sexta-feira, 22 de outubro de 2021
Colunistas / Literatura
Rosa de Lima

ROSA DE LIMA comenta sobre o chocante livro "O Diário de Anne Frank"

A crueldade nazista e os sonhos de uma jovem adolescente alemã judia que vive num abrigo secreto por 2 anos até ser descoberta e morta num campo de concentração
30/07/2016 às 13:39
  Os episódios que aconteceram na II Guerra Mundial são os mais documentados pela literatura na humanidade. Há livros de todos os tipos e gêneros, de autores de várias nações, uma infinidade de filmes e obras visuais que resultaram desses depoimentos, ensaios, romances, crônicas, diários e outros. A gente parece que nunca vai se surpreender com mais nada do que já foi dito tantas e tão diversificadas são as publicações. Ledo engano.

   O Diário de Anne Frank publicado no Brasil pela Record, 347 páginas, e que encabeça a lista dos livors mais lidos do país segundo as principais publicações da imprensa nacional, é chocante, emocionanete, singular, agradável e igualmente deprimente, sufocante e às vezes até hilárico, isso porque retrata um momento da guerra na ocupada cidade de Amsterdam, Holanda, mostrando a vida de duas familias judias alemãs (os Van Pels e os Frank) e mais um agregado adulto (Fritz Pfeffer), dentista também judeu alemão nascido em Giessen, 1889, que viveram num esconderijo por dois anos, até serem descobertos e levados para campos de concentração onde morreram.

   As narrativas da asdolescente Anne Frank, iniciadas em 12 de junho de 1942 quando ela tinha 13 anos de idade e encerradas dia 1 de agosto de 1944, revelam como viviam essas pessoas no total de 8 protegidas no sotão de um escritório de cristãos holandeses, duas secretárias (Miepe Gies e Bep Voskujil) e dois empresários (Victor Kugler e Johannes Kleiman), personagens que sobreviveram após a guerra, e todo o drama da mudança de suas vidas no decorrer desse espaço de tempo.

   O que chama a atenção no livro, daí o interesse mundial dessa obra (o pai de Anne Frank, Otto, foi o único sobrevivente desse grupo dos 8 ao ser libertado do Campo Auschwitz pelas tropas russas organizou uma fundação com o nome da filha que difunde o diário) é a forma como a garota via a guerra, os conflitos gerados entre as duas familias confinadas no sótão, seu amor por Peter, um jovem um pouco mais velha do que ela e que vivia no mesmo espaço, integrante da familia Pels, como ela amadureceu entre a fases de pré-adolescente (13  anos) para a de adolescente (15 anos) e seus desejos e crenças, seu amor à vida no futuro assim que a guerra terminasse, seus estudos, as brigas com a mãe, os ciúmes da irmã Margot, e as diferenças entre as duas familias.

   Enfim, um relato de um drama profundo e ao mesmo tempo de sonhos que qualquer jovem tem numa vida normal, só que, no caso de Anne, ela era uma criança que fora livre até os 13 anos de idade e que passara a ter uma vida de prisão, confinada, na entrada da adolescência, quando qualquer jovem passa por modificações profundas de comportamento.

   Pela idade da garota até surpreende a sua maturidade ao encarar determinadas situações, suas brigas com a mãe e seu amor fraternal ao paí, dois pólos diferentes de repulsa e atração, mas, ao mesmo tempo de um forte amor; suas dessavenças com o dentista Fritz (tratado no livro por Dussel), um senhor adulto de comportamento irracível moldados no século XIX, e suas relações com os integrantes do esconderijo que, se esforçavam ao máximo para terem uma vida normal, estudavam, comemoravam as datas de aniversário, tinham regras rígidas do uso racional do banheiro e dos alimentos, mesmo vivendo numa prisão domiciliar e temendo a Gespato a todo momento, apavorados com possíveis denúncias anônimas que os levassem à morte.

   Anne usa um personagem da ficção Kitty para escrever seu diário, como se estivesse narrando para uma amiga seu dia-a-dia no esconderijo secreto e durante todo o perído em que esteve confinada, presa, mais de dois anos, em nenhum momento apelou para forças divinas, promoveu ela e os seus orações aos céus para a possibilidade de salvarem-se e encaravam a situação como uma época de guerra, real, uma ocupação dos nazistas alemães, embora ela não entendesse o porque de tanta maldade com as familias judias.

   A relação da vida exterior dos confinados com o que se passava no mundo da guerra era conseguida através de um rádio onde captavam as ondas da BBC de Londres, que transmitia informações em várias línguas, e de informes passados pelas secretárias e pelos empresários aos seus país.

   Em 19 de novembro de 1942, ela narra a Kitty quando da chegada do Sr Dussel para incorporar-se ao abrigo secreto: "O Sr Dussel contou muita coisa que não sabíamos sobre o mundo lá fora. Ele tinha noticias tristes. Incontáveis amigos e conhecidos foram levados a um destino terrivel. Noite após noite, veiculos militares verdes e cinza cruzavam as ruas. Eles batem em todas as portas, perguntando se ali mora algum judeu. Em caso positivo, toda a familia é levada. À noite, quando está escuro, costumo ver longas filas de gente boa e inocente com crianças chorando , andando sem parar, controlados por um punhado de homens que as empurram e batem até elas quase cairem. Ninguém é poupado. Os doentes, os velhos, as crianças, os bebês e as mulheres grávidas - todas são forçadas a marchar em direção à morte".

   No Natal de 1943 escreveu poara Ktty: "Gostaria de andar de bicicleta, dançar, assoviar, olhar o mundo, me sentir jovem e saber que sou livre, mas não posso deixar isso transparecer. Imagina se nós oito sentíssemos pena de nós mesmos ou se andássemos com a tristeza no rosto. Aonde isso nos levaria? Às vezes me pergunto se alguém algum dia entenderá o que estou dizendo, se alguém deixaria de lado a minha ingratidão e não se importaria com uma judia, e apenas me visse como uma adolescente  que precisa demais de uma simples diversão".

   O que Anne menos fala é sobre os acontecimentos da grande guerra no campo de batalha, salvo uma outra inserção, até porque não tinha informações sobre isso, e abroda com essa simplicidade vista no texto acima, a vida de uma adolescente e seus sonhos confinada num sótão, numa prisão com uma tênue perspectiva de sobrevivência. 

   Ainda assim, seguiu nos estudos de matemática, de inglês, de francês, adotou uma técnica de escrever imaginando que após a guerra pudesse ser uma escritora. "Sei o que quero, tenho um objetivo, tenho opiniões, uma religião  e amor", diz ela em abril de 1944. 

   Nessa época, encantada por Peter, escreve: "Depois do ano novo aconteceu a segunda grande mudança : meu sonho, graças ao qual descobri que desejava ...um rapaz, não uma amiga, mas um namorado. Também descobri uma felicidade interior, abaixo do meu exterior superficial e alegre. De vez em quando eu ficava quieta. Agora só vivo para Peter, porque o que vai me acontecer no futuro depende prinicpalmente dele".

   Na última narrativa do seu diário, em 1 de agosto de 1944 diz: "Sou guiada pela Anne pura, de dentro, mas por fora sou apenas uma cabrita dando saltos, forçando a corda a qual está amarrada".

   Na manhã de 4 de agosto, um carro parou na rua Prinsengracht, 263, local do esconderijo, e dele sairam vários militares comandados pelo sargento SS (Gestapo) Karl Josef Silberbauer, e prendem os oito integrantes do abrigo secreto e mais os senhores Kugler e Kleiman, roubaram tudo de valor da casa e pouparam as secretarias Miep e Bep.

   Anne Frank e sua irmã Margot foram levadas para o campo de concentraação de Auschwitz e no final de outubro levadas para Bergen-Belsen, campo de concentração perto de Hannover. A epidemia de tipo que irrompeu no inverno de 1944/1945 matou milhares de prisioneiros. Anne morreu (estimativa) em março de 1945. O campo de Bergen-Belsen foi libertado pelas tropas inglesas em 12 de abril de 1945. 

   O namorado de Anne, Peter foi obrigado a participar da marcha da morte, em 16 de janeiro de 1945, de Auschwitz até Mauthausen (Áustria), onde morreu em 5 de maio de 1945, três dias antes do campo ser libertado.

   Quem salvou o diário de Anne foram as secretárias. Até hoje, ninguém sabe quem delatou as duas familias a Gestapo.