Hilton Coelho também critica o uso instrumental da religião para justificar violência. “A quem usa o nome de Deus para espalhar ódio, é preciso dizer com clareza: Jesus Cristo foi um homem palestino, pobre e perseguido, e jamais pregou violência, ódio ou a destruição do outro. Usar a fé como arma é trair qualquer princípio ético ou espiritual”, declarou.

O deputado cobra a atuação imediata do poder público, com investigação rigorosa, responsabilização dos agressores e políticas efetivas de proteção aos terreiros e demais territórios tradicionais. “O Estado brasileiro não pode continuar sendo omisso diante da escalada de ataques aos povos de terreiro. Defender os terreiros é defender a democracia, a liberdade religiosa e o direito à existência plena do povo negro”, afirmou.

Ao final, Hilton Coelho reafirma solidariedade ao Terreiro Nzo Mutá Lombô ye Kayongo Toma Kwiza e deixa um recado direto: “Terreiro é espaço de vida, cuidado, memória e resistência. Tocar em um terreiro é tocar em todos nós. Basta de ódio, intolerância e racismo religioso”.