Política

MARCHA MUNICIPALISTA DE ACM NETO COMEÇA EM FEIRA E LEMBRA LOMANTO (TF)

Veja as semelhanças das duas campanhas (1962-2026) e ACM Neto deve se apropriar do municipalismo
Tasso Franco , Salvador | 27/03/2026 às 19:29
ACM NETO com Zé Cocá (Prefeito de Jequié) e Leur Lomanto Jr (neto do ex-governador Lomanto)
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  Cada campanha política tem sua própria história e cada época possui características próprias. Ainda assim, especula-se que o marketing político da campanha de ACM Neto (UB) poderá explorar um tema-slogan utilizado na campanha de Antônio Lomanto Jr contra Waldir Pires, em 1962, o municipalismo com a afirmativa “o interior marcha para a capital”. Lomanto foi eleito governador da Bahia com essa marca que se espalhou pelo estado e sufocou Waldir, o qual, embora tivesse o apoio do PSD, do poderoso ex-governador Antônio Balbino, perdeu o pleito.

   A Bahia era governada Juracy Magalhães (UDN) que divulga uma carta endereçada ao deputado André Negreiros Falcão (líder do PSD na ALBA) abrindo a possibilidade de uma proposta de pacificação na politica baiana. Waldir era deputado federal (PSD) e não queria saber disso uma vez que a provável pacificação beneficiaria Tarcilo Vieira de Melo, secretário de Viação e Obras Públicas, vinculado ao PSD; e/ou o secretário da Fazenda, Josaphat Marinho (PL).

   Seis outros personagens se moviam no tabuleiro: o ex-governador Antônio Balbino (consultor de Jango), que queria voltar a ser governador; o ministro da Educação, Oliveira Brito; Rui Santos (UDN) presidente da UDN na Bahia; Luís Viana Filho (PL) e Manoel Novaes (PR); Clemens Sampaio (PTB).

   No final de março, Waldir lança em Salvador o Comitê Central do Movimento Popular Waldir Pires (MPVP); Lomanto foi a São Paulo tentar o apoio de Jânio Quadros. Todos, portanto, estavam em pré-campanha. Vieira de Melo fazendo o jogo duplo com Juracy.

   São muitos os detalhes dessa pré-campanha e mais informações vocês podem ler no meu livro “O Circulo do Poder na Bahia”.

   Resumindo, Waldir e Vieira de Melo fizeram um acordo estabelecendo que, quem ganhasse na convenção um apoiava o outro. Balbino se sentiu preterido e retirou a pré-candidatura. Em maio, 27, no Hotel da Bahia, Lomanto diz que é candidato e não quer saber de pacificação. À imprensa, fala pela primeira vez do municipalismo: “Sei de fonte limpa, que alguns interessados, pregados no asfalto, não admitem o municipalismo, e se esforçam para fazer desse equivoco “um cavalo de batalha”.

  A pacificação de Juracy nasceu e morreu através de cartas. Em 15 de junho, Juracy dá por encerra essa missão (não cumprida) e apoia (ou coloca na lista de seus preferidos) Lomanto.

   Vale observar que o vice-governador de Juracy era Orlando Moscoso, adversários políticos. Em junho, o Diretório do PSD aprova o nome de Waldir a governador (35 votos) conta 15 para Oliveira Brito. Na convenção, que aconteceu a 21 de julho, Waldir teve 394 votos; Moscoso candidato a vice (a votação nessa época era separada) e Balbino ao Senado.,

  Em 22 de Julho, Lomanto, aclamado pela UDB, faz grande comício em Jequié que ficou conhecido como “Hoje, com Lomanto é feijão na lapela; amanhã, com Lomanto é feijão na panela’. Já estavam com Lomanto., Clemens Sampaio (PTB), Manoel Novaes (PR), Ruy Santos (UDN), Wilde Lima (PRP), Padre Palmeira (PST_), Juracy Jr (UDB), Menandro Minahim (PDC).

  Em resumo do resumo: Agosto, 12, definidas as chapas: Lomanto Jr e Rocha Pires (vice); e para o Senado Dantas Junior e Lima Teixeira; Waldir Pires e Orlando Moscoso (vice) Antônio Balbino e Josapath Marinho, senador.

  Em 1962, Lomanto teve um grande apoio da Igreja Católica capitaneado pelo arcebispo dom Augusto Álvaro da Silva, que usou todos os meios de comunicação daquela época – homiliaas em missas, distribuição de panfletos nas igrejas, organização da ALEF – Liga da Família Bahiana – difundindo que Waldir Pires era comunista, “um vermelho perigoso”. A associação era vermelho = a diabo e a Bahia não poderia ser governada por um capeta.

  A letra musicada da campanha de Lomanto era: - Lomanto, esperança do povo/ É gente nossa/ É sangue novo/ Municipalista, filho de agricultor/ É amigo do pobre, irmão do trabalhador.

  Veja vocês que já se praticava “fake-news”, pois, nem Waldir era comunista, militante do PCB; nem beneficiário do “ouro de Moscou”; nem Lomanto era filho de agricultor (entendendo-se um produtor rural modesto), nem irmão do trabalhador (também visto o trabalhador rural, nessa época, o da enxada). Lomanto era, de fato, filho de agricultor (noutro patamar) e amigo do pobre, irmão do trabalhador (também noutro patamar, a partir de sua gestão popular cono prefeito de Jequié, que lhe dava essa credencial.,

   Na campanha (ou numa campanha) o importante é encaixar a mensagem no eleitorado. E a de Lomanto foi encaixada como uma luva e embora tivesse uma fisionomia urbana; assemelhada a de Waldir, que também era filho do interior (Acajutiba) se diferenciava por morar no interior enquanto seu adversário passava a imagem de um advogado da capital, um intelectual.

  Essa foi a chave da vitória lomantista, mas não se resumiu a isso e vocês viram acima quando tempo durou a pré-campanha até a escolha dos nomes em convenção.

  Agora, o que percebemos é uma realimentação do municipalismo com a escolha de Zé Cocá, prefeito de Jequié, para vice de ACM Neto, e vai anunciar a chapa na próxima segunda-feira (30), em Feira de Santana. O evento acontecerá às 18 horas, no teatro da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), no Centro da cidade, município governado por José Ronaldo de Carvalho. 

    Este (o municipalismo) seria um contra-ponto a estratégia que vem sendo usada pelo petismo na Bahia na cooptação de prefeitos com dois municipalistas, Otto Alencar (PSD) e Ronaldo Carleto (Avante) e as investidas do governador (como aconteceu hoje) promovendo convênios com as Prefeituras, mesma estratégia que foi usada por Rui Costa, em 2022, para eleger Jerônimo.

   Voltaremos ao assunto das eleições 1962 (Waldir x Lomanto) e 2026 (Jerônimo x ACM Neto), pois, como dissemos, o tempo é outro, as comunicações se modificaram, etc, mas o jogo politico segue o mesmo (ou parecido). Lomanto não ganhou sozinho amparado apenas na chama do municipalismo (peça muito importante na difusão do nome e da propaganda da campanha); nem Jerônimo ganhou em 2022 porque era petista.

   O jogo politico é intricado e pesa muito numa campanha e é isso que ACM Neto está fazendo agora com Cocá, Angelo Coronel, João Roma, provavelmente tendo um candidato a presidência da República, no passado recente com João Leão, enfim, um xadrez que pode ser emoldurado com o municipalismo.

   Qual produto a ser usado não saberia dizer: Lula usa o L; Jânio usou a vassoura; Lomanto o feijão na lapela. (TF)