ter�a-feira, 19 de outubro de 2021
Colunistas / Literatura
Rosa de Lima

ROSA DE LIMA destaca o panegírico de D. Afonso Furtado, Bahia, 1676

Livro editado pela Companhia das Letras organizadores Stuart B Schwartz e Alcir Pécora
17/05/2016 às 10:20
Eu costumo dizer que aquele (a) que não cultua o passado histórico dificilmente vai entender o presente. E Salvador, com seus 467 anos de existência é assim. É preciso revisitar sua história para entender a vida atual, os costumes, suas tradições, o porque da capital baiana ainda preservar em suas ruas e em seu centro histórico toda essa vivência.

   Aos moradores locais talvez não seja tão perceptível o sentir desse clima, dessa ambientação, mas, para aqueles que nos visitam essa sensação é imensa, de pisar na história da primeira capital do Brasil. É essa mesma sensação que sentimos quando vamos a Lisboa, a Londres ou a Paris; apreciando o Castelo de São Jorge; a Torre de Londres e sua prisão secular; e a Bastilha parisiense.

   O livro "O Panegírico fúnebre a D. Afonso Furtado, de Juan Lopes Sierra (Bahia, 1676), As Excelências do governador - organizadores Stuart B. Schwartz e Alcir Pécora - (Editora Companhia das Letras, 429 págimnas, SP, 2002) resgata um momento da história da Bahia, a cidade do Salvador após a dominação espanhola filipina (1580/1640), capital da colônia governada pelo visconde de Barbacena e vice-rei do Brasil, época em que o país deixava de ser hegemônico na cultura do açúcar e se volta para a descoberta de metais preciosos, e a Bahia experimenta uma série de entradas (e bandeiras) comandadas por paulistanos a soldo da corte, em busca do ouro e da prata.

   Os comentários de Stuart B. Schwartz (introdução) e Alcir Pécora são fundamentais para se entender o ambiente brasileiro e sua presença no mundo, a economia, a politica, a sociedade na segunda quadra do século XVIII, o que é abordado por Schwartz; e o panegírico (ato fúnebre do governador) em sí escrito sob encomenda mas que traz anotações valiosas sobre Salvador, o comportamento das pessoas, a elite emplumada, as forças civis e militares, o clero e assim por diante.

   O livro é fabuloso. Rio Mendonça era tão obececado pela descoberta de ouro que chegou a ser chamado de "El Doradomaníaco" e é exatamente no período que vai de 1670 e a descoberta do ouro em Taubaté, em1695, que o Brasil enfrenta dificuldades econômicas enormes, e "nosso herói' - como classifica Sierra já havia morrido.

    É exatamente sse ato da morte e a descrição do funeral do governador, em 1676, o mais sugestivo do livro. O funeral, naquela época e até os dias atuais, noutra dimensão, mas com o mesmo propósito, era um evento popular "voltado para a o consumo e a edificação moral do povo", alerta Schwartz. Diria que foi assim com Mendonça e com governadores mais recentes, Octávio Mangabeira, Luis Viana Filho e Antonio Carlos Magalhães.

    Salvador era um exemplo ainda em evolução naquela quadra do século XVIII de uma cidade católica, com seus majestosos tempos, alguns construidos décadas anteriores a 1670 - a Escola dos Jesuitas, a Misericórdia, São Francisco, etc - fruto dos lucros gerados pela indústira açucareira e pelo messianismo católico. Muitos irmãos da Santa Casa doavam fortunas para obras sociais e ornamentais com a suposta 'garantia' ao reino de Deus. 

    Era a cultura da época e os sepultamentos dos poderosos eram atos de ostentação, de rezar missas encomendadas por pagamento pelo purgamento dos pecados.

    Juan Lopes Sierra é magistral nessa descrição e no panegírico, além do prólogo, exórdio e explicações iniciais, narra a vida na Corte na Bahia e como o governador, devoto de Nossa Senhora do Monteserrat contraia uma erisipela e é atendido pelos médicos, passa por dezenas de intervenções com ventosas e acaba morrendo de infecção generaliza.

    Mendonça era pio e achava que as orações a santa do Montesserat, padroeira da Catalunha, o salvaria e sequer teve o cuidado, mesmo definhando ao caminho da morte, de cuidar de sua sucessão, sendo substituido por um trinvirato até que o rei de Portugal enviasse um novo governador geral para o Brasil, o que só aconteceu dois anos depois de seu falecimento, em 1678. 

    Lopes Sierra é primoroso: "Estando nosso Herói visitando Nossa Senhora, lhe deu o achaque que lhe soía dar de erisipela, mas não foi como soía o sentimento que lhe causou a febre, porque lhe deu um tal desleixamento no corpoo, Que se viu que desmaivam seus vitais espiritos, sinais certos de arruninar sua vida"

   Em seguida, descreve Sierra: "Visitaram-no os médicos e foi mandado sangrar Quatro vezes. Com isso deu mostra o inimigo de haver-se retirado, deixando a perna enxuta. Poucas semanas depois, a doença piorou e descreve Sierra: "Que astuta andou aqui a morte, pois aconteceu o mais fraco para levar (como levou) o mais forte, ajudada por 14 sangrias que lhe deram passo franco para sair da vida... a este sinal acudiu padre Alexandre de Gusmão, Tão Alexandre na virtude que se comunica com o senhor de todos os Alexandres".

   A linguagem é barroca, belíssima. Veja como descreve a morte do governador: "Como é possível possa haver presa em um espírito de que feito entrega ao seu criador salvador e redentor e em quem confio, Jesus, Jesus, Jesus seja comigo. E com estas palavras deu a Alma a Deus em 26 de novrmbro (1675) entre as cinco e as seis da manhã, tempo em que no Carmo estavam dizendo as 7 missas que havia mandado dizer em sua intenção".

   Conceitua: "Quem ao Mar das Misericórdias divinas arrojou a âncora da fé, assegurou a nave da eterna vida".

   Naquela época, mais do que hoje, os cristãos entendiam que havia uma vida eterna nalgum outro lugar e paga-se missas para esse fim glorioso.

   Sierra: "Logo que Deus foi servido levar para sí nosso Herói, o secretário, em virtude de firmado acordo, deu possessão do governo aos três nomeados governadores dentro do palácio... e ordenou ao forte Real da Praia e São Bento que, com interpolação de tempo, fosse disparadas peças de artilharia todo o dia... ordenou-se e deu-se aviso ao Cabido da morte de sua senhoria e mandou dobrar campanas...ordenou-se aos mestres de campo que se achassem, às seis da tarde na Praça, com seus terços formados, marchando em fúnebre aparato, atrasados piques e bandeiras destemperados e enlutados tambores, coronhas da arcabuzaria viradas e seus capitçães e oficiais de sorte que represente um funeral de triste espetáculo".

   ​O cabido foi convocado, os irmãos da Misericórdia (primeira Santa Casa do Brasil) toda a sociedade, a corte, os militares, o povo, todo um aparato para o velório em Palácio.

   E deu-se o sepultamento. Narra Sierra: "Desta parte se encaminhou ao convento de São Francisco e, chegando à Igreja, foi posto no fúnebre aparato de que fizemos relação. Aqui, então, solenemente o encomendou com música, o cabido. Partido, que foi, entraram em comunidade os religiosos e, com seu capucho canto, o encomendaram. Logo que acabaram, chegou a irmandade da Santa Misericórdia e enterrou a nosso Herói na sepultura que se abriu junto da Água benta para cumprir, como dito fica a sua última vontade".

    O livro tem pincelladas de um retrato da Bahia seicentista com seus costumes e tradições.