sexta-feira, 22 de outubro de 2021
Colunistas / Literatura
Rosa de Lima

ROSA DE LIMA analisa Zelota, a vida e a época de Jesus de Nazaré

A primeira referência não bíblica sobre Jesus é de do judeu Flávio Josepo, morto 100 d.C. Em uma breve passagem na sua obra Antiguidades,
08/11/2015 às 10:58
   Formado em Harvard e na Universidade da Califórnia, o escritor ​Reza Aslan, nascido no Irã, é especialista em temas religiosos.

   Aslan é autor de Zelota - A Vida e a Época de Jesus de Nazaré (Zahar Editora, 303 páginas, 2015) livro que mostra uma nova perspectiva sobre uma das histórias mais extraordinárias da humanidade, a época da ocupação do Império Romano na Palestina e a vida revolucionária de Jesus de Nazaré.

  O que teria de original neste livro? Por que este livro despertou tanto interesse no mundo acadêmico e fora dele? 

   Primeiro porque a abordagem sobre Jesus - o homem histórico - é pouco estudada, conhecida e analisada, muito aquém do Jesus das pregações religiosas e dos Evangelhos. Daí o interesse pelo livro diante de novos conhecimentos e revelações.

   O trabalho de Aslan tem um conteúdo precioso, bem pesquisado sobre uma época em que prevaleceu a oralidade sobre a documentação escrita, e revela informações aos leitores até então pouco esclarecedoras sobre a vida de Jesus de Nazaré, em Nazaré, como era esse tempo, como viviam as pessoas, quais eram as tribos e os grupos com messiânicos de resistência ao Império Romano na Palestina, a importância que tinha o Templo de Jerusalém e a ocupação das legiões romanas na região.

   É um relato da vida de Jesus no seu tempo, Jesus homem e revolucionário o qual, somente anos depois seria proclamado santo pelo cristianismo primitivo. Mas, em sua existência, integrante de um grupo de revoltosos que combatia o Império Romano com punhais e com pregações, a palavra de Deus para implantar o seu reino.

   Revoltas que aconteceram antes mesmo da existência física de Jesus com seus precursores assassinos, os sícaros (homens que usavam punhais para matar seus adversários, tal como agem hoje os palestinos contra os israelenses), os grupos comandados por Ezequiel, Simão de Pereia, Judas o Galileu, Menahem, Simão filho de Giora, Simão filho de Kochba - postulantes de ambições messiânicas e todos executados pelos romanos.

   Zelota foi o partido revolucionário que lançou uma guerra sangrenta contra a ocupação romana na Galiléia. 

   O trabalho de Aslan recupera, tanto quanto possível, o Jesus da história, o Jesus antes do cristianismo: "o revolucionário judeu politicamente consciente que, há 2 mil anos, atravessou o campo galileu reunindo seguidores para um movimento messiânico com o objetivo de estabelecer o Reino de Deus, mas cuja missão fracassou quando - depois de uma entrada provocadora em Jerusalém e um audacioso ataque ao Templo - foi preso e executado por Roma pelo crime de sedição".

   Na interpretação do autor é também sobre como, após Jesus ter fracassado em estabelecer o Reino de Deus na terra, seus seguidores interpetaram não só a sua missão e a identidade de Jesus, mas também a própria natureza e a definição do messias judeu. Ao contrário de outros messias que também foram executados pelos romanos, a pregação de Jesus se consolidou numa doutrina e numa religião que, posteriormente, foi acolhida por Roma.

   No âmago da questão, o que o autor mostra aos leitores é a ambientação da região e a natureza da revolta contra os romanos, como eram os costumes e a fé em Deus, como viviam as tribos sob o controle de Roma, como se armavam para as revoltas, a fé no messianismo muitos se proclamando eleitos por Deus para comandarem o Tempo e expulsarem os usurpadores romanos, isso antes mesmo do Século I da era moderna.

   O livro é de dificil interpretação ou com múltiplas interpretações, mas tem revelações fundamentais para se entender o tempo de Jesus e sua missão, e o que se sucedeu a partir de sua existência e morte, estabelecendo-se um divórcio entre o judaismo e o nacionalismo messiânico radical, com a Torá substituindo o templo, dando lugar ao judaismo rabínico.

   A primeira referência não bíblica sobre Jesus é de do judeu Flávio Josepo, morto 100 d.C. Em uma breve passagem na sua obra Antiguidades, Josepo escreve sobre um diabólico sumo sacerdote judeu chamado Ananus que, após a morte do governador romando Festo, condenou ilegalmente um certo "Tiago, irmão de Jesus, o que eles chamam de messias a apedrejamento por transgressão da lei".

   Depois há uma referência do historiador Tácito (morto em 118 d.C) e Plínio, o jovem (morto em 113 d.C). No campo bíblico, a citação inicial sobre a existência de Jesus encontra-se nas epístolas de Paulo (66 d.C), em Tessalônicos, com registros de três cenas: a última ceia, a crucificação e a ressureição (corintios).

   O autor diz que Paulo "pode ser uma interessante fonte para os interessados na formação inicial do cristianismo, mas é um guia pobre para descobrir o Jesus histórico".

    Há, portanto, visões diferenciadas de Jesus, mesmo nas citações dos evangelhs considerando-se os sinópticos (Marcos, Mateus e Lucas), os canônicos (Tomé, Felipe, o livro secreto de João, o evangelho de Maria Madalena) e os gnósticos descobertos no alto Egito, em 1945.

   Vale observar que o domínio romano sobre Jerusalém começou 63 a.C. quando Pompeu Magno entrou na cidade com suas legiões conquistadoras e sitiou o templo.

   Um sacrilégio, Os judeus consideravam Jerusalém o umbigo do mundo, o eixo do universo, a cidade mais original e venereada de todo o planeta. 

   A partir de Pompeu Magno a Judéia passou a ser um protetorado romano e os judeus um povo dominado. Mas essa guerra é antiga desde a época do rei Davi e do seu filho Salomão, da Arca da Aliança e do Templo de Salmoão. 

   O Império Persa e Jerusalém com ele, caiu diante dos exércitos de Alexandre, o Grande, em 323 a.C. Os macabeus já praticavam guerrilha em 198 a.C. 

   Portanto, quando os romanos dominaram a Galiléia sabiam das tradições guerreiras do local e tinham que dominar o templo, por conseguinte o Sumo Sacerdote.

   Essa foi durante quase 100 anos a estratégia usada por Roma primeiro aliando-se a Herodes, o qual tinha um pacto com as 24 seitas judaicas em torno de Jerusalém, em especial, os mais influentes: fariseus - rabinos estudiosos das classe média e baixa;  saduceus - sacerdotes mais conservadores; e os essênios.

   Foi Herodes que ergueu o templo na plataforma do topo do monte Moriá, o mais alto da cidade, e o embelezou com colunas romanas e pilastras de mármore. Quando Herodes, o grande, morreu, em 4.1.C. o imperador Augusto dividiu o reino com os três filhos deste: Arquelau, Herodes Antipas e Filipe. 

   A divisão do reino acabou sendo um desastre para Roma e as rebeliões explodiram.

   Jesus nasce nessa época em plena efervescência revolucionária contra Roma. Até ficar adulto era um desconhecido. Tornou-se um tekton (carpinteiro) trabalhador artesanal diarista que atuava com os irmãos Tiago, José, Simão e Judas (as irmãs de Jesus não são citadas) em Séforis, a cidade mais desenvolvida da região. 

   Os judeus de Séforis eram o produto da revolução social de Herodes (novos ricos) e é a partir dessa época que nasce a quarta filosofia na crença ao zelo. "Ser zeloso ao Senhor era andar nas pegadas ardentes dos profetas e heróis do passado". Esses judeus que adotaram essa filosofia de vida, recorrendo aos extremos da violência se necessário, foram chamados de zelotas.

   Jesus caminhou sua existência nesse ambiente com mudanças nos comandos romanos na Palestina, mortes, assassinatos de sacerdotes, pilhagem aos ricos e toda uma revolta lantente com os sícaros, a invasão de Vespasiano e seu filho Tito, a queda de Nero em Roma, o domínio de Pôncio Pilatos e José Caifás, filho de Ananus, o assassinato do sumo sacerdote Jônatas pelos sícaros, e o desafio de Jesus e seus seguidores na invasão do tempo e sua execução.

   Zelota é um livro arrebatador. Repleto de informações, fantástico. Para quem deseja conhecer a vida de Jesus, o homem, é uma excelente pedida.