Augusto Lima, chamado por Jaques Wagner pelo apelido "Guga", é o personagem que liga o senador baiano ao caso Master. (Com informações Globo.com)
Da Redação , Salvador |
31/07/2026 às 14:17
Senador Jaques Wagner
Foto: Ag /senado
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça tornou públicos nesta quinta (30) os detalhes da investigação da Polícia Federal contra o senador Jaques Wagner (PT-BA), ex-líder do governo no Senado que teria ganhado propina para beneficiar o Banco Master.
Os novos documentos revelam detalhes de uma trama que ficou conhecida em 18 de junho, quando Wagner foi alvo de busca e preensão da PF na nona fase da Operação Compliance Zero.
Entre outros pontos, investigadores identificaram 74 ligações telefônicas entre Jaques Wagner e o banqueiro Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro no Master, que também é investigado por supostas fraudes financeiras.
Augusto Lima, chamado por Jaques Wagner pelo apelido "Guga", é o personagem que liga o senador baiano ao caso Master.
Wagner foi apontado como articulador político em benefício do banco de Vorcaro em matérias que tramitavam no Senado, como a ampliação da margem para as pessoas tomarem empréstimo consignado. A medida interessava ao Master.
Em troca da suposta atuação, Wagner teria recebido, de acordo com as apurações, um apartamento de R$ 2,45 milhões em Salvador (BA) e repasses de R$ 3,5 milhões para empresas de seus familiares.
Nesta sexta-feira (31), Jaques Wagner, que tentará a reeleição ao Senado em outubro, disse estar "tranquilo" com as investigações e afirmou que vai "provar a inocência".
Veja abaixo alguns novos detalhes do inquérito (clique no link para seguir ao conteúdo):
Relação de proximidade e 74 ligações
Brindes caros
Encontros no gabinete do senador
Relação de proximidade e 74 ligações
Para a PF, contatos telefônicos entre Jaques Wagner e Augusto Lima, feitos a partir de outubro de 2023, indicam "relação de proximidade" entre os dois.
Em um dos exemplos citados no relatório policial, mensagens indicam que Lima convidou Wagner e familiares para visitar a Ilha da Paixão, no litoral baiano, disponibilizando uma aeronave particular para levar o petista.
A esposa de Wagner chegou a escrever para Lima: "A gente ama vcs". O banqueiro respondeu: "Amamos vocês!! Bj [beijo] no coração".
Também no contexto da demonstração de proximidade entre os investigados, o relatório policial transcreve mensagens de julho de 2024 extraídas do telefone de Daniel Vorcaro, em que o ex-banqueiro diz a um interlocutor que, na avaliação de terceiros, o Master seria "próximo do governo".
Vorcaro diz que essa proximidade é "mkt [marketing]" para o Master, e orienta o interlocutor a fazer essa informação chegar ao presidente Lula e à base aliada.
"Vou mandar então pra tio guiga e Jaques", responde o interlocutor, citando o senador e um outro investigado, Guilherme Sodré, amigo de Jaques.
"Ao que tudo indica, essa proximidade com figuras do governo, conforme tratada no diálogo, seria operacionalizada por intermédio de Augusto Ferreira Lima, tendo em vista que este mantém vínculo de proximidade significativamente mais estreito tanto com o senador quanto com Guilherme Sodré ('Guiga') do que Daniel Bueno Vorcaro", diz a PF.
A polícia identificou 74 chamadas de áudio entre Wagner e Augusto Lima entre novembro de 2023 e maio de 2025, totalizando mais de cinco horas e meia de conversas.
"No que se refere aos meios de comunicação, a análise do dispositivo [celular de Lima] evidencia clara e reiterada preferência dos interlocutores pelo uso de ligações telefônicas por meio do aplicativo WhatsApp, em detrimento de trocas de mensagens escritas", aponta um relatório policial.
Brindes caros
Um relatório da PF que integra o inquérito diz que Augusto Lima exercia uma "dinâmica de poder" sobre políticos da Bahia e cita como exemplo uma conversa entre o banqueiro e sua secretária, em dezembro de 2024, sobre a distribuição de "lembranças de final de ano" a "figuras relevantes da política baiana".
Os brindes seriam garrafas de vinho cujo valor variava de R$ 2.500 a R$ 5.300.
Nesse contexto, o relatório menciona que os brindes seriam para Jaques Wagner e para os também petistas Rui Costa e Jerônimo Rodrigues — ex-governador e atual governador da Bahia, respectivamente —, além de Bruno Reis, prefeito de Salvador, ACM Neto e Antônio Rueda, todos do União Brasil.
"Os brindes efetivamente foram enviados", diz a PF, que obteve foto dos produtos compartilhada por WhatsApp entre Lima e sua secretária.
"Embora os valores envolvidos sejam relativamente modestos quando comparados às cifras relacionadas às fraudes já descortinadas no âmbito desta Operação da Polícia Federal, é certo que tais condutas podem caracterizar a concessão de vantagens em razão da função pública", acrecentou a PF.
Costa, Reis, ACM Neto e Rueda não são investigados pela PF no inquérito que perdeu o sigilo nesta quinta-feira.
Outro tipo de "brinde" encontrado pela polícia foi a compra de ingressos para Jaques Wagner e convidados irem a um show da cantora Taylor Swift.
"No que se refere aos benefícios concedidos a familiares do parlamentar, destacam-se os ingressos disponibilizados por Augusto Ferreira Lima para shows da cantora Taylor Swift. Em agosto de 2023, foram adquiridos 2 ingressos no valor total de R$ 63.339, enquanto, em novembro de 2023, foram disponibilizados 5 ingressos para camarote, no valor aproximado de R$ 3.500", afirma o relatório.