TITULO DA MATÉRIA DA GAZETA DO POVO: - Silêncio une adversários e possível acordo faz Master virar assunto proibido em campanha na Bahia
Tasso Franco , da redação em Salvador |
18/06/2026 às 18:26
Até agora, ACM Neto não falou nada do caso Wagner e nem deverá falar
Foto: DIV
O escândalo do Banco Master avança sobre a política baiana com força suficiente para fazer o que muitos achavam ser improvável: aproximar campos que, na arena eleitoral, raramente dividem o mesmo lado. Grupos do ex-prefeito de Salvador ACM Neto, do União Brasil, e do senador Jaques Wagner, líder do governo Lula no Senado e figura central do PT na Bahia, teriam costurado nos bastidores um pacto de não agressão: nenhum dos dois lados tocará no caso Master durante a disputa eleitoral deste ano.
Isso valeria mesmo com Jaques Wagner sendo alvo, ao lado do ex-banqueiro e ex-sócio de Daniel Vorcaro, Augusto Lima, da nona fase da operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal nesta quinta-feira (18).
Os debates sobre o acordo para não tratar do caso Master na campanha vinham se intensificando desde fevereiro. A reportagem apurou que todos os outros temas, porém, estariam liberados.
Investigadores que acompanham os desdobramentos do Master na Bahia dizem que a lógica do acordo seria simples, mas reveladora. Tanto ACM Neto quanto Jaques Wagner teriam razões para preferir que o assunto não ganhe espaço nem interfira na decisão dos eleitores.
ACM Neto, ex-prefeito de Salvador e pré-candidato ao governo do estado, teve seu nome associado ao banco a partir de um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Segundo o documento, ele teria recebido R$ 5 milhões do Banco Master e da gestora Reag.
Na época, ACM Neto afirmou que as cifras eram referentes a serviços de consultoria e disse estar à disposição para prestar esclarecimentos à Justiça. ACM não foi alvo da operação da PF desta quinta. Procurado pela Gazeta do Povo para falar sobre o suposto acordo para o período eleitoral, ACM e o União Brasil da Bahia não se manifestaram. O espaço segue aberto.
Do lado petista, uma sócia da empresa BK Financeira, casada com um enteado de Jaques Wagner, teria recebido pelo menos R$ 11 milhões do Master por meio de um contrato firmado em 2021. Essas relações estiveram na mira da PF na atual fase da operação.
Quando o assunto se tornou de conhecimento público, o senador disse que jamais participou de qualquer intermediação ou negociação em favor da empresa.
Nesta quinta, o senador afirmou que o apartamento investigado pela PF foi comprado inicialmente por um empresário para ajudar sua filha a adquirir um imóvel ainda em construção e que pretendia recomprá-lo posteriormente.
Wagner também negou ter atuado em favor do Banco Master, disse que o dinheiro em espécie apreendido tem origem legal e minimizou sua relação com Daniel Vorcaro. Ele afirmou ter se encontrado com o ex-banqueiro apenas duas vezes. Leia mais sobre a manifestação do senador petista sobre a operação da PF no fim desta matéria.
O silêncio sobre o caso Master na Bahia não se limitaria aos dois partidos. O acordo também valeria para aliados de palanque. Enquanto isso, o PT baiano carrega um terceiro ponto sensível: as conexões do ex-banqueiro Augusto Lima com figuras do partido.
Em nota, a defesa de Lima sustentou que as diligências desta quinta eram desnecessárias e que o empresário está há seis meses à disposição das autoridades. Os advogados afirmaram ainda que as medidas contribuirão para demonstrar a licitude das condutas apuradas, ressaltando que Lima sempre atuou dentro dos limites da lei, com transparência, responsabilidade técnica e observância das normas que regem o sistema financeiro e a administração pública.
Quando era governador da Bahia, o atual ministro da Casa Civil do governo Lula, Rui Costa, conduziu a privatização da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), dona da rede de supermercados Cesta do Povo. O negócio foi arrematado em 2018 pelo próprio Lima. Mais tarde, Lima deixou o Master e levou consigo o Credcesta, cartão de crédito consignado para servidores e aposentados integrado no pacote do leilão da Ebal.
Em fevereiro passado, quando o escândalo do Master já tomava conta da pauta pública, Rui Costa defendeu a privatização e argumentou que o produto de crédito consignado foi o que viabilizou a venda da empresa. Ele não foi alvo da Compliance Zero.
ACM Neto quer se eleger para o governo estadual. Wagner busca renovar o mandato de senador e garantir a reeleição do governador Jerônimo Rodrigues, também do PT, na Bahia.
Em vídeo publicado nas redes sociais em março, ACM Neto, que não é alvo da PF, se colocou à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos. Ele protocolou requerimento no STF e na PGR para investigar o que chamou de vazamento de dados sigilosos "manipulados".
Chegou a afirmar que os contratos firmados por sua empresa de consultoria com as instituições financeiras são regulares, que a empresa foi criada após sua saída de cargos públicos e que, no período das contratações, não havia questionamentos sobre a regularidade das instituições envolvidas.
DETERMINAÇÃO DO STF
Por determinação de Mendonça, a PF cumpriu 18 mandados de busca e apreensão e medidas cautelares na Bahia, em São Paulo e no Distrito Federal. Entre as diligências houve busca em endereços pessoais de Wagner, em Salvador, e de familiares. Segundo a PF, a operação teve como objetivo "apurar a eventual participação de agente público em esquema de irregularidades envolvendo instituições do sistema financeiro nacional".
Os investigados são suspeitos de corrupção passiva, corrupção ativa e lavagem de dinheiro. A PF tenta esclarecer se o senador teria atuado em três diferentes frentes em favor de iniciativas legislativas de interesse do Master no Congresso Nacional, entre elas a chamada "Emenda Master", proposta que ampliaria os limites de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e que também tem o senador Ciro Nogueira (PP-PI) entre os coautores.
A suspeita é de que Jaques Wagner possa ter recebido vantagens indevidas, que incluiriam um apartamento de luxo, repasses de aproximadamente R$ 3 milhões por meio de empresa ligada a familiares do senador, além da utilização de aeronaves de Vorcaro. Essa linha investigativa surgiu a partir da análise de mensagens do celular de Augusto Lima, apreendido em novembro de 2025. Lima já é monitorado por tornozeleira.
Em manifestações anteriores, Wagner também declarou não temer eventual delação de Vorcaro e admitiu ter mantido relações comerciais com Lima antes de sua associação com o ex-controlador do Master. As apurações indicam que a aproximação entre Wagner e Lima se iniciou em 2017, no contexto da privatização da Ebal.
Na época, Jaques Wagner ocupava o cargo de secretário de Desenvolvimento Econômico no governo baiano e participou do processo de desestatização da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal). Após tentativas frustradas de venda, Augusto Lima propôs ampliar a utilização dos cartões da rede, incorporando serviços financeiros que posteriormente dariam origem ao programa Credcesta.
Jaques Wagner nega favorecimento ao Banco Master e minimiza relação com Daniel Vorcaro
Na tarde desta quinta, Jaques Wagner afirmou em entrevista à BandNews que o apartamento investigado pela PF fazia parte de uma negociação para ajudar sua filha na aquisição de um imóvel ainda em construção, razão pela qual teria pedido ao empresário Augusto Lima que realizasse a compra inicialmente, comprometendo-se a recomprá-lo posteriormente.
O senador negou qualquer atuação em favor de interesses do Banco Master e disse que os valores em espécie apreendidos têm origem regular, provenientes de diárias de viagens realizadas no exercício do mandato.
Wagner também negou proximidade com Daniel Vorcaro, afirmou ter se encontrado com o ex-banqueiro apenas duas vezes e sustentou que sua relação com ele é "praticamente zero".
Disse ainda ter recebido um telefonema do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em manifestação de solidariedade e confiança e descartou deixar a liderança do governo no Senado ou desistir de sua pré-candidatura à reeleição ao Senado pela Bahia.
O parlamentar também foi procurado pela Gazeta do Povo para comentar sobre o acordo com ACM Neto, mas o petista não se pronunciou sobre essa questão. O espaço segue aberto.
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