sexta-feira, 22 de outubro de 2021
Colunistas / Literatura
Rosa de Lima

OS TRABALHADORES, livro de Eric Hobsbawn, ROSA DE LIMA

Eric Hobsbawn foi historiador inglês considerado marxista
22/11/2016 às 12:55
 É denso em informações o livro do historiador marxista Eric Hobsbawn intitulado "Os Trabalhadores - Estudos sobre a História do Operariado" - (Editora Paz e Terra, 515 páginas, Record Distribuiçãoi) livro que reúne ensaios do historiador inglês a partir de estudos e análises que fez no Reino Unido e algumas observações comparativas com o que se passava no mundo na primeira fase do capitalismo industrial.

   Evidente que o autor não considera que seja um trabalho sobre a história do operariado no mundo. Mas, como a Inglaterra era a sociedade industrial mais desenvolvida no século XIX e tinha alguns estudos e documentações sobre o operariado, de algum forma, o trabalho de Eric representa esse movimento globalizado da época.

   Basicamento em "Os trabalhadores", Hobsbawm, retrata a história do movimento operário do fim do século XVIII até a Primeira Guerra Mundial. O trabalho está dividido em quatro grupos de assuntos e inclui estudos sobre o "novo socialismo", de 1889-1914, o renascimento do socialismo na Inglaterra no final do século XIX e documentos gerais que abrangem um período cronológico mais amplo dos movimentos trabalhistas.

   O autor aborda o tema do operariado desde a época do movimento do 'Luddismo' (destruidores de máquinas) que atuou em diversas comunidades inglesas que adotaram o capitalismo industrial substituindo o trabalho braçal por máquinas, disturbios que resultaram em altos preços na economia inglesa, mas que não impediram o avanço da mecanização especialmente na tecelagem. O 'luddismo', no entanto, criou o que o autor chama de "hábito da solidariedade que é o fundamento do sindicalismo eficaz que leva tempo para se aprender", 

   As novas máquinas da Revolução Industrial, especialmente as que economizavam mão de obra, provocaram uma mudança total nas relações sociais de produção. 

   Ademais, o autor acrescenta o papel do Estado nesse processo: "Se o empresariado inovador tinha o grosso da oipinião pública contra ele, como conseguiu ele se impor? Por meio do Estado. Foi bem comentado que, na Inglaterra, a Revolução de 1640-60 marca o movimento decisivo na atitude do Estado em relação a maquinaria".

   Os ensaios reunidos em "Os trabalhadores' também enfocam, sobremaneira, as razões que impediram o processo trabalhista de se tornar mais eficiente tanto foram os movimentos seguintes ao 'luddismo', por exemplo, o 'Metodismo', movimento espiritual cristão que enfatizou a relação com Deus e que teria atrasado a revolução ou o desenvolvimento de um movimento revolucionário na Inglaterra, resposta que os historiadores nunca chegaram a uma conlusão. O certo é que a revoilução, de fato, aconteceu na Rússia, em 1917.

   Teoricamente, Lenine - especialista em movimentos de massa - pregou que uma deterioração das condições de vida das massas, e um aumento de sua atividade política, não seriam suficientes para causar uma revolução. Deve haver também uma crise nos negócios da ordem reinante, e um corpo de revolucionários capaz de dirigir e comandar o movimento".  A Inglaterra nunca conseguiu esse consenso, ou essa unanimidade teórica prevista por Lenine.

   O 'Metodismo" - uma espécie de religião trabalhista - num Reino Unido monáqruico, católico e protestante, produziu conflitos que se seguiram ao longo dos anos mais como uma base religiosa do que trabalhista.

   O avanço do operariado como um todo, no entanto, seria inexorável com o tempo diante das relações internacionais do mercado. A Inglaterra experimenta a fase do 'artesão ambulante'  - trabalhadores organizados aprendizes que atuavam de forma itinerante - um sistema que começou a operar em todo país, sendo que os cortadores de lã de Devon, constituiam uma itinerância organizada que se iniciou em 1700. 

   Esse sistema organizado se expandiu para outros segmentos do operariado - pedreiros, ferreiros, tipógrafos, metalurgicos, cadadores, chapeleiros, sapateiros, etc - com organizações sindicais preliminares.

   Outro tema abordado pelo autor é se o padrão de vida inglês se modificou para melhor no período que vai de 1790 a 1850. Há controvérsias. Admite-se, a priori, que aconteceu uma queda da mortalidade a uma regulação maior da oferta de trabalho e do consumo de alimentos e parece consensual que a industrialização e a urbanização melhoraram automaticamente os padrões de vida, em qualquer caso, "porque os salários industriais normalmente tendem a ser mais altos do que os não industriais ou os rurais".

   É nesse período e em grande parte do mundo e o Brasil não esteve fora desse contexto que a maioria dos países sofreu uma intensa urabnização deixando de ser rurais para ser citadinos. 

   E essas mudanças geraram cortiços, vilas operárias e outros modelos, que, embora representassem não um padrão de vida ideal, era melhor do que o rural. E, evidente, fortaelceu o associativismo, o cooperativismo e o sindicalismo.

    É diante desse debate sobre o padrão de vida entendendo-se, ainda, que a Revolução Industrial foi uma coisa má para os trabalhadores pobres que se discute a sociologia da industrialização, o sindicalismo se fortalece e o socialismo ganha corpo.

   O autor avança abordando os trabalhadores do gás, os sindicatos trabalhistas gerais de 1889-1914 até chegar a "A aristocracia trabalhista: costumes, salários e carga de trabalho" e reúne um vasto material sobre essas temas e considera algumas das possíveis implicações desses fatos sobre os movimentos operários.
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   O livro tem um amontodo de dados, é quase didático, com análises criticas. A maioria dos artigos inseridos no livro foram escritos para publicações diárias não-especializadas visando ao interesse geral. 

   "Os trabalhadores" é uma excelente opção de leitura para os apreciadores do gênero e também para o público em geral, não especialista, mas que deseja conhecer a história da humanidade, numa época importante que foi a primeira revolução industrial.

   Os textos de Eric foram escritos há 50 anos e são uma referência para estudiosos uma vez que o historiador inglês aborda a história social do trabalho não se limitando as ações dos líderes dos trabalhadores, mas as classes e as pesquisas existentes na época. É livro referência.