quarta-feira, 08 de dezembro de 2021
Colunistas / Literatura
Rosa de Lima

NEY MATOGROSSO, A BIOGRAFIA, POR JULIO MARIA: ROSA DE LIMA COMENTA

A obra mais completa e detalhista da vida do cantor Ney Matogrosso, 80 anos de idade
11/11/2021 às 08:38
As biografias estão em moda na literatura e a cada ano ganham mais adeptos, o que significa leitores (as). Aliás, diria refazendo esta frase inicial, as biografias sempre foram um gênero literário dos mais admirados pelo público, imagino pelo inusitado de saber a trajetória de um (a) personagem. Há sempre muita curiosidade em torno disso especialmente quando se trata de um estadista ou um artistas famoso e polêmico. E quanto mais polêmico melhor. Ai é que os leitores (ras) gostam e compram, consomem com avidez.

  Dito isto, sem abanar a brasa para qualquer sardinha, esse gênero tem milhares de bons livros, o jornalista e crítico musical do jornal O Estado de São Paulo, Júlio Maria, nos ofereceu o melhor e mais completo trabalho sobre um dos maiores artistas do palco em música e dança, com "Ney Matogrosso - a biografia" (Companhia das Letras, 2021, SP, 481 páginas, R$65,00 - nos portais da internet - R$75,00 nas livrarias. 

  Diria que o trabalho de Julio Maria vai além da biografia de Ney, em si, uma vez que conta passagens da história da Música Popular Brasileira envolvendo produtores, gravadoras, músicos, compositores, colegas de profissão do cantor e outros. 

  O que, se ressalte, seria quase impossível tratar da vida de um artista que completou 80 anos de idade neste 2021 e vem atuando desde dos anos 1970, por si só uma década de mudanças comportamentais no Brasil e no mundo, em especial, no patropi envelopado numa ditadura militar. Daí a abrangência da obra para além biografia do cantor.

  E Ney, filho de um sargento do Exército, herói nacional da FAB, nascido nesse berço e cercado de orientações educacionais tradiconalistas, com sua mãe servindo de contra-ponto a postura do pai, natural que assim agisase seu pai dentro de sua formação militar - ainda que no livro seja exposta como algo autoritário - vai começar a trilhar a atividade artística exatamente nesse contexto, o que foi uma quebra de paradigma muito forte e que ele conseguiu avançar garças a sua tenacidade, a sua arte, a sua voz diferenciada que foi abrindo portas no mercado musicial.

  Uma trajetória dificil repleta de altos e baixos, mais baixos do que altos no inicio da carreira, proém que não abateram a moral do artista com sua determinação de seguir em frente. Somente aquelas pessoas que são determinadas e abraçam uma causa artística conseguem tal proeza. Além dessa determinação existia o talendo nato do cantor que também percebeu que sua performance artística era diferenciada, ousada, algo de novo no planeta música brasileira que não existia e era de agrado de parte da população.

  Vale registrar que os anos 1970 foram de mudanças no mundo ocidental embalados pelos aconteceimentos de maio de 1968, em Paris, uma revolução nos costumes e o Brasil, embora sob o comando de uma ditadura militar não escapou desse avanços da rebeldia entre os jovens e que permeou em segmentos da sociedade. E, claro, chegou a produção musical com muita força nas apresentações das casas de shows, teatros e festivais televisivos.

  E Ney, aos poucos foi se inserindo nesse contexto como um furação na incial com os "Secos e Molhados" (Ney, Gerson e João) e depois sólo parecendo um homem-bicho ou bicho-homem com penas, chifres, plumas e outros adereços. 

  O BRasil - também registre esse fato - a partir da Copa do Mundo de 1970, no México, passou a fazer transmissões de TV a cores e esse veiculo de comunicação ganhou uma dimensão nacional e uma força extraordináriao superando o rádio, o que mostrava os artistas (ao vivo e a cores) permitindo que uma legião de fãs fosse agregada a um cantor (a) com apresentações em festiva e nos programas de maior audiência, entre eles, o Fantástico, Rede Globo.

  Toda essa engrenage, no entanto, necessitava de algo que só um grande artista possui que é o talento musical. E, no caso de Ney, além de sua voz diferenciada, seus falsetes e seus agudos, havia a performance provocadora em palco - hole, considera aceitável em todas as camadas da sociedade- o que, na época, era objeto de censura e de repulsa em vários segmentos da sociedade, até mesmo entre artistas e apresentadores de televisão.

   Ney foi superando todos obstáculos e se firmando como grande artista que é, teria escapado da morte diante aventuras e desventuras que cometeu com o uso de drogas e do homossexualismo sem freios, o que, levou a morte um dos seus amores (Cazuza) por uma nova patologia que surgiu no meio deslumbrado (AIDS), sobretudo na década de 1980, e hoje, velho, na expressão pura da palavra, o que significa com plena maturidade no dizer de Jung, ainda nos oferece espetáculos de grande beleza.

   Não foi fácil para Julio Maria escrever essa biografia mesmo com todo conhecimento que tem da area musical, ele que também é o autor de "Nada Será como Antes, biografia de Elis Regina, 2015, vencedor do Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Artes (APCA), o que demandou 5 anos de pesquisas. 

  O livro é detalhista, traz milhares de informações checadas e cenas de bastidores, declarações de artistas, ações de produtores e CEOS de empresas, enfim, um trabalho que, por maior conhecimento que um autor tenha sobre o assunto (música) requer anotações, checagens e descrições de relatos bem fundamentados.

   É exatamente isso que a obra de Julio Maria nos oferece: um trabalho dedicado, completo, confiável e que traz à luz de quem não teve a oportunidade de acompanhar essa trajetória do artista Ney Matogrosso de perto, passa a ter.