ter�a-feira, 26 de outubro de 2021
Colunistas / Filosofia Popular
Rasta do Pelô

Mulher do Rasta do Pelô exige uma pulseira igual a de Pilar

Esse pessoal emergente classe C tem cada pedido que não é brincadeira
20/09/2013 às 16:55
 Quanto mais eu rezo mais assombração me aparece. Agora, dona Céu, minha santíssima esposa, depois de quase amassar e revoltear os cabelos avermelhados tentando produzir no salão de Adréia as madeixas de Pilar, da novela Amor à Vida, que ela acha uma coisa do outro mundo em beleza, agora, quer porque quer, adquirir uma pulseira de esmeraldas que Pilar usa na novela, com quase 10 centímeros da mais pura esmeralda dos Andes e que tenha, também, uma serpente dourada como destaque.

   E o pior é que sobrou aqui para o César dos pobres, porque o César dos ricos só na novela, dono de um poderoso hospital, e o nobre acá mal vende suas toucas de lã no Pelourinho, como se sabe, nesta temporada de chuvas tá saindo poucas. Este prefeito Netinho tem cabeça de chuva e ainda vai é me quebrar, com essas chuvas dia sim e outro dia também.

   Dona Céu me deu uma intimação daquelas justo penalizada diante do sofrimento de madame Pilar, após tomar uma touca de touro de César com a bela Aline, e estava eu lendo minha gazeta quando ela mandou que levantasse a vista para a televisão e sentenciou: "É aquela pulseira alí que eu quero. Você está vendo?"

   Vendo até que eu estava mas fiz de conta que não era comigo que ela estava falando e então recebi uma advertência complementar: - Preste atenção porque é daquela pulseira, olhe bem, (quase entorta meu pescoço) que eu desejo, com esmeraldas da Colômbia e serpente do Egito.

   Borrei-me. - Se a gente vender nossa casa, minha bicicleta, meus canários, o papagaio Dudu e todo o estoque de toucas não dá pra comprar nem a serpente, repli para me impor.

   - Se vire. Você não disse que é amigo do conselheiro Souza, personalidade de cofre recheado; do marketeiro Mendes, do Bahia; de Dr. Zéu de Itaberaba, outro endinheirado; de Badu, o intelectual de bigode, então fale com seus amigos, tome um empréstimo, mas, o certo é que desejo uma pulseira desta e não me venha com produtos de segunda categoria, nem da Romantel, nem marcacita do Mocambinho.

- Tá certo, vou pensar no seu caso, desconversei, justo quando a TV daqui de casa pifou e não ligou mais. Diria que só não foi minha salvação porque a mulher já tinha uma foto da pulseira de Pilar com todos os detalhes e ela me deu uma cópia para eu levar comigo ao Pelô.

   No outro dia, liguei para Badu, em Floripa, pedindo socorro e narrei-lhe o ocorrido.

   - Essa é braba compadre. Uma pulseira daquela, se for mesmo de esmeralda e brilhantes, esqueça - disse-me.

   - Fazer o quê, então?

- A solução é uma genérica, uma coisa parecida que você pode comprar no camelô da Avenida Sete, depois consegue uma embalagem chique em alguma loja, embala a peça e estará resolvido o problema.

   Achei a idéia interessante (coisa aliás, que já havia pensado) e organizei a solucionática.

   Por posto, a novidade já estava nas ruas, à venda, os camelôs mercando a "pulseira de Pilar", "a legitima", "sem falsificações", na base de R$15,00.
 
   Depois de muita choradeira adquiri uma com um pequeno amasso por R$10,00 fui até uma loja de semijoias de um amigo no Edifício Oxumaré, consegui uma embalagem bacana, fiz um cartão com dizeres amorosos, dei um grau na peça com uma flanela e um pouco de kaol, e quando cheguei em casa que entreguei o reglado foi uma alegria geral.

   Dona Céu adorou. Ligou logo para Tati a fim de contar a novidade, sabe como é esse pessoal emergente da Classe C, e marcou para ir à missa da benção da Igreja de São Francisco, a terça do Pelô, ostentando a peça, ela, Tati, Tina Copo, Márcia Dendê, Tia Perfume e Andréia.

   De minha parte fiquei de butuca rezando para que a pulseira não descolasse algum pedacito e estacionei na Cantina da Lua esperando a mulherada após a missa para algumas geladas.

   E lá vieram elas, Céu à frente gesticulando bastante para mostrar a pulseira, até muito elegante se encontrava, com sua Louis Vuiton de alças brancas, a legitima falsificada, e sapato de oncinha de salto alto.

   A semana passou e lá em casa foi só alegria. Dei-me bem. No domingo, a mulher resolveu ir a Praia do Farol da Barra para um banho de mar e acertou com Andreia saborear uns caranguejos no Sergipe. Achei um bom programa e lá fomos nós.

   Sol forte, Céu se deitou logo numa toalha, passou óleo no corpo para dourar os pelos, e eu fiquei apreciando um baba dos times da Roça da Sabina e sentando numa cadeira de praia, na minha. 

   Não marquei ao certo o tempo, mas, mais ou menos 1 hora e meia depois, lá se foi Céu dar uma caída no mar e eu ainda avisei: "Tira a pulseira porque o mar está bravo".

   Ela nem tchum. Seguiu para o mar ao lado de Andreia e quando eu menos esperei, maré puxando pro lado do Barravento, só vi foi as pernas de Céu pro ar, a onda do mar lhe lançando feito carambola descendo a ladeira. 

   Corri feito um louco para socorrer a mulher e o fiz com bastante competência. Fomos saindo d'água, Céu parecendo um bife à milanesa, eu aparando a coitada e ela segurando a pulseira com a mão esquerda.
Eu disse: - Você quase morre engolindo água do mar para não largar essa pulseira. 

   - Qué qui tinha...não ia morrer coisa nenhum e pronto... respondeu limpando a pulseira que, a essa altura, uma parte das esmeraldas falsificadas tinha ficado no mar e o que sobrou, quando o sol bateu, mareou, e a serpente tava da cor de bronze e com a língua do lado de fora.

   Rapaz... a mulher partiu para cima de mim com gana dizendo que a pulseira era falsa, que eu tinha engando ela, e foi um fuzuê tão brabo que precisou Andreia dar um calmante a ela. 

   Pior que Andreia puxou da bolsa o remédio, sem olhar o que de fato era, acho que deu foi um Tyneol e dona Céu ficou vermelha, teve uma alta de pressão que quase se vai.

   Mesmo assim, tateava a mão na pulseira e tentava colocar a língua da serpente no lugar.